Irmãs
Mary observava Lilith ferida, enquanto se curava.
— Está queimando, não está? — Perguntou Mary com um sorriso sádico, agora curada de seus ferimentos. — Mesmo tendo acertado de raspão, uma lança de luz sagrada, é fatal para demônios imundos iguais a você
— Você não passa de uma criança brincando de anjo. — Retrucou Lilith.
Mary não respondeu. Seus olhos queimavam em vermelho e dourado, fixos em Lilith, avançando em sua direção, suas asas a propeliram como um raio, manifestando outra lança em suas mãos riscando o chão a baixo de si, deixando um rastro flamejante, Lilith ergueu suas garras cobertas em chamas negras e interceptou o golpe, o impacto criou um estrondo ensurdecedor, rachando o chão sob elas.
Mary girou, golpeando com a lança em sucessão, Lilith desviava, contra-atacava, com movimentos suaves, até que ergueu uma das mãos e conjurou.
— Obeliscus Abyssum.
Uma torrente de chamas negras surgia do chão, envolvendo Mary com um calor brutal, que girava sua lança, dissipando as chamas.
— Gladium Ultimae Lucis! — A lança brilhava cada vez mais, graças a Mary estar absorvendo a luz diretamente do sol,
Mary repousou a lança ao seu lado, encarando Lilith com desprezo e asco, enquanto voava rasteiramente, sua lança derretia o solo a baixo de si, disparando em direção a Lilith, que conjurava outra pilastra de chamas negras, Mary perfurou o Pilar com sua lança, emergindo envolta em fogo dourado, atingindo Lilith em cheio, a arremessando para longe, Lilith se ergueu, com sangue escorrendo de seus lábios, com uma fissura em sua barriga, mas sorrindo.
— Hah… parece que não está mais se contendo, anjinho, mas será que ainda faz tudo o que te mandam? Mary a Faz Tudo. — Provocou Lilith.
Mary respirava ofegante, com o terceiro olho em sua testa tremendo em azul incandescente, e a pressão de seu corpo atingindo o limite.
— Eu não sou uma ferramenta da Igreja… — Ela murmurou. — Sou a minha própria vontade!
Lilith gargalhou, mesmo enquanto suas chamas negras envolviam seu corpo para regenerar as feridas.
— “...própria vontade!”. Também foi por sua vontade que você matou nossas irmãs? Você se lembra do nome delas? DAS GAROTAS QUE VOCÊ TORTUROU ATÉ A MORTE A MANDADO DE ADAMAS! — Retrucou Lilith, envolvendo sua mão em chamas negras e socando Mary, fazendo o impacto gerar uma onda de choque, a arremessando para cima.
A mente de Mary divagava, com os olhos espasmados, lutando contra sombras que nublavam suas memórias.
— Não, não... NÃO! — Elas mereciam morrer por que eram fracas, não serviam para a Ordem! — Respondeu Mary, planando no ar com suas asas.
— Eu já cansei de te fazer abrir os olhos por bem Mary, eu te via como uma irmã, igual as outras meninas, mas você está me forçando a isso. — Murmurou Lilith. — Lua Negra!
Conjurando uma segunda lua negra, maior e mais densa do que a anterior, bloqueando completamente a luz solar, Mary tentava conjurar lanças de luz para destruir o domo, mas Lilith conjurando um portal abaixo de Mary, fazendo tentáculos de sombras emergirem do chão, a prendendo e golpeando contra o solo, enquanto os tentáculos a eletrocutavam, congelavam e queimavam com elementos sombrios, que queimavam e rasgavam sua pele.
— Maldita! — Murmurou Mary gemendo de dor, sem forças para se levantar.
Lilith caminhava em sua direção lentamente, com um olhar de sentença.
— Olha para você… o “Orgulho de Adamas” reduzida a uma boneca quebrada, é isso que você sempre foi, Mary. — Ela ergueu a mão, acumulando uma esfera compacta de chamas negras. — Uma marionete de Adamas, usada para esmagar todas nós.
Mary arfou, sua aura oscilando entre a luz que tentava se erguer enquanto a escuridão do domo a sufocava.
— Eu… eu não… não sou… — Ela murmurava, mas sua voz falhava.
— Não é? — Lilith riu com amargura. — Então me diga, quem foi a primeira garota que você matou? O nome dela, Mary. DIGA!
A palavra ecoou como um trovão dentro de sua mente, o domo da lua negra pulsava, abafando qualquer resquício da luz solar, Mary tentou resistir, mas as sombras que prendiam seu corpo se infiltravam em seus sentidos, corroendo a muralha que a Igreja havia erguido em sua mente.
