Um arrepio percorreu por toda a espinha de Ygerna.
— Im...pressionante... — Murmurou Ygerna, quase sem voz. — Um garoto... com esse tipo
de poder...
— Esse garoto... isso é mesmo possível? — Disse Vivian, ainda em choque.
Morgana, incapaz de suportar a pressão, desmaiou, sendo amparada por Vivian logo em
seguida, Gabriel, exaurido, também cedeu, o corpo tombou.
5 dias depois, despertou, seu corpo estava coberto por bandagens e faixas.
— Ei, vai devagar aí. — Alertou Vivian, desta vez com um tom mais brando, e um interesse
novo no olhar.
Pouco depois, Ygerna apareceu, trazendo uma tigela fumegante.
— Já acordou? — Perguntou, se aproximando. — Tome. É sopa feita com a carne do monstro
que derrotou.
Com esforço, Gabriel pegou a tigela e bebeu um gole, sentiu o calor percorrer suas veias, e
algo familiar reacender dentro dele.
— Isso... meu Éter está voltando. — Murmurou, surpreso.
— A carne dessas criaturas tem essa propriedade. — Explicou Ygerna. — Restabelece o Éter
de quem a consome.
Gabriel terminou a sopa e pousou a tigela ao lado, respirando com dificuldade.
— Urgh... — Murmurou, levando a mão à cabeça. — Meu corpo todo dói... até pensar dói.
Ygerna permaneceu em silêncio por alguns segundos, apenas o observando, em seus olhos,
algo entre admiração e inquietação.
"Um mortal... um simples humano... uma criança..." — Pensou, desviando o olhar. —
Ahem... — Pigarreou, quebrando o silêncio. — Você se lembra do que aconteceu, Gabriel?
Ele franziu a testa, tentando juntar os fragmentos de memória.
— Eu... estava enfrentando um dos monstros... depois que vocês sumiram, achei que ia
morrer. — Respirou fundo. — Mas... de repente, me levantei... meu corpo parecia leve,
como se nada me prendesse, e então... lembro de cortar a criatura ao meio... depois disso,
tudo escureceu.
Ygerna baixou o olhar, os dedos se movendo levemente.
— Dominus... — Murmurou.
Vivian e Morgana, que observavam à distância, trocaram olhares silenciosos, Gabriel ergueu
o rosto, confuso.
— Dominus? — Perguntou, com hesitação.
Ygerna o encarou, a voz agora grave e solene.
— Um Thyr ligado diretamente ao primórdio da criação. — Explicou. — Dizem que foi o
primeiro Thyr, e que todos os outros nasceram a partir dele.
Gabriel ficou imóvel, tentando absorver o peso daquelas palavras.
— Eu já... ouvi algo sobre isso. — Murmurou, ainda atônito.
— O Thyr Dominus é a expressão da vontade absoluta. — Continuou Ygerna. — Capaz de
subjugar corpos, mentes e até a própria realidade, moldando-a conforme o desejo do
portador.
O silêncio que se seguiu foi sufocante, Gabriel, Vivian e Morgana o encaravam, paralisados
diante da revelação.
— E... eu tenho esse poder? — Perguntou, a voz tremendo entre descrença e medo.
Ygerna apertou o punho sobre a empunhadura da espada em sua cintura.
— Aparentemente... sim. — Respondeu, com um tom sério. — Mas esse poder cobra um
preço terrível.
Ela o encarou nos olhos.
— O Thyr Dominus consome quem o desperta, corrói a mente, o espírito... fragmenta a alma
até o portador definhar por completo.
O ar ficou pesado, nenhum deles ousou falar, Gabriel abaixou a cabeça, levando a mão ao
peito, o sentindo arder, pulsar como se o coração tentasse saltar para fora do peito.
Nos arredores de Aethernys, faltando algumas horas para a final do torneio, e alguns meses
em Bharadhara, Riven adentrava um pequeno bosque, afastando folhas e galhos enquanto
procurava por Kaelis. Ele encontrou um grande lago, e, vendo a água cristalina, pensou em
aproveitar o momento para se banhar. Ao pôr o pé na água, porém, a temperatura absurda
do lago o fez recuar imediatamente, confuso, ele olhou atentamente ao redor, então a viu,
Kaelis, completamente nua, sentada em posição de meditação sob a cachoeira, mas ele
notou algo de errado.
“A cachoeira está... fluindo ao contrário!” – Riven caminhou lentamente sobre o lago com o
auxílio do Éter.
Cada gota, cada filete, cada partícula da corrente começou a se suspender no ar como
milhares de esferas perfeitas, levitando numa dança silenciosa. Fluxos inteiros da cachoeira
reversa ascendiam em espiral, obedecendo a uma gravidade que não pertencia àquele
mundo. Algumas gotas brilhavam como estrelas distantes, outras se comprimiam em pontos
tão densos que a luz ao redor delas dobrava e tremulava. Mas Riven notou algo ainda mais
assustador.
“Mas o quê?...”
Algumas regiões da água estavam completamente estáticas, não congeladas, apenas
imóveis, sem vibração, sem deslocamento, sem tempo. Como se cada molécula tivesse sido
ordenada a permanecer exatamente onde estava, a névoa quente ao redor apresentava o
mesmo fenômeno, zonas onde se movia naturalmente, e zonas onde permanecia suspensa,
rígida, imóvel.
