Saga 1: Torneio
No que eu me meti? Estou parado no dormitório de uma mulher que conheci faz apenas alguns minutos...
Alguns Momentos Antes...
"COMO ASSIM?"
A voz de Paola saiu num volume que sugeria que seus ouvidos haviam recebido a informação corretamente e seu cérebro simplesmente se recusava a aceitar.
"Exatamente o que você ouviu." A voz de Giyo era baixa, cuidadosa — a voz de alguém que já havia dito isso antes e sabia como caía. "Não tenho magia. Nenhum feitiço. Até grimórios são inúteis pra mim."
A mulher pressionou a mão contra o rosto. A manteve assim por um momento. Então a abaixou e o olhou com a expressão de alguém que havia revisado seus planos duas vezes no intervalo de cinco segundos e estava trabalhando numa terceira revisão.
"Bom." Ela pôs as mãos nos quadris, examinando-o da cabeça aos pés com a atenção focada de alguém fazendo um inventário. "Começamos pelos seus pontos fortes. O outro problema a gente resolve depois." Uma pausa, e então — com uma energia que não tinha o menor direito de ser tão animada dadas as circunstâncias — "Por enquanto, vamos pro meu quarto. A partir de hoje, você mora comigo!"
Presente...
Bom. Pelo menos aprendi algo útil. O nome dela é Paola Silva. Sua magia aparentemente é do lado mais fraco — mas sua inteligência superou tanta gente ao redor dela que ela se tornou professora aos vinte e cinco anos. Isso explica algumas coisas.
"Desculpa," Giyo disse, percebendo que havia se distraído. "O que você estava dizendo?"
"Fufufu — estava falando sobre o quanto eu amo pastéis."
Ele a encarou.
"...Pastéis."
"Pastéis! Isso." Ela disse com total sinceridade, o que de alguma forma piorou tudo.
O absurdo da situação — estar sentado sem camisa no quarto de uma estranha enquanto ela falava sobre pastéis — o atingiu de uma vez só, e antes que pudesse se conter, uma risada pequena e genuína escapou dele. Quieta. Surpresa consigo mesma.
"Fufufu. Brincadeira." Sua expressão voltou ao foco. "Eu estava falando sobre o seu corpo."
Ele olhou para baixo, a risada evaporando. Certo. Isso.
"Quanto tempo ainda tenho que ficar assim?" Ele cruzou os braços, constrangido. "É embaraçoso."
"Só mais um pouco." Ela já circulava ao redor dele, estudando as marcas com a alegria intensa e levemente perturbadora de alguém que havia encontrado o objeto de pesquisa mais interessante de toda a sua carreira. "Isso é notável. Você sobreviveu três anos nas ruas com quase nenhuma alimentação ou água consistente — e seu físico está em condição de pico." Sua voz havia adquirido uma qualidade que era ao mesmo tempo impressionada e cientificamente alarmada. "Para um menino de dez anos, isso é genuinamente assombroso. Musculatura definida. Uma presença que se lê como ameaçadora mesmo parado, sem esforço nenhum." Ela traçou o caminho das marcas com os olhos, sem tocar. "Essas espirais — começando no umbigo, cruzando as costelas, subindo pelo braço direito, pelo pescoço, e se enrolando no olho..."
Ele ficou tenso. As palavras soavam como perigo vestindo a fantasia de curiosidade.
"Sua família tem algum histórico de alguém que alcançou — ou superou — o Limite Humano?"
"O Limite Humano?" Ele não reconhecia o termo.
"Alguém que transcendeu os limites conhecidos do que um corpo e uma mente humanos conseguem fazer. Força, velocidade, inteligência, físico, espírito — tudo empurrado além do teto natural." Ela ficou de pé, encontrando seus olhos com um olhar que havia ficado sério. "O Clã Vermelho é um bom exemplo. Renomados por uma força física tão extrema que conseguem despedaçar pedra densa com as mãos nuas."
"Não sabia que existiam pessoas assim." Ele alcançou a camisa, puxando-a de volta — devagar, ganhando tempo para pensar. "Meu pai era conhecido pelo domínio da espada. Minha mãe, pela mana e pela magia."