De repente, flashes atravessaram sua visão, um quarto pequeno, meninas ajoelhadas, gritos abafados, correntes tilintando, uma voz jovem… suplicando.
"Mary… não nos deixe… por favor…" — Mary arregalou os olhos, lágrimas escorreram pelo seu rosto, mesmo enquanto seus lábios tremiam em negação.
— N-Não… eu… eu as matei porque eram fracas… não… não era minha culpa…
Lilith estreitou os olhos, as chamas em sua mão se extinguindo.
— Finalmente… você está se lembrando.
Mary então gritou, não de dor, mas de desespero, o som rasgando o ar dentro do domo
— Clara!!!
O nome escapou de sua boca por impulso, partindo o bloqueio imposto por Adamas. O terceiro olho de Mary brilhou em azul intenso, como se quisesse perfurar a lua negra, seu corpo tremia, não de fraqueza, mas de uma fúria mesclada à tristeza e luto.
Lilith parou por um instante, surpresa pela sinceridade daquele grito,Mary, caída e ensanguentada, chorava pela primeira vez em anos.
Todas as memórias antes bloqueadas pelo Culto de Adamas vieram à tona de uma só vez
— Eu… eu as matei… minhas irmãs… Cada uma delas, a pedido da Igreja... não, de Rafael!
“Mary era uma criança angelical, de olhar doce e frágil, e tinha 8 anos quando Rafael a encontrou em meio às cinzas de sua vila, saqueada e incendiada por ladrões. Ela foi levada à Igreja de Adamas, junto de outras seis meninas resgatadas de tragédias semelhantes, vítimas de ataques de monstros, de sequestros ou pilhagens, Mary, Lilith, Mylla, Brubs, Clara e Letta dividiam o mesmo destino, treinar até que não restasse nelas compaixão, ainda assim, no frio quarto onde dormiam sob o chão gélido, criaram um pacto de irmandade.
— Estamos aqui a algumas semanas, podemos não ter mais pais, nem mães... mas de hoje em diante, seremos irmãs. — Mary disse, fazendo um caco de mármore flutuar até a sua mão com um Éter desajeitado, e com ele, cortou a própria palma.
As outras assentiram.
— Você é tão doce, Mary. — Sorriu Mylla, uma garota de cabelos curtos e escuros, olhos castanhos grandes, repetindo o gesto.
— Mas se acham que vou passar pano para travessuras de vocês por sermos irmãs, estão enganadas. — Advertiu Letta, ruiva sardenta, a mais velha dentre as demais, encarando elas antes de fazer seu corte.
— Quando ela dormir, riscamos a cara dela. — Sussurrou Brubs, de cabelos cor de mel, arrancando risadas de Clara, que a imitava.
— Ei, estou ouvindo, pestinhas! — Resmungou Letta, correndo atrás delas.
Por fim, restava Lilith, que estava encolhida e afastada das demais.
— Não vai se juntar a nós? — Perguntou Mary.
— Eu... nunca tive uma família, fui abandonada ao nascer, não sei como ser irmã de ninguém. — Lilith respondeu, com um olhar melancólico.
As meninas olharam uma para a outra e sem hesitar abraçaram-na juntas.
— Então vamos ser a melhor família que você poderia ter. — Mary sorriu, tão quente e sincera que os olhos de Lilith brilharam, estendendo a mão até o caco, o fazendo levitar até ela e cortando sua mão também.
— Você também sabe usar Éter! — Mary afirmou contente. — Um dia podemos ensinar as meninas a usarem também.
Com um gesto, Mary fez o sangue de todas se unir em uma gota só, dividindo-o entre cada corte.
— Agora temos o mesmo sangue.
Mas aquela pequena felicidade durou pouco, Rafael logo as levou para uma sala, separando-as em pares, Lilith e Letta, Mylla e Brubs, Mary e Clara.
— Lutem até a morte. — Ordenou com frieza. — A vencedora terá direito a comida e a uma cama quente.
Lilith e Letta se entreolharam, aterrorizadas, nenhuma delas ousava atacar, Rafael bufou de desprezo.
— Patéticas. — Declarou chamando um mago. — Faça.
O mago ergueu a mão.
— Impetus Bestiarum!
Imediatamente Letta e Lilith perderam o controle, golpeando-se com selvageria, chutes, socos, arranhões, até Letta arremessar Lilith contra a parede, ela colidiu em um cano de metal que estava frouxo, reagindo instintivamente, desprendendo o cano usando seu Éter e o acelerando, acertando a cabeça de Letta, o impacto a deixou inconsciente, o feitiço se desfez logo após, Lilith voltou a si, trêmula, vendo sua irmã caída e sangrando.