Kaelis meditava exatamente no centro daquele colapso gravitacional controlado, imersa na
água escaldante que nunca tocava sua pele. Riven continuou caminhando, aproximando-se
dela sem emitir sinal algum. Mas ao estender o braço para tocá-la no ombro, sua mão
simplesmente desapareceu, não desintegrou, ela foi desviada, puxada para cima por uma
força invisível, como se o espaço estivesse dobrado. Ele tentou recuperar o braço, mas sem
sucesso, era como tentar mover uma enorme montanha apenas com força física, então, de
repente, o fenômeno mudou.
As áreas imóveis da névoa começaram a se mover novamente, as gotas antes suspensas
voltaram a vibrar, a sensação de ausência de tempo cessou. Kaelis abriu os olhos
lentamente.
A cachoeira retomou o fluxo natural, mas apenas ao seu redor.
Ela se ergueu com elegância, flutuando sobre o lago, sustentada por nada além da
densidade distorcida de sua própria gravidade, enquanto a alta temperatura da cachoeira
fazia Riven soar apenas de estar próximo a poucos momentos, Kaelis permanecia imutável.
— Há algo que eu possa fazer por você, Riven? — Perguntou com um tom sereno.
Riven engoliu seco.
— Bom... — Hesitou, recuando um passo. — Restam 12 dias para a final... não vai retornar
ao reino para... descansar?
Kaelis olhou para a cachoeira que voltava lentamente ao fluxo normal, embora algumas
gotas ainda orbitassem seu corpo, como pequenos satélites gravitacionais.
— Já se passaram 13 dias... poxa, quando estava ficando bom. — Murmurou, chateada.
Riven piscou, confuso.
Ela se vestiu com as roupas que estavam dobradas alguns metros, que foram suavemente
puxadas até ela sem que Kaelis movesse um dedo.
— Vamos. — Disse ela.
Com um piscar de olhos, um ponto negro se abriu no ar. Pequeno, silencioso, mas tão denso
que o espaço ao redor se dobrava como vidro flexível. O portal singular engoliu a luz, então
se expandiu como uma rachadura brilhante, Kaelis o atravessou e Riven a seguiu, e então se
viu no castelo de Aethernys.
— Espera aí... como assim estamos no castelo? — Ele parecia incrédulo. — A gente estava
bem longe do reino...
Kaelis apenas deu um sorriso de canto, caminhando em direção ao salão principal para
comer após um longo período em jejum.
— Sabe... — Começou ela, parando por um instante antes de se servir. — ...eu planejava
me aposentar e nomear Gabriel meu sucessor.
Riven engoliu seco.
Kaelis continuou, encarando suas próprias mãos, fechando-as lentamente enquanto o ar ao
redor vibrava de leve, como se a gravidade respondesse à sua respiração.
— Depois desses 13 dias... eu sinto que algo em mim mudou, eu não sei explicar bem o quê.
— Seus olhos encontraram os de Riven. — Mas não vou pegar leve contra Gabriel. Vou com
tudo, desde o princípio.
Riven ficou em silêncio por alguns segundos, antes de se virar e seguir para os quartos.
— Ele vai te vencer. — Afirmou, subindo as escadas.
Kaelis sorriu, caminhando para o salão e devorando uma montanha de comida após 13 dias
em jejum absoluto, logo após voltou para seu quarto, onde tomou um banho relaxante, se
deitou e encarou o teto.
— Não morra Gabriel. — Murmurou, adormecendo em seguida.
Em Bharadhara, um intenso duelo era travado entre Ygerna e Gabriel, que estava mais velho,
os cabelos compridos, músculos completamente definidos, e coberto por diversas cicatrizes
e hematomas.
— Você tem certeza de que esse planeta está inabitado? — Gabriel perguntou com um tom
mais maduro e sério, segurando em mãos a Incisão Solar pela primeira vez em anos, com as
mãos calejadas, a apertando firmemente.
— Certeza de que tem tempo para se preocupar com isso no momento? — Respondeu
Ygerna, rodeando a sua volta, empunhando a Cael’Dranyr. — Sim, veja por si mesmo.
Gabriel por um instante liberou seu Sentire em uma explosão tão eficiente que percorreu
por todo o planeta em questão de minutos.
— Sim. — Respondeu ele. — Vazio. — Os olhos calmos.
— Essa é Cineris 2. — Vivian afirmou de longe.
Ao piscar os olhos , Ygerna o golpeou com a espada, mesmo de olhos fechados Gabriel se
esquivou de inúmeros golpes em segundos, e contra-atacando, Gabriel abriu seus olhos
novamente.
— Venha pra matar garoto. — Ygerna o instruiu.
De longe, Morgana, bem mais madura e com os cabelos bem mais compridos, assistia a luta
junto a Vivian, que permaneceu imutável.
— Se prepare para curar ele novamente. — Alertou Vivian.
— Sem problemas. — Morgana assentiu.
Gabriel liberou uma pequena fração do Éter Solar que a Incisão Solar havia acumulado
durante os 4 anos que passou treinando.