"Hm." Ela se inclinou para uma última olhada antes que ele terminasse de se vestir, algo funcionando por trás dos seus olhos. "Interessante. Uma possibilidade é que um ancestral mais distante fosse extraordinariamente poderoso. Ainda assim—" Ela apontou para a marca no rosto dele. "Nunca encontrei marcas espirais assim. Elas sangram. Parecem se expandir, quase como algo vivo. E ainda assim..." Ela fez uma pausa, genuinamente intrigada. "Seus órgãos, sua pele, sua musculatura — nenhum deles mostra qualquer sinal de rejeição ou dano. As marcas estão lá, e o corpo simplesmente... as acomoda."
"Meu pai costumava dizer que herdei a vontade dele," Giyo disse. "Ele achava que tinha algo a ver com o meu cabelo."
Ela inclinou a cabeça. "Quais eram as cores do cabelo deles?"
"Minha mãe — azul, com alguns pontos amarelos. Meu pai era completamente vermelho."
"Vermelho... azul com pontos..." Ela repetiu a combinação devagar, do jeito que se repete algo quando se está tentando associar a uma memória que não se consegue bem localizar. "Acho que li algo sobre isso uma vez." Ficou parada por mais um momento, tentando alcançar. Então desistiu, sacudindo a cabeça. "De qualquer forma. Existem duas possibilidades: as marcas estão suprimindo completamente a sua magia, ou seu corpo está se preparando para um Despertar Mágico."
Giyo ficou completamente imóvel.
"Despertar Mágico?"
"Há registros históricos." Ela manteve o olhar fixo, se certificando de que ele estava ouvindo a versão completa. "A magia pode se manifestar e se desenvolver num ritmo notável antes dos doze anos. Rápida, poderosa, potencialmente transformadora." Uma pausa. "Também carrega riscos significativos. É raro, e o processo nem sempre é gentil."
Espero que aconteça aos doze. Não quero ficar assim pra sempre.
Ele afastou o pensamento e mudou de assunto antes que ela pudesse ver isso no rosto.
"Como me preparo para o exame de admissão?"
O sorriso que se abriu no rosto dela era o sorriso de alguém que havia esperado exatamente essa pergunta.
"Como a magia não está disponível pra você agora — focamos no seu corpo. Treino tão intenso que sua força atinja um nível que ninguém espera." Seus olhos brilhavam com a energia particular de um plano se concretizando. "Fazemos com que um único soco seu consiga despedaçar qualquer parede deste prédio."
Ele fechou os punhos. Algo se agitou no peito com a imagem — algo que havia estado frio por muito tempo e estava timidamente considerando a possibilidade do calor.
"Mesmo só com a força bruta... quero passar nesse exame."
"Você vai passar." Ela pousou as mãos nos ombros dele, firme e certa. "A seleção tem três etapas. Se você ficar aquém em uma, as outras duas podem te carregar. Eu mesma completei a fase Psicológica e tirei pontuação suficiente para ganhar uma posição de professora."
"O que tem na fase Psicológica?" Só o nome já fez sua pele arrepiar.
"É imprevisível. Ela se adapta individualmente a cada aluno." Ela considerou por um momento. "Eu não tinha nada a temer quando a enfrentei. Então simplesmente atravessei."
Treinar o corpo. Ele virou a ideia na cabeça. Parece brutal. Mas não vou voltar. Não vou voltar para as ruas, para o frio, para ficar esperando do lado de fora de um muro que não abre.
"Vou fazer isso pelo meu pai." As palavras saíram firmes. O vazio nos seus olhos, por apenas um momento, continha algo além da ausência. "Me diz o que fazer primeiro."
A risada que ela deu — "fufufu" — carregava a energia específica de alguém que havia acabado de finalizar o cronograma de treino mais ambicioso de toda a vida.
"Eu tinha em mente algo rigoroso. Extremo, até. Mas se você preferir começar mais leve—"
"Vamos fazer." Ele não deixou ela terminar. "O rigoroso. É o jeito mais eficaz."
"Ótimo." Ela já estava nas prateleiras, puxando livros com eficiência focada. "Uma condição: não vou te entregar a maioria das respostas. Crescimento através da própria vontade e determinação não é negociável." Ela se virou, com os braços cheios, e lhe ofereceu a pilha. "Leia esses. Anatomia humana. Condicionamento físico. Espero resultados."
Ele pegou os livros sem hesitar e foi embora.