— Mate-a. — Ordenou Rafael.
Lilith recuou horrorizada.
— N-não! Não vou matar minha irmã!
Com um olhar gélido, Rafael estendeu a mão para Letta, um clarão prateado emergiu de sua palma, a menina começou a gritar, o corpo convulsionando, Lilith correu tentando salva-la, mas foi eletrocutada e caiu inconsciente, assistindo impotente a morte da irmã diante de si. Quando despertou horas depois, ainda atordoada, ela se viu em seu antigo quarto, Mary entrou logo após, seu corpo estava coberto de sangue, os olhos antes animados e cheios de vida, agora vazios, sem expressão alguma.
— Mary... de quem é esse sangue? Onde estão as meninas? — Lilith perguntou com a voz embargada.
Mary hesitou.
— Eu... eu as matei. — Sussurrou, chorando.
O choque congelou Lilith, ela não teve tempo de responder, Rafael entrou, satisfeito.
— Excelente. Agora, lutem, a vencedora terá a honra de ser integrada na Ordem de Adamas.
Mary hesitou por um instante, mas partiu para cima de Lilith, a derrubando e socando, com lágrimas escorrendo de seu rosto.
— Me desculpa, Lilith... — Soluçava. — Não quero passar por isso de novo, se eu tiver que matar alguém, que seja consciente.
As mãos de Mary fecharam-se em seu pescoço, sufocando-a. Lilith mal conseguia respirar.
— I-ir...mã... — Conseguiu murmurar entre lágrimas.
Ao ouvir a palavra, Mary fraquejou, soltou-a, em prantos.
— Hmpf. Patéticas. — Rafael lançou o mesmo feitiço em Lilith, que se descontrolou, atacando Mary com fúria.
— Não, Lilith! Sou eu! — Mary tentou pará-la, em vão, até que gritou. — IRMÃ!
Lilith congelou o punho no ar, lutando contra o feitiço, suas veias saltaram, o corpo se retorcia, mas conseguiu resistir.
Rafael sorriu.
— Bravo! Um prodígio. — Jogou uma lâmina no chão. — Agora, mate-a, ou eu a farei queimar até seus olhos derreterem.
Lilith encarou a lâmina, logo após olhou para Mary , e em silêncio tomou sua decisão, ela pegou o punhal e se esfaqueou.
— LILITH! — Mary correu até ela, mas Rafael a conteve.
— Patética. — Murmurou com desprezo. — Deixe-a morrer. — Arrastando Mary para fora.
Lilith, caída murmurou.
— Eu não suportaria perder outra irmã, viva… Mary... por todas nós... — Desmaiando logo após.
Quando recobrou os sentidos, seu corpo estava dentro de um saco, ela foi carregada, até olhar por um furo e ver, que era Mary quem estava a carregando, até uma cova aberta no meio da neve.
— Como se sente, enterrando sua irmã? — Ecoou uma voz ao fundo.
Mary olhou para o saco, apática.
— Ela não era minha irmã. Era uma fraca e merecia a morte.
As palavras perfuraram Lilith mais fundo que a lâmina que se apunhalou anteriormente, o peso da terra e a neve a engoliu, dias depois, rasgou o saco com as mãos, a neve derretia, ela continuou escavando a terra com as próprias unhas para sobreviver, e assim foi encontrada, exausta e quebrada, por Kaelis e Riven, que a acolheram, descobrindo também uma descendência de sangue demoníaco, que a manteve viva por dias sem comer, soterrada e em um frio extremo.”
Mary se curvava a Lilith, após se lembrar de tudo.
— Depois que Rafael me levou para Adamas… eles implantaram um olho na minha testa, esse maldito olho. — Disse Mary, pegando um fragmento do chão, o perfurando, o olho se retorcia, como quem gritasse, escorrendo sangue pela sua testa. — E depois disso eu não fui eu mesma, eles me moldaram em uma espécie de anjo, e eu era extremamente fraca e menosprezada, por ter só uma asa, até que eu... — Mary hesitou novamente. — Eu fui obrigada a matar os demais candidatos, para poder ter mais asas. — Mary esclareceu tudo para Lilith, enquanto chorava.
Lilith caminhou em silêncio até sua direção, se agachando até ela, e a abraçando.
— Bem vinda de volta. — Ela a abraçou firme. — Irmã! — As duas desabaram em lágrimas.
Lilith a colocou em suas costas, acariciando sua cabeça enquanto sorria.