Presságio
Aeron foi o primeiro a se aproximar, os braços cruzados.
— Seu idiota. — disse, ríspido. — Ir sozinho contra um ninho de orcs? Você podia ter morrido.
Lilith suspirou fundo, ajeitando os cabelos.
— Não sei se te elogio ou se te dou um tapa, eu já sabia que você tinha um poder latente e um dom impressionante... Mas enfrentar centenas de orcs...
Amara, com a voz doce, mas firme, segurou sua mão
— Você... me assustou, Gabriel, não faça isso de novo, se não te dou outro cascudo.
— Foi pela família. — Alastor comentou. — Eu não julgo, faria o mesmo. — Ele sorriu.
Kaelis, pousou a mão sobre o ombro do garoto
— Você provou sua determinação, mas precisa entender, um herói não luta para morrer sozinho, ele luta para viver... e proteger os outros.
Por último, Riven, que havia sido o mais crítico antes, olhou para ele com um misto de respeito e incredulidade.
— Você demonstrou a coragem de um verdadeiro herói lá, assim como a força de um, me perdoe por tudo o que eu fiz a você anteriormente.
Gabriel tentou rir, mas tossiu sangue, sendo novamente deitado por Amara.
— Vocês falam muito... deixem eu descansar um pouco... — Murmurou. — E minha mãe? Como ela está? — Ele tentou se levantar mas desmaiou devido ao cansaço.
— Hahahaha esse garoto. — Aeron riu. — Fica tranquilo, ela está bem.
Astradamas estava inconsciente em uma maca ao lado de Gabriel. Enquanto o castelo vibrava com a vitória, nas profundezas da caverna devastada, passos leves ecoavam entre os cadáveres mutilados dos orcs. Uma mulher de longos cabelos negros, pele pálida e olhos que cintilavam em dourado, caminhava descalça sobre o sangue.
Ela se ajoelhou diante do corpo do soberano dos orcs, passando a mão carinhosamente sobre seu rosto morto.
— Meus filhos... — sussurrou com tristeza. — Ceifados sem piedade.
Ergueu-se lentamente, olhando ao redor.
— Onde… ela está? — Seu tom mudou.
Ela correu para a parte de trás do trono onde Astradamas estava presa anteriormente.
— Teria isso sido obra “dele”? Tens exterminado minhas proles em cada canto do mundo, em cada dimensão...
Mas então, seus olhos se estreitaram, um arrepio percorreu o ar.
— Não... — Disse em tom baixo, mas firme. — Desta vez, não foi tua mão, foi algo diferente... algo humano... ainda sim perigoso.
Ela abriu a palma da mão, e um portal negro, tomou forma diante dela, mas antes de atravessá-lo, lançou um último olhar para os mortos ao seu redor.
— Que fiquem com aquela fêmea, já consegui o que queria, mas quem ousa ameaçar meus filhos... enfrentará a fúria de sua mãe.
E então, desapareceu dentro do portal, sumindo como se nunca tivesse estado ali.
O silêncio retornou à caverna, mas a sensação de que algo muito maior acabara de ser despertado pairava no ar. De volta ao castelo, Kaelis ficou inquieta por um momento.
— Espera um segundo Lilith, você disse que não conseguia nos levar até Gabriel, então como apareceu lá em seguida, junto de Amara, Alastor e Aeron. — Kaelis questionou.
— Eu senti uma grande explosão de Éter vinda do local, provavelmente de Gabriel, seu Éter deve ter sido ativado o levando ao extremo. — Respondeu Lilith, refletindo sobre Gabriel.
— Então é oficial, o Gabriel realmente se juntará a nós. — Comentou Riven.
— Sim, e se você implicar com ele novamente, eu vou chutar sua bunda! — Retrucou Amara.
Riven apenas riu concordando, Gabriel já em seu quarto, após a batalha no ninho dos orcs, marcado pelos golpes, repousava em sua cama, enquanto o silêncio da noite o envolvia, abrindo os olhos em meio ao sonho, tendo sua segunda visão, porém mais caótica que a primeira.
Gabriel despertou, mas para sua surpresa ele não estava em Aethernys, ele estava em mais uma visão, mas essa era bem diferente da primeira, era mais caótica.
— Estou no meio do nada. — Gabriel murmurou para si mesmo olhando ao seu redor. — Não tem céu, não tem chão, só... um véu negro. — Sem horizonte, sem limite, tudo ao seu redor se desfazia como se jamais tivesse existido, um frio indescritível tocou sua alma, a sensação de que até sua própria existência seria apagada em um instante, até que, dentro daquele abismo, surgiu algo.
— O que é aquilo? Não é humano. — Afirmou Gabriel, sua silhueta era incerta, um ser que não se curvava diante da escuridão, e quando a fenda da realidade se abriu em sua presença, o caos recuou.
