Delírio
Mary estava estática, assustada ao acordar ouvindo uma voz similar a de Azmiel em sua
mente.
— Você é capaz de manipular os sentidos e percepção dos outros, faça isso com você
mesma, e retire todos os seus sentimentos. — Mary hesitou por um instante. — Não exite,
apenas faça, antes que “ele” perceba.
Mary usou sua graça para apagar todos os seus sentimentos, assim como a voz lhe ordenou.
— Agora retorne até a sala dos anciões.
Mary caminhou até a sala onde os eventos e encontro com Azmiel ocorreram.
— Agora nos três assentos dos anciões, encoste uma asa em cada assento. — E Mary o fez, a
voz parou por um instante, e logo após os três assentos se moldaram em uma passagem,
que descia para o canto mais profundo do reino de Adamas, e Mary começou a descer,
chegando até uma enorme porta de Aethirion. — Destrua essa porta, não pense, faça. — E
assim ela fez, encontrando uma pessoa acorrentada por dezenas de correntes e grilhões com
diversas runas gravadas, algumas perfuravam suas articulações e asas, 11, sujas e murchas,
espalhadas pelo chão, perfuradas e seladas por Aethirion.
— Não encoste em nenhuma dessas correntes que estiverem emanando um brilho dourado,
remova o visor dos meus olhos, e essa mordaça de minha boca. — A voz ecoava pela mente
de Mary, que obedeceu.
Mary retirou o visor de Aethirion de seus olhos, revelando seus olhos vermelhos, tão
profundo e vivo como o sangue, e uma aparência similar a Azmiel, mas com os cabelos
negros, tirando depois a mordaça de sua boca.
— Quem é você? — Mari perguntou, com uma expressão apática.
— Sou Luciel. — Afirmou.
Seu nome percorreu por todo o corpo de Mary, dando a ela uma sensação diferente, de
quando Azmiel disse seu nome a ela pela primeira vez.
— Pode se dizer que eu e “ele” somos a mesma pessoa, temos a mesma alma, que fora
repartida em duas por nosso pai, sendo que eu fui o filho defeituoso, por ter sentimentos e
empatia, já “ele”, era o filho perfeito, que obedecia sem questionar, frio e cruel... um
verdadeiro monstro.
Mary apenas ouviu a informação em silêncio, ainda afetada pela sua própria graça, o que ela
não sabia, era que seu contato com Luciel, resultaria em uma grande tragédia futuramente.
— Nunca vi correntes iguais a esta, elas parecem estar inibindo, e sugando sua energia. —
Expressou Mary. — Por que fariam algo assim com alguém? Por que fizeram isso a você?
— Porque eu não sou o que deveria ter sido. — Luciel sorriu cansado. — Meu pai... sonhava
com um filho perfeito, um ser sem sentimentos, sem empatia, que obedecesse sem jamais
questionar, e bom, eu... nós nascemos com coração demais.
— E foi ele quem o aprisionou?
— Não só isso, ele dividiu minha alma, de uma metade nasceu “ele”, o filho perfeito, frio e
obediente, e eu fui o lado falho, com sentimentos e emoções que ele descartou, quando
éramos um, carregamos um poder imenso, mas quando fomos separados, eu fiquei
trancado... e ele, livre.
— Por que o chama de “ele”? E não pelo seu nome?
— O nome dele é poderoso, qualquer um que ouse pronunciar seu nome pode ser
condenado à morte, igual ele fez com o velho que tentou o chamar, seu nome é uma
sentença de morte. — Luciel respondeu
— E ele é seu irmão? — Mary perguntou.
— Mais do que isso. — Respondeu Luciel olhando para o chão. — Ele sou eu, e eu sou ele.
Se um morrer, o outro morre, por isso ele nunca pôde me matar, em vez disso, optou por me
trancafiar e drenar, antes ambos tinhamos doze asas, mas ele me drenou tanto que roubou
uma das minhas asas, se tornando o que Adamas chama hoje de Seraphim Definitivo.
— Drenar? — Murmurou Mary, com uma expressão apática.
— Meu sangue e Éter foram extraídos e compartilhados com algumas pessoas que Adamas
julgava dignas, com a ajuda de um cientista perverso que eu desprezo até os dias de hoje,
eles criaram uma esfera e a implantaram na testa das cobaias, a mesma que vocês
conhecem como “o terceiro olho”, através dela, “ele” e os anciões criaram um exército de
anjos frios e cruéis, eles bebem minha essência todos os dias sem saber.
— O Culto de Adamas. — Mary murmurou.