Os corredores da academia estavam cheios do jeito que lugares novos são sempre cheios — mais do que os olhos conseguem processar de uma vez, os detalhes chegando mais rápido do que a mente consegue arquivar. Estudantes por todo lado. Professores cruzando entre os prédios com a eficiência focada de pessoas que têm lugares pra estar. O tipo de energia institucional que existe em lugares onde algo está sempre sendo preparado.
Ele percebeu, alguns passos adentro, que as pessoas estavam olhando para ele.
É a marca? O pensamento passou por ele com o peso velho e familiar de sempre. É sempre a marca.
Ele ainda estava dentro desse pensamento quando esbarrou em alguém.
Os livros caíram primeiro. Ele foi de joelhos imediatamente, juntando-os, rosto baixo.
"D-desculpa — não estava olhando pra onde ia—"
"Hm."
A voz o deteve.
Grave. Assentada. O tipo de voz que pertence a uma pessoa em torno da qual o ambiente já se reorganizou antes mesmo que ela fale. Ele foi percebendo — gradualmente, e depois de uma vez só — que o ar perto dessa pessoa era diferente. Mais pesado. Não exatamente ameaçador, mas carregando um peso que fez seus braços enrijecerem e seu maxilar se fechar e seus olhos resistirem ao instinto de olhar para cima.
Ele olhou assim mesmo.
Bigode branco, enrolado com cuidado. Cabelo azul carregando o prateado-esbranquiçado específico da idade nas bordas. O traje da academia que se encaixava nos padrões nobres da instituição sem chamar atenção para si, porque a pessoa que o vestia não precisava de nenhuma ênfase adicional.
"Um rosto novo." O homem o estudou com interesse sem pressa. "Incomum. Crianças normalmente não aparecem aqui sem aviso." Ele fez uma pausa. "Devo te informar — isso é uma escola. Só para alunos."
"Não sou — não sou inimigo." As palavras saíram antes que tivesse planejado. Ele se firmou. "Não estou aqui pra causar problema."
"Resposta interessante." O homem inclinou levemente a cabeça. "O que te trouxe aqui? E esses livros — são uma escolha incomum pra alguém da sua idade."
"Uma mulher me acolheu." Ele escolheu as palavras com cuidado. "Meu nome é Giyo. Ela disse que eu podia ficar nos aposentos dela."
A expressão do homem mudou quase imperceptivelmente. Algo nela que parecia uma familiaridade resignada.
"...Não me diga que é a Professora Paola de novo."
"É — sim. Senhor."
Uma longa expiração — a exalação específica de alguém que não está surpreso e está processando esse fato em tempo real. "Ela verdadeiramente opera sem limites." Ele cruzou os braços. "Muitos plebeus caminham por esses corredores por causa dela. Pessoalmente, não tenho objeção a isso — classe e status são construções para pessoas que carecem da capacidade de reconhecer potencial genuíno. Mas o próprio Rei já levantou a questão comigo." Seus olhos voltaram para Giyo, avaliando. "Espero que desta vez não surjam complicações."
"Posso perguntar..." Giyo hesitou. "Quem é o senhor?"
O homem piscou, como se a pergunta tivesse chegado de uma direção inesperada. Então algo mudou — a intensidade recuando, substituída por algo quase autoconsciente.
"Ah. Certo. Esqueço que nem todos já me conhecem." Ele se endireitou levemente. "Não se deixe enganar pelos cabelos grisalhos. Sou, no momento, o indivíduo mais forte neste prédio. Meu nome é Hiro. Sou o Diretor desta academia."
Silêncio.
Vento, em algum lugar lá fora.
"H..." Giyo soletrou as letras devagar, como se cada uma precisasse de confirmação. "...i... r... o."
"KAAAAAAAKAKAKAKA!"
A gargalhada chegou como um trovão e continuou — plena, genuína, sem restrições — atraindo a atenção de cada aluno e professor num raio de vinte metros. Hiro parecia completamente imperturbado com isso.
Algo aconteceu com Giyo então. A tensão nos ombros, o peso do caminho até ali, o medo de baixa intensidade que havia estado pousado no peito desde os portões de entrada — afrouxou, só um pouco, diante daquela gargalhada. E então, sem querer, ele riu também. Pequeno. Quieto. Real.
"Não se assuste." Hiro se recuperou, acenando com a mão. "Não tenho planos atuais de te retirar das dependências. Estava apenas curioso." Ele se abaixou ao nível de Giyo, o gesto surpreendentemente natural para alguém de sua estatura. "Já que Paola te acolheu — você está se preparando para a seleção de admissão, presumo?"
