Ambas as figuras estavam paradas observando um enorme lago, no centro de uma enorme
montanha
— Aí está... finalmente encontramos. — Disse uma delas, retirando o cachecol e a touca. Era
uma senhora de cabelos grisalhos, cacheados, pele morena e aparência serena, a pele
marcada por poucas rugas, olhos azul-acinzentados e uma espada embainhada na cintura,
com entalhes discretos na bainha, curvas que lembravam ondas.
Ygerna respirou, e por um instante o ar pareceu ter gosto de sal.
— Ygerna... — Arfou a segunda figura, uma mulher de aparência mais jovem, cabelos ruivos
ondulados e olhos verdes intensos. — Esse é o lago que buscamos? — Perguntou Vivian. —
Ele é cinco vezes maior que Aethernys... A quantidade de poder que ele emana... é
inacreditável. É maior do que tudo que já senti. Como descobriu sobre esse lugar mesmo? —
Completou, observando o enorme abismo gélido de energia diante delas.
Ygerna não respondeu. Apenas avançou, deslizando pela encosta congelada até alcançar o
enorme lago reluzente no centro da cratera.
— Tsc... essa velha... — Resmungou Vivian, sorrindo de canto. — Pelo menos agora posso
finalmente completar meu objetivo. — Murmurou, saltando logo em seguida e aterrissando
suavemente utilizando Éter.
Ao tocar a borda do lago, Ygerna desembainhou a espada, fitou a superfície congelada e,
sem hesitar, quebrou um pedaço do gelo e mergulhou.
— O quê? Essa maldita idiota... — Murmurou Vivian, irritada.
Ygerna nadou até o fundo, onde um núcleo brilhante pulsava como um coração vivo. Ela
segurou firme a espada e a cravou no centro do núcleo. Um feixe colossal de luz irrompeu,
iluminando toda a montanha, as ondas de energia circundaram por todo o planeta. As
nuvens se dissiparam, o frio se converteu em calor em questão de segundos, fazendo Vivian
arrancar suas roupas pesadas conforme o clima mudava abruptamente. O feixe foi se
estreitando, a luz se dissolvendo, até restar apenas Ygerna no meio do antigo lago, agora um
vasto campo de vapor e rochas úmidas. Vivian desceu, cautelosa, vendo a irmã imóvel.
“A guarda dela está abaixada”. — Pensou Vivian, aproximando-se devagar.
Mas Ygerna se virou antes que ela pudesse agir, segurando uma jovem inconsciente nos
braços, pálida, longos cabelos negros, e um frágil respirar quase inperceptível.
— Quem... é essa? — Perguntou Vivian, surpresa.
— Ela estava no núcleo do lago. Não sei quem é, mas ainda tem pulso. — Respondeu Ygerna,
com firmeza.
— E o que faremos com ela?
Ygerna ficou em silêncio por alguns instantes, o olhar sereno, mas decidido.
— Irei adotá-la. — Declarou, enfim.
“Adotar... uma qualquer?" — Pensou Vivian, seu olhar estreitando. — Isso faz dela um
obstáculo... eu não posso permitir isso.”
Ela se aproximou mais, sentindo a intensidade do Éter emanando da garota.
— Esse poder... vem dela? — Perguntou, chocada.
— Aparentemente sim. Talvez tenha absorvido parte do poder do lago — O que a manteve
viva, mesmo congelada por tanto tempo. — Explicou Ygerna.
“Eu... não... sim! Eu vou me apossar dessa garota. Não preciso mais de você, sua Neryon
imunda.” — Divagou Vivian, mascarando o rancor por trás de um sorriso leve.
Ygerna colocou a jovem em suas costas e começou a caminhar.
— Vamos voltar à pousada. Partiremos para Aethernys assim que o sol nascer.
— Tudo bem. — Respondeu Vivian, a voz suave escondendo o veneno em seus
pensamentos.
De volta a Aethernys, o rei Uther continuava a contar as lendas e feitos de Ygerna aos
demais.