A criatura voltou seu olhar para Gabriel, sem dizer uma única palavra, mas ele compreendeu.
— Vai ter uma luta... uma luta definitiva. — Afirmou Gabriel, com um olhar sério e determinado, e dela dependeria tudo, se a existência persistiria ou seria apagada para sempre.
A visão se despedaçou, e Gabriel despertou, ofegante, com a certeza gravada em seu coração de que aquilo não era apenas um sonho, após alguns dias em repouso, depois de ter exterminado sozinho um ninho de orcs, Gabriel recebeu alta, ele foi visitar sua mãe as presas.
— Ei Gabriel, cuidado. — Alertou uma médica.
Gabriel estava correndo por entre os corredores, chegando enfim no quarto de sua mãe, vendo seu pai dormindo aos seus pés, na maca, enquanto ela passava a mão por entre seus cabelos, ela se virou, olhando para Gabriel.
— Mã…mãe… — Gabriel não conteve as lágrimas e correu em sua direção, a abraçando no mesmo instante.
O pai de Gabriel acordou, vendo o reencontro entre ambos, e se emocionando junto.
— Finalmente… — Ele limpava as lágrimas do rosto. — Estamos juntos novamente.
Ela apertava Gabriel com força, as lágrimas eram impossíveis de controlar.
— Meu filho, eu estava com tanta saudades, você… eu fiquei com medo de te perder, eu não… — Ela hesitou por um momento.
Kalchas apoiou a mão no seu ombro.
— Tudo bem, já está mais do que na hora de contar a ele a verdade. — Afirmou Kalchas.
— Que verdade pai? — Perguntou, secando as lágrimas de seu rosto.
Astradamas fez um cafuné em sua cabeça, gentil demais, descendo a mão para o seu rosto.
— A verdade sobre quem somos Gabriel. — Disse ela.
— E infelizmente não é uma história agradável. — Completou seu pai.
— Viemos’ de uma linhagem de videntes, da antiga casa de Althar, éramos considerados sagrados e temidos, nossas visões contrariavam a vontade de reis, igrejas e impérios. — Astradamas começou, o ar de reencontro agora foi preenchido por um ar mais sério, pesado.
— Nossas previsões se tornaram malditas com o tempo, por sempre serem verdadeiras e perigosas, o que nos fez serem caçados e nossos destinos selados pelas autoridades. — Kalchas completou.
— “As visões dos Altharions são heresia viva”. Os reis declararam. — Afirmou sua mãe. — Fomos caçados, queimados, mortos, nossas palavras transformadas em tabu, outros tiveram suas línguas cortadas, silenciados com feitiços, nossas previsões eram completamente certeiras, mas nunca podemos ver nossos próprios futuros..
— Nós conseguimos fugir a tempo, com você no ventre. — Kalchas continuou. — Mas eu… — Ele hesitou por um momento, revivendo um trauma antigo. — Fui atingido por uma flecha no meio da minha coluna, o que me fez aleijado, mas graças a Lilith agora eu posso andar novamente. — Afirmou, se levantando e pegando Astradamas no colo. — E posso fazer isso. — Ele a balançava no ar.
— Eiii idiotaa, me bota no chão. — Ambos estavam rindo, até ele a pôr de volta na maca.
— Minhas visões consistiam em ver o futuro daqueles que fossem justos. — Explicou seu pai. — O único que eu vi o futuro foi um antigo amigo meu, que provavelmente deve ter se tornado rei, inclusive foi ele quem me deu a espada que você usou. — Completou ele.
— Ah, sobre a espada… — Gabriel comentou nervoso.
— Não, tudo bem, ela é sua. — Respondeu.
— E enquanto a sua mãe? — Ele perguntou.
— Não é óbvio bobinho? — Ela apertou suas bochechas. — Eu vejo o seu futuro. — Afirmou ela.
Gabriel permaneceu imóvel por um tempo, raciocinando tudo.
— Então… todas as vezes que a senhora me dizia “não faça tal coisa”, “cuidado com aquilo”, “evite isso”, era por que a senhora…
— Sim! — Ela respondeu. — Inclusive aquele gato iria ter te cortado em um lugar muito sensível e você sangraria muito. — Completou ela.
— Então quando você disse que ficou com medo de me perder, você estava falando da sua visão? Eu morri? — Ele perguntou.
— Não meu filho. — Ela o apertou. — Mas eu não conseguia ver o seu futuro, eu não sei o que aquela mulher fez, mas eu não conseguia ver nada.
— Mulher? Que mulher? — Gabriel perguntou.
Derrepente Kaelis adentrou no quarto, junto dos demais heróis.
— A raptora dela. — Deduziu.
— Mas não foram os orcs que a raptaram? — Gabriel estava confuso.
— Sim, foram eles. — Amara o respondeu. — Mas a mando de outra pessoa.