"Sim." A certeza em sua própria voz o surpreendeu. "Vou entrar nessa academia. Vou provar meu valor."
"KAAAAAAAKAKAKA! Vou cobrar isso de você." Ele apontou para os livros. "O que são esses?"
"Anatomia. Condicionamento físico." Ele sentiu a admissão subindo e a deixou vir. "Não consigo usar magia. Por isso pretendo tornar meu corpo forte o suficiente para que não importe — forte o suficiente para superar o Limite Humano."
Ficou vermelho imediatamente depois de dizer. As palavras soavam maiores em voz alta do que na cabeça.
Hiro o olhou.
O olhou por tempo suficiente para que Giyo tivesse tempo de se perguntar se havia dito algo errado. Então o olhar do homem se voltou para cima, em direção a algo além do teto — uma memória, talvez, ou o fantasma de uma.
"Superar o Limite Humano." Ele disse em voz baixa, para si mesmo. Então voltou, e algo em sua expressão havia se assentado numa decisão. "Vem comigo. Tem algo que quero te mostrar."
Ele seguiu.
Por corredores que se abriam em outros corredores, por salas de aula e espaços de treino e o tipo de arquitetura que comunica — sem declarar — que essa instituição se leva a sério. Os alunos abriam caminho quando Hiro passava, não por medo, mas por uma deferência habitual que havia se tornado inconsciente. Os professores acenavam com o respeito de pessoas que o sentiam de verdade.
Giyo observou tudo e sentiu algo se mover no peito para o qual não tinha um nome preciso. Algo adjacente ao querer.
No fim de um longo corredor, um conjunto de portas — maiores que as outras. Hiro as abriu sem cerimônia.
A arena era enorme.
Piso aberto, teto alto, o silêncio particular de um grande espaço vazio que havia absorvido um bom número de momentos significativos e estava preparado para absorver mais. Giyo ficou parado no limiar e a olhou.
"É aqui que a seleção será realizada." A voz de Hiro carregava um calor que não havia estado lá antes. "Ver antes pode ser útil. Considere uma pequena vantagem — KAAAAAAAKAKAKA."
Giyo se curvou. Não sabia ao certo quando havia decidido fazer isso, mas pareceu certo, e ele não voltou atrás.
"Obrigado."
Hiro o dispensou com um gesto e virou para ir embora.
Mas enquanto o Diretor caminhava de volta pelos corredores da academia, seus pensamentos seguiram numa direção que normalmente não tomavam.
Aquele físico. Aquela marca. A forma como a presença dele preenchia o corredor sem que tentasse, sem que soubesse — por um momento, só um momento, parado ao lado de um menino de dez anos, senti. Uma pressão nas bordas da minha percepção. A sugestão de algo enorme, atualmente contido, ainda não ciente do próprio tamanho.
Ele sorriu para si mesmo, quietamente.
"Nos encontraremos de novo, Giyo."
Enquanto isso — no Castelo Imperial de Valhalla...
"Que alguém me explique o que devo dizer aos nossos superiores!" O punho do velho caiu sobre a mesa com a força de quem estava segurando isso por tempo demais. As cruzes em sua túnica branca captaram a luz enquanto ele se inclinava para frente. "O homem mais forte do reino — perdido para um Rei do Mar?! Tínhamos autorização para aquelas águas!"
"Suas preocupações estão anotadas, Papa Greiton." A voz do Rei era medida, cuidadosamente calibrada — a voz de alguém gerenciando um ambiente. Ele estava sentado numa cadeira construída para a importância, sua coroa de rubis e esmeraldas repousando acima de cabelos que haviam ficado completamente brancos com os anos. "O que o território sabe atualmente é o seguinte: os Capitães foram emboscados. Houve baixas. Jack lutou, e caiu." Ele encontrou os olhos de Greiton firmemente. "Esses são os únicos detalhes atualmente em circulação."
"Não é possível." A voz de Greiton havia baixado, a fúria cedendo espaço para algo mais fundamental. "Como alguém como Jack simplesmente... morre?"