As runas vibravam, e Luciel levantava o rosto, apresentando uma expressão cansada e
humana.
— Eu não pedi para existir assim Mary, eu só queria ser uma criança, ter sentimentos não
deveria ser considerado um erro.
Mary pode sentir, aquela figura diante dela não era um monstro que merecesse ser
trancafiado.
— O motivo por eu ter pedido para que usasse sua manipulação de sentidos em si mesma,
foi por que ele é capaz de sentir todas as emoções e sentimentos, e ler elas, mas tudo bem,
com a vinda dele a esse mundo, uma de minhas trancas afrouxou e eu pude intervir,
bloqueando o sensoriamento dele em você, pode desativar sua habilidade já.
Mary recolheu sua asa, voltando a sua personalidade normal.
— Puta merda! — Mary exclamou, tirando um riso de Luciel. — E o seu pai... por que ele
queria criar uma criança sombria desse jeito?
— Ele nunca comentou sobre o motivo, nem quando éramos um, mas ele queria que eu
exterminasse tudo o que não fosse humano, ele dizimava, queimava e matava, dezenas de
bestiais, aldeias de demi-humanos, e eu não conseguia fazer isso, então ele me dividiu em
dois.
— Eu também fui controlada por Adamas no passado, agindo a mando deles sendo uma
pessoa fria, mas eu me libertei dessas amarras com a ajuda da minha irmã.
— Mary... você é um Querubim certo? — Luciel perguntou arfando levemente.
— Sim... eu despertei como um Querubim recentemente. — Mary respondeu.
— Rafael finalmente foi morto. — Luciel olhou para o teto aliviado. — Nunca gostei daquele
cretino. — Olhando agora para Mary, com uma expressão de aflição. — Se você absorveu as
graças dele... e se tornou um Querubim, você pode me libertar de meu tormento.
Mary olhou para ele hesitando por um instante.
— E como eu faria isso? — Ela perguntou.
— As graças de Rafael consistiam em Eletromagnetismo, Destruição, Criação e Gravidade, se
tornando um Querubim, elas devem ter evoluído, tente usar o eletromagnetismo para
desativar as runas que sugam e me inibem, e a destruição para me libertar.
Mary liberou novamente suas asas, testando em um grilhão que perfurava e inibia uma de
suas asas, Mary estendeu suas mãos sobre a corrente, infundindo seu eletromagnetismo nas
runas que emanava uma luz branca, levemente azulada, mas ao invés das runas se
inutilizarem, elas queimaram, seu eletromagnetismo evoluiu para plasma, derretendo todas
as runas cravadas nas correntes que o aprisionavam, junto a criação e destruição, que
evoluíram para reconstrução, moldando as correntes e grilhões em uma enorme barra de
aço feito de Aethirion puro.
— O que é esse metal? — Perguntou Mary. — Minha mana está ressoando com ela.
— Aethirion. — Respondeu Luciel balançando seu braço livre após séculos. — Um metal que
ressoa com o Éter e o Thyr das pessoas que entram em contato com ela, serve para fazer
armas poderosas, ou prisões cruéis, como a que fizeram comigo.
Mary ouviu em silêncio, indo para a próxima corrente.
— Basta por hora Mary. — Luciel interveio. — Se remover outro, ele certamente iria notar.
— Tudo bem. — Mary assentiu balançando a cabeça. — E o que eu faço com essa barra de
Aethirion?
— Leve-a, talvez sirva para algo, você pode usar sua graça nela para forjar armas, até mesmo
imbuir sua graça nessas armas.
Mary se espantou por um instante.
— Imbuir... minha graça? — Mary perguntou incrédula.
— Sim, o Aethirion reage a seu Éter e Thyr. — Explicou Luciel. — Vamos, tente.
Mary estendeu suas mãos sobre a barra de Aethirion, infundindo-a com graça, fazendo com
que ela emanasse eletricidade.
— Deu certo... — Mary murmurou.
— Agora leve ela. — E vá antes que eles percebam algo.
Mary pegou a barra de Aethirion energizada, subindo as escadas do calabouço.
— Mary... antes de ir... — Luciel a chamou, fazendo Mary se virar por um instante. — ...
por quê você decidiu me ajudar?
Mary sorriu, seus olhos emanando uma coloração alaranjada, ela usou sua graça, podendo
ler as intenções de Luciel.
— Por que eu vejo que você é uma boa pessoa, honesta e sincera, também vejo suas trevas,
mas sei que você é mais luz, você é uma pessoa boa Luciel, e eu sei o quanto você também
não gosta de Adamas. — Mary respondeu, descendo lentamente as escadas e parando a sua
frente. — Vamos derrubar Adamas, juntos.