— Eu a vi pela primeira vez no Torneio Intercontinental organizado por Adamas, há cerca de
trinta anos. Havia espadachins, guerreiros e magos de todos os tipos, sem restrições de
classe. Eu estava determinado a chegar, ao menos, nas oitavas de final. Foi então que ouvi
falar de uma nobre que estava derrotando todos os seus oponentes com facilidade.
Confesso que duvidei... até enfrentá-la.
O rei sorriu de canto, com um olhar distante.
— Eu me apaixonei por ela naquele duelo. Infelizmente, fui derrotado... mas conquistei seu
coração.
Ele fez uma pausa, o olhar perdido no vazio das lembranças.
— Ela venceu aquela competição e, depois disso, comecei a me aproximar dela. Descobri
que era descendente direta do primeiro herói de Aethernys, Arthr Neryon, e herdeira da
lendária espada Cael’Dranyr, a Lâmina Celestial da Mãe-Dragão. Ygerna era invencível... e
implacável. — Sua voz baixou num sussurro. — Por favor, retorne logo, Yge...
— Entendi. — Gabriel quebrou o silêncio com um leve sorriso. — Majestade, quão
audacioso eu seria se dissesse que desejo enfrentá-la em um duelo?
Todos a mesa voltaram-se para ele, incrédulos.
— Ei... ele disse isso mesmo? — Murmurou Aeron, se beliscando para saber se estava
sonhando.
— Gabriel... cuidado com os modos na presença de Sua Majestade. — Kaelis o repreendeu.
O rei gargalhou alto.
— Hahaha! Meu rapaz, não há problema. Afinal, ela mesma criou uma lei permitindo que
qualquer um a desafie, depois de ter recebido o título de Deusa da Espada ao vencer aquele
torneio. E, aquele que conseguir derrotá-la, será concedido o direito de tomar seu título. —
Explicou o rei Uther, com orgulho na voz.
Riven se levantou da cadeira e caminhou até Gabriel, bagunçando seu cabelo.
— Vai com calma, garoto, primeiro, você tem que passar por mim... ou ao menos tentar. —
Provocou.
— Verdade... temos assuntos pendentes, não é mesmo, Riven? — Respondeu Gabriel, com
um sorriso desafiador. — Desta vez veremos qual de nós é o mais forte.
A breve troca de provocações foi recebida com risadas. O banquete seguiu como planejado
até seu encerramento, quando todos começaram a recolher a mesa.
— Ah, por favor, não se deem ao trabalho. — Pediu o rei, se levantando.
— Não, insistimos. Deixe-nos ajudar, majestade. — Respondeu Kaelis, levando uma pilha de
pratos até a cozinha.
Ao entrar, depositou a louça na pia, pronta para voltar à sala, mas parou ao ver Mary e Lilith
conversando a sós com Gabriel. Curiosa, aproximou-se em silêncio.
— Sabe, Gabriel... de todos aqui, você, minha irmã e Kaelis foram os que mais me
surpreenderam com seus despertares. — Comentou Mary, cruzando os braços. — Estão
conseguindo extrair bem o potencial de vocês... mas eu ainda sinto que você está se
restringindo, hesitando. Gostaria que me mostrasse todo o potencial irrestrito da Incisão
Solar.
— Seu próximo adversário é o Riven. — Acrescentou Lilith, com um tom de preocupação. —
Naquele incidente, ele não estava lutando a sério... e mesmo assim te deixou naquele
estado, dessa vez será diferente, ele irá com tudo.
— Eu sei. — Gabriel sorriu levemente. — Consigo sentir a Incisão Solar “falar” comigo, me
guiando... — Ele hesitou por um instante. — ... e sobre eu me restringir... — Eles foram
interrompidos.
De repente, uma faca cruzou o ar, indo direto ao rosto de Gabriel. Ele a percebeu e a deteve
com um movimento rápido.
— Mas o quê...? — Exclamou Lilith, virando-se.
Para a surpresa de todos, era Kaelis.