"Reis do Mar devoram navios inteiros. Sua resiliência rivaliza com a de um Dragoide em forma de combate plena." Arthur entrelaçou as mãos. "Jack era o Capitão mais forte da história registrada. Nenhum outro jamais derrotou sequer um dragão menor sem ajuda — quanto mais algo dessa escala." Ele expirou. "Sou grato, para os Deuses que estejam ouvindo, que a criatura tenha decidido não vir para a costa."
Um silêncio.
"A Espada Imperial poderia tê-la detido," Greiton disse. "Mas agora..." Ele deixou a implicação pousar.
"Agora olhamos para frente." A postura de Arthur não vacilou. "A próxima geração deve ser moldada deliberadamente. Encontramos os indivíduos certos, damos a eles tudo o que precisam, e construímos o próximo Jack do zero."
Greiton assentiu devagar. Então, após um momento: "Já ouviu falar do Reino Nexus?"
"A arma que estão desenvolvendo." O maxilar de Arthur enrijecer. "Capaz de eliminar uma nação inteira. O avanço tecnológico deles jamais foi igualado — e a liderança global consistentemente falhou em enfrentá-lo." Ele sacudiu a cabeça. "Não vou aceitar isso. Se essa arma for completada e implantada, a questão do que resta de nós se responde sozinha."
Greiton ficou quieto por um momento. Então uma qualidade particular de expressão atravessou seu rosto — algo entre cálculo e satisfação.
"Não há necessidade de se preocupar com essa ameaça, Sua Majestade." Ele dobrou as mãos, a voz carregando a confiança cuidadosa de alguém revelando uma carta que segurava faz tempo. "Encontrei uma criança. Uma plebeia, muito jovem. Ela carrega um poder que jamais encontrei em anos de estudo."
O Rei o olhou.
"Já ouviu falar do Poder da Luz?"
O ambiente mudou.
Arthur saiu da cadeira sem decidir — ambas as mãos na mesa, inclinado para frente, algo em sua expressão que havia abandonado completamente a compostura habitual.
"Luz." Ele disse a palavra como se estivesse testando se era real. "Isso é impossível. Em toda a história registrada de habilidades elementais — ninguém jamais manifestou o elemento Luz. O Livro Sagrado o nomeia. A história viva, não."
"Uma menina de sete anos," Greiton disse. "Uma plebeia. E seu potencial é..." Ele fez uma pausa, selecionando a palavra com cuidado. "Extraordinário. Embora deva mencionar — ela carrega marcas incomuns no corpo. Possivelmente algum tipo de doença."
"Então não espere." A voz de Arthur havia recuperado a autoridade, mas estava trabalhando mais do que antes. "Faça a Espada Imperial absorver suas habilidades imediatamente. Se ela estiver doente, pode não restar muito tempo."
Dormitório da Escola — Mais Tarde Naquela Noite...
A porta se abriu num cômodo completamente silencioso.
"Voltei."
Nenhuma resposta. O menino atravessou o pequeno espaço — pelas cadeiras, pela mesa, em direção à única porta que levava a algum lugar privado. Ele a empurrou.
Paola estava na escrivaninha, a cabeça repousando sobre os braços dobrados, completamente adormecida. Vários livros abertos a cercavam, suas páginas marcadas com anotações que sugeriam que ela havia trabalhado por horas antes que o sono a encontrasse.
"Paola?"
Ele empurrou seu ombro. Uma vez, gentilmente.
Seus olhos se abriram. Se ajustaram. O encontraram parado ali, e algo em sua expressão se assentou — o assentamento específico de alguém que, em algum nível, havia estado esperando para confirmar que ele havia voltado.
"Bem-vindo." Sua voz estava suave de cansaço. "Eu estava estudando e perdi a noção do tempo."
"Estudando o quê?"
"Suas marcas." Ela se endireitou, esfregando os olhos. "A forma delas. O padrão. Não consegui deixar pra lá." Um fufufu fraco — o cansaço tirando um pouco do fio. "Se você estivesse doente, estaria com dor. As marcas são anômalas, mas seu corpo não mostra sinais de sofrimento." Ela se levantou, cruzando em sua direção, e ergueu a mão — tocando a marca no rosto dele com dois dedos cuidadosos. "Quero tentar algo. Tenho uma teoria sobre por que sua magia não está se manifestando — mas para testá-la, preciso canalizar minha mana diretamente nas marcas."
"Você precisa—" Ele processou a frase. Seu rosto fez algo involuntário. "Você precisa me tocar?"