Luciel gargalhou com a declaração de Mary.
— Eii, não é pra rir idiota! — Mary o repreendeu.
— Desculpa, é que, é a primeira vez que ouço algo assim, derrubar a organização que rege a
ordem do mundo, parece até um sonho, mas sim, eu irei a acompanhar nesse seu delírio. —
Luciel assentiu rindo.
Mary sorriu de volta, saindo do calabouço e indo de volta para seu quarto, dormindo. No
outro dia, ela foi chamada para um encontro com os dois anciões restantes, o que a
preocupou de imediato.
— Merda, será que descobriram que eu me encontrei com Luciel? — Mary murmurava,
enquanto caminhava até de encontro com eles.
Chegando onde se encontrou com eles na noite passada, sendo surpreendida ao ver que
tudo estava em ordem, como se os acontecimentos envolvendo de Azmiel nunca houveram
ocorrido.
— Mary. — O primeiro ancião disse. — Creio que já sabe o por quê a chamamos.
Mary engoliu seco, com um leve olhar de preocupação.
— Devido ao incidente envolvendo Rafael, onde você, juntamente aos heróis de Aethernys o
mataram, estamos desfiliando aquele reino de Adamas. — Afirmou o segundo ancião.
— E enquanto a mim? — Mary perguntou. — Vocês também pretendem me punir? Acham
que podem me subjulgar?
Derrepente Azmiel apareceu por detrás dela, caminhando lentamente até a frente dos
anciões, Mary sentiu um ar pesado e um arrepio percorrer todo seu corpo, como se fosse
uma sentença.
— Você é um Querubim. — Respondeu Azmiel, caminhando lentamente para a frente de
Mary, que o encarava com preocupação. — Seu poder é necessário para Adamas, e você irá
servir seus propósitos como tal.
— E qual... seria meu propósito como Querubim? — Mary perguntou visivelmente nervosa.
Azmiel a olhou com uma expressão vazia.
— Limpar essa terra dos males, tudo o que não for humano. — Azmiel respondeu. — Você
irá limpar esta terra da podridão não humana.
Mary olhou para ele hesitando, enquanto ele caminhava lentamente em sua direção, se
inclinando em direção a seu ouvido.
— Um pequeno conselho, cuidado com quem você faz de aliado e inimigo de agora em
diante, para o bem de Adamas, e para o seu próprio, não superestime sua existência só por
ser um Querubim. — Murmurou Azmiel com um tom sereno, mas ameaçador,
desaparecendo em um portal logo após.
Mary ouviu suas palavras completamente estática, olhando para os anciões logo após.
— Você irá entregar a notícia para Aethernys pessoalmente, sobre a desafiliação, vá
imediatamente. — Ordenou o ancião.
Mary se virou e voltou para seu quarto, refletindo sobre o que acabara de ocorer.
“O que Azmiel quis dizer? Será que ele sabe do meu encontro com Luciel? Que pretendo o
libertar e derrubar Adamas? Não! Se soubesse ele teria me matado ali mesmo, mas que
merda, e agora?” — Mary divagava.
— Não se preocupe Mary. — A voz de Luciel ressoava por sua cabeça.
— Luciel?
— Azmiel partiu dessa realidade, ele voltou para sua missão de extermínio, não se preocupe
enquanto a ele, da próxima vez em que ele retornar eu irei lidar com ele. — Luciel explicou a
acalmando. — Como você deve retornar para Aethernys, leve o pedaço de Aethirion com
você, mesmo que no futuro eles não possam ter vínculo algum com Adamas, eles terão um
com você diretamente.
Mary assentiu, pegando a enorme barra de Aethirion, e indo em direção a Aethernys,
usando sua manipulação de percepção e sentidos em todos que a viam carregando o
Aethirion, fazendo com que só vissem a ela, que saiu de dentro da catedral de Adamas,
voando em direção a Aethernys.
Com a barra de Aethirion em mãos, Mary a envolveu em um pano, e voou em direção a
Aethernys, até ser interceptada por um bando de grifos.
— Eu poderia só fazer com que me ignorassem, mas é uma boa oportunidade para testar o
quanto eu evolui. — Murmurou Mary, espalhando suas sete asas pelos céus, encarando a
horda de treze grifos.
Assim que a avistaram, os grifos voaram em sua direção vorazmente.
— Amplificação de Sentidos! — Mary conjurou em si mesma.
Desviando facilmente dos grifos, moldando a barra de Aethirion em uma lança e infundindo
nela plama.