— Bons reflexos. — Elogiou ela, caminhando até Gabriel. — Vença amanhã.
— Pode deixar. — Respondeu ele com um sorriso. — E você também... trate de vencer.
— Ahem! — Lilith pigarreou, cruzando os braços. — Não estão se esquecendo de mim,
estão?
— Claro que não, Lilith. — Kaelis riu. — Estou ansiosa para poder te enfrentar amanhã.
Todos riram juntos, e logo os demais heróis entraram na cozinha, ajudando a colocar o
restante das louças na pia. Depois, cada um seguiu para seus aposentos, aguardando o dia
seguinte, a continuação da competição.
Quando Gabriel estava prestes a entrar em seu quarto, parou. Sentiu uma presença. Ao se
virar, viu Riven caminhando em sua direção.
— Gabriel... — Riven murmurou.
— Riven... — Gabriel respondeu
O silêncio tomou conta do corredor.
— Escuta... — Riven quebrou o silêncio primeiro, hesitando logo em seguida, levando a mão
à cabeça e coçando a nuca.
— Não. — Gabriel o interrompeu antes que pudesse continuar, erguendo o punho cerrado e
estendendo-o com um leve sorriso. — Vamos deixar que nossas espadas falem por nós
amanhã, certo? E dessa vez eu terei a minha Revanche.
Riven ficou em silêncio por um instante.
— Phew... — suspirou, aliviado, antes de tocar o punho de Gabriel. — Que assim seja. —
Sorriu de volta.
Ele se virou e caminhou até seu quarto. Gabriel fez o mesmo, entrando no seu. Depois de
escovar os dentes, ficou olhando fixamente para a escova em suas mãos.
— Impetus. — Murmurou.
A escova foi envolta por uma tênue aura vermelha, afiada e pulsante. Gabriel a moveu com
precisão, fazendo um pequeno corte na parede, superficial, se lembrando de quando
enfrentou o rei dos orcs, em seguida, guardou ela e se deitou.
Na manhã seguinte, acordou ao som dos pássaros. Vestiu-se, foi até o refeitório e começou o
dia estranhamente calmo. Ao sair, encontrou Alastor e Amara.
— Ei, Gabriel! — Chamou Amara com um sorriso sonolento. — Bom dia!
— Bom dia, Gabriel. — Cumprimentou Alastor.
— Hm... bom dia. — Respondeu ele, tranquilo.
— Sabe, Gabriel... eu queria te pedir uma coisa. — Disse Amara, cruzando os braços.
— E o que seria? — Perguntou ele.
— Dá uma surra no Riven por mim. — Respondeu ela, séria, e logo depois pigarreou,
tentando disfarçar o tom. — Digo... faça o seu melhor.
— Vença. Apenas isso. — Disse Alastor calmamente.
— Tudo bem. — Respondeu Gabriel, com um leve sorriso antes de seguir seu caminho.
Ele caminhou até o salão, tomou café e, logo depois, deixou o reino em silêncio, indo até
uma floresta próxima. Encontrou um enorme rochedo e deitou-se sobre ele, a Incisão Solar
repousando ao lado. Ficou ali por um tempo, absorvendo os raios e a energia solar. Seu éter
se ativou de forma natural, fluida. Após alguns minutos, ele se levantou. Sua mão se cobriu
de uma aura laranja vibrante, e ele desferiu um soco na rocha, abrindo uma cavidade. A aura
então mudou, tornando-se um vermelho suave. Outro golpe — a fenda se aprofundou. Mais
alguns segundos, ele respirou fundo e seu punho emanava uma aura de coloração
vermelho-alaranjado levemente instável, liberando toda a energia em um golpe final que
destroçou completamente a pedra.
— É isso... — Murmurou Gabriel, satisfeito, retornando a Aethernys.
Enquanto isso, Riven não tão distante, observava o comportamento da natureza, sapos
coaxando sem parar, pássaros voando baixo, insetos agitados. Um presságio silencioso. De
volta ao reino, Gabriel foi recebido pelos moradores.