"Fufufu. Nada inapropriado." Ela parecia completamente imperturbada com a reação dele. "Prometo."
Definitivamente tem algo errado com essa mulher.
"...Tudo bem. O que exatamente esse teste verifica?"
"Se as marcas estão agindo como supressoras — bloqueando sua magia de fora pra dentro — então introduzir mana diretamente deve produzir algum tipo de reação. Pode nos dizer com o que estamos realmente lidando."
Ele se sentou na beira da cama, tirou a camisa, e resolveu não pensar em como sua vida havia se tornado estranha no intervalo de uma única tarde.
Ela se aproximou. Suas mãos encontraram a espiral na lateral dele, traçando-a com cuidado — sem pressionar, mal tocando, como se ela soubesse que poderia se abrir com pressão demais.
Então ela começou a falar.
"Ó forn seiðr, fljótt um hönd mína og fram fyrir líkama, far veg lífsins ok örlögsins, fléttandi band ok bindandi mikinn hnut."
Ele ficou completamente imóvel.
A língua era diferente de tudo que havia ouvido. Não era a Língua Mundial, nem nenhum dialeto dela — algo mais antigo, algo que parecia carregar seu próprio peso independente do significado. Ela a falava com a facilidade de alguém para quem não era algo estrangeiro, mas uma língua materna, uma que havia habitado por anos.
Quem é ela?
Uma luz emergiu de suas mãos — azul, suave, se movendo para dentro das marcas do jeito que a água se move para dentro da terra seca. Onde tocava, ele sentia frio. Não o frio do desconforto — o frio de algo que havia sido selado e estava agora, muito gentilmente, sendo lembrado de que existia.
"Esta é a Magia Antiga," ela disse, sem quebrar o fluxo. "A língua é o Nórdico Antigo — o idioma de nossos ancestrais, antes que a Língua Mundial padronizasse tudo. Meus feitiços são construídos a partir dela." Seus olhos encontraram os dele brevemente. "Acho mais honesta do que o que a substituiu."
"Nunca ouvi nada parecido," ele disse. Sua própria voz soava distante. "É..."
Ele não tinha a palavra.
O frio se aprofundou — não desagradavelmente, se espalhando das marcas para fora, pelos braços, em direção às pontas dos dedos. Como uma corrente encontrando um caminho que havia estado bloqueado por muito tempo.
Parece uma bênção, ele pensou, e não conseguia explicar por quê.
Então a marca brilhou.
A luz do cômodo desapareceu — simplesmente parou — substituída por uma radiosidade azul que se espalhou para fora da espiral no estômago dele, traçando todo o seu caminho pelo corpo, seguindo cada linha e curva para cima pelas costelas, ao longo do braço, pelo pescoço, até o olho—
As chamas chegaram sem aviso.
Pretas. Completas. Irrompendo dele em todas as direções ao mesmo tempo, preenchendo o cômodo, consumindo as paredes, o teto e o chão num instante. Paola se jogou para trás com um som que era mais surpreso do que com medo.
Então parou.
As chamas estavam sobre ela. Nas roupas, na pele, nas mãos — e nada estava queimando. Ela ergueu a palma e as observou se mover por ela, sentindo o calor que não era calor, o consumo que era lento e medido e — ela tinha certeza agora — inteiramente deliberado.
Não quebrei algo. Abri algo.
"Paola—" A voz dele veio de algum lugar dentro do fogo, abalada, suas pernas se dobrando sob ele enquanto as chamas sugavam o que quer que fosse que estavam drenando. "Você está — você está bem—?"
"Estou bem." Ela já se movia de volta em sua direção, já pensando. "Estou bem. Essas chamas não queimam." Ela tocou uma com o dedo. "Elas consomem energia. Mana. A minha, nesse caso — devagar, de forma constante. Como algo se alimentando." Ela o olhou diretamente. "Acho que acabei de liberar um selo."
"Um selo—"
"Há um texto antigo — escrito por uma bruxa, no período pré-moderno — sobre habilidades elementais que foram formalmente banidas. Proibidas pelos céus e trancadas." Ela falou rapidamente, do jeito que as pessoas falam quando o entendimento está chegando mais rápido do que conseguem articular. "A magia tem três gerações. A Primeira: fogo, água, terra, ar, raio, luz, sombra. A Segunda: elementos compostos, combinações, formas híbridas. A Terceira—" Ela fez uma pausa. "A Terceira é o que somente bruxas jamais compreenderam plenamente. Habilidades específicas. Manipulação. Interferência espacial. Coisas que não se encaixam nas outras categorias."