Lilith veio a frente, com o grimório encontrado no primeiro ninho dos orcs.
— Eu consegui extrair algumas informações sobre o que estava nesse grimório antigo. — Ela começou. — É um ritual, para aprimorar o Éter.
Astradamas a corrigiu.
— Um ritual para liberar o máximo do Éter.
— O máximo? — Lilith perguntou.
— Vocês devem ter ouvido sobre meu Éter. — Astradamas supôs.
— Bom… não era nossa intenção. — Kaelis corou envergonhada, recuando um passo.
— Ela queria meu Éter, diferente das demais visões, a minha é focada somente para uma pessoa, e podendo ser usada diversas vezes.
Astradamas respirou fundo. Pela primeira vez desde o reencontro, seus olhos desviaram do rosto de Gabriel.
— Eles o chamam de Profecia Cativa. — Disse
O quarto pareceu mais silencioso.
— Diferente das visões comuns… — Ela continuou — …eu não observo o futuro como algo distante, como uma miragem no horizonte, eu estou presa a ele.
Ela levou a mão até o peito.
— Presa a você.
Gabriel sentiu um frio subir pela espinha.
— Meu Éter não me permite escolher o que ver. — Astradamas prosseguiu. — Eu não vejo guerras, nem reis, nem catástrofes aleatórias, eu vejo a sua linha de destino Gabriel, cada ramificação, cada desvio possível… todos convergem para você.
Lilith estreitou os olhos.
— Clarividência unifocal… — Murmurou. — Isso é raríssimo.
— É uma maldição disfarçada de bênção. — Astradamas respondeu. — Enquanto outros videntes diversos muitos futuros, eu enxergo apenas um.
Ela tocou o rosto do filho, com extremo cuidado, como se ele pudesse se desfazer.
— Eu vi você cair. — Disse, com a voz falhando. — Vi você sangrar. Vi você morrer de tantas formas que perdi a conta. — Ela engoliu em seco. — E vi também você sobreviver… fazer coisas magníficas, que o mundo ainda não está pronto para enfrentar.
Gabriel apertou os punhos.
— Então… quando você não conseguia mais ver meu futuro…
O olhar dela se escureceu.
— Foi quando me tomaram ele. — Astradamas respondeu. — Quando aquela mulher interferiu, o fio se rompeu. Meu Éter entrou em colapso. E Pela primeira vez desde o seu nascimento… eu estava cega.
Kaelis sentiu um peso no estômago.
— Um Éter que depende de vínculo… — Ela murmurou. — Se o vínculo é atacado, o poder entra em falha.
— Exatamente. — Astradamas assentiu. — E é por isso que ela me queria viva.
Lilith fechou o grimório lentamente.
— O ritual não era para roubar seu Éter. — Disse ela. — Era para forçá-lo a liberar seu limite máximo.
Astradamas sorriu, mas não havia alegria ali.
— Porque no ápice da Profecia Cativa… — Ela disse — …não se vê apenas o futuro imediato.
O silêncio se tornou opressivo.
— Se ve o passado esquecido, os futuros de seus descendentes, e também os caminhos daqueles que estão profundamente ligados ao portador.
Gabriel sentiu o coração acelerar.
— Então… você pode ver… — Ele hesitou — …o futuro de quem está ligado a mim?
Ela assentiu lentamente.
— A princípio não, mas quando ela começou o ritual eu pude ver, vislumbrar pequenos flashes, e também o que ela almejava.
Ela ergueu o olhar, firme.
— Um homem, o homem que a matou e abandonou. — Ela afirmou.
O silêncio recaiu novamente sobre o quarto em que estavam, Gabriel parecia mais inquieto.
— Você teve uma visão, não teve? — Sua mãe perguntou.
Gabriel hesitou por um instante mas assentiu.
— Sim, eu já tive duas, uma agora a pouco, mas ela… — Ele hesitou novamente. — Eu não entendo.
Gabriel contou a todos sobre sua última visão. Quando terminou ninguém falou por alguns segundos.
Kaelis foi a primeira a reagir, seus dedos apertaram o punho da espada firmemente.
— Uma entidade que faz o caos recuar… — Murmurou. — Isso não é presságio comum de guerra
Lilith fechou os olhos, respirando fundo, como quem revisita textos que jurou nunca mais lembrar.
— Existem registros antigos… — Disse, por fim. —Poucos, e fragmentados, de videntes que alegaram não conseguir ver o futuro, apenas um preto, um vazio, inexistência.
Amara levou a mão ao peito.
Astradamas encarava o filho com uma expressão que misturava orgulho e medo cru, Gabriel sentiu o mesmo frio da visão atravessar sua espinha outra vez.
— Então isso ainda vai acontecer… — disse, em voz baixa.
Astradamas assentiu.
— E da próxima vez — Completou ela —, não será apenas uma visão.