"E as chamas negras."
"Segunda geração no mínimo. Possivelmente Terceira." Ela manteve o olhar fixo no dele. "Isso é diferente de tudo que já estudei, Giyo. Seja lá qual for a linhagem de que você vem—" Ela se conteve, refreando a empolgação. "Tenho muito mais trabalho a fazer."
Ele ergueu a mão. Olhou para o fogo se movendo sobre ela.
Então fechou os dedos.
As chamas se apagaram.
Todas elas. Instantaneamente. Como se jamais tivessem existido.
O cômodo ficou escuro por um momento — a escuridão comum de um quarto de noite, as janelas mostrando um céu que havia ficado completamente negro enquanto eles não prestavam atenção. Então Paola encontrou uma luminária, e o mundo voltou a ser gerenciável.
"Por hoje é suficiente," Giyo disse. Ele estava ciente, distantemente, de que seus braços tremiam.
"Sim." Ela olhou para a janela, se recalibrando. "Descanse. Treine amanhã. Quando sentir que está ficando mais forte — volte até mim." Algo em sua expressão havia ficado muito focado, muito certo. "Há mais níveis. Quando você estiver pronto, vou te mostrar."
Antes que ele tivesse tempo de se preparar, ela o empurrou para a cama, se acomodou ao lado dele com o conforto total de alguém que não via absolutamente nada de incomum naquele arranjo, e aparentemente estava dormindo dentro de trinta segundos.
Ele ficou deitado no escuro, ciente do calor ao lado, ciente do frio residual tênue nas marcas, ciente da ausência do fogo que havia estado lá e agora sumido como se tivesse esperado a vida toda por alguém que fizesse a pergunta certa.
Tenho algo.
O pensamento era tentativo. Frágil. Ele o segurou com cuidado.
Tenho algo. Não sei o que é ainda. Mas é meu.
Nas profundezas do abismo — os recônditos mais baixos de algo que não era bem um lugar...
"Interessante."
A voz veio de um trono construído de ossos que haviam aprendido a ser mobília. Na escuridão, uma figura — quatro braços, imóvel, uma silhueta que a paciência havia tornado permanente — observava o evento que acabara de ocorrer com o distanciamento de alguém assistindo a um desenvolvimento satisfatório.
"Parece que você está aprendendo a usar meu poder muito bem."
A luz o encontrou devagar, do jeito que a luz encontra as coisas nos sonhos — revelando em vez de iluminando. Cabelo roxo com preto correndo por ele. Um maxilar guardado por algo que havia crescido ali em vez de ser colocado. Marcas ao longo dos pulsos, crescentes nos ombros, uma única seta apontando para baixo no peito. Tudo nele comunicava a autoridade específica de algo muito antigo que havia parado de precisar se anunciar.
O menino se materializou na sua frente, piscando.
"O quê — o que é esse lugar? O que é isso? Quem é—"
"Kakakaka." A risada era uma coisa própria — divertida sem calor, interessada sem gentileza. "Não se alarme. Sou um anfitrião. Nada mais do que isso." Uma mão repousou contra o rosto, a postura se assentando em algo entre arrogância e tédio. "Ele disse que aconteceria. Que mais cedo ou mais tarde, você encontraria o caminho até as minhas habilidades."
"De que está falando? Quem disse—"
"Você não consegue ver?" Ele gesticulou — um dos quatro braços, sem pressa — em direção a Giyo. Em direção às marcas. "As chamas negras. Seu corpo. Essas." Ele indicou as próprias marcas, e então as do menino, traçando a linha entre elas. "Somos iguais, você e eu. De mais maneiras do que você compreende no momento."
Ele se levantou do trono.
Cruzou a distância entre eles com a certeza lenta e deliberada de algo que tem todo o tempo de que precisa.
"Me entretenha." Seus olhos encontraram os de Giyo e os seguraram, e o que quer que houvesse naquele olhar era vasto e muito antigo e inteiramente focado. "Me mostre o que você consegue fazer com o que é meu."
Sua risada subiu na escuridão, preenchendo-a completamente.
"KAKAKAKAKAKAKAKAKAKA—!!!"
Continua...