“Se soubessem a verdadeira origem do sangue que bebem, perguntariam a si mesmos quem é o verdadeiro louco.” Douglas Vesper, O Primeiro Eremita.
O cheiro de metal oxidado e a fuligem no ar não combinavam com o clima agradável da Casa da Pinga. Sentado diante do balcão, Yuri, com seus olhos azuis, observava Maria à sua frente, uma jovem de cabelos cacheados vestindo um avental velho. Ela preparava um líquido escuro e espesso. Café, uma iguaria rara nesses tempos sombrios.
Sentindo o olhar do rapaz, a garota lançou-lhe um sorriso.
— O que você tanto olha?
— Nada. Só estou ansioso. — Disfarçou o rapaz, ajustando os óculos. — Nunca provei café antes.
A barista coou a bebida. O vapor se espalhou entre eles, misturando-se ao cheiro de madeira velha e álcool barato que impregnava a Casa da Pinga.
— Olha, vou logo avisando. Café tem gosto de pneu queimado. — Ela serviu a bebida em uma caneca gasta, deslizando-a pela bancada. — Eu realmente não entendo por que as pessoas gostam tanto disso... mas aí está.
Yuri levou a caneca para perto do rosto, o vapor embaçando seus óculos. Engolindo em seco deu o primeiro gole, repousou o recipiente devagar sobre o balcão, lutando para conter uma careta de repulsa.
— Eu nunca comi pneu queimado na vida. —- Forçou um sorriso. — Mas tenho quase certeza que o gosto é exatamente esse.
Maria soltou uma risada satisfeita.
— Eu te avisei! — A garota cruzou os braços e se encostou na parede. — Então… como vai a vida, Sr. Super novato?
— Até você com isso… Os capitães estão muito eufóricos. Não é nada demais.
— Nada demais? — Ela apoiou os cotovelos no balcão. — Você só passou três meses como aprendiz e já se tornou um caçador!
Ele limpou os óculos, desviando o olhar.
— Não é pra tanto — respondeu. — Kaleb fez a mesma coisa e ninguém o chama assim.
Maria revirou os olhos e soltou um suspiro.
— É que ele é um babaca insuportável. Diferente de você, que é bem interessante.
Yuri escondeu o rosto atrás da xícara, tomando mais um gole da bebida. Mãos surgiram por detrás dele. Envolvendo sua cintura com delicadeza.
— Bom dia. — Uma voz sedutora sussurrou em seu ouvido.
— Kaleb, você tem duas horas para parar com essas brincadeiras deliciosas — retrucou Yuri, mordendo o beiço.
Um rapaz de pele escura e olhos esverdeados sentou-se ao lado de Yuri. Ele puxou a caneca de café e deu um gole. Seu semblante brincalhão desapareceu no mesmo instante, seus traços se contorceram em pura repulsa.
— Puta que pariu. — Bateu a caneca com força no balcão. — Quanto você pagou nessa merda?
— Melhor você não saber — murmurou Yuri, questionando suas próprias decisões financeiras.
— Vindo de você, deve ter sido caro pra porra. — Ele lançou uma expressão decepcionada para a garota — Escuta, se o seu plano era assaltar ele, era só ter me avisado. Eu roubava os créditos dele escondido e a gente dividia. Mas fazer isso na cara dura — negou com a cabeça. — Que falta de vergonha.
Yuri apenas riu das reações exageradas do amigo. Em seguida, voltou sua atenção para Maria.
— Pelo menos o atendimento aqui é ótimo — garantiu o loiro, com um riso envergonhado.
As bochechas da barista coraram. Ela abaixou a cabeça, escondendo a face com os cachos. Kaleb acompanhou a troca de olhares, cruzou os braços e revirou os olhos
— Nossa, vocês gostam mesmo de café — riu. — Se já terminaram a melação, precisamos ir treinar com o pes-
O som de uma sirene rasgou a manhã, alto o suficiente para fazer o bar inteiro tremer.
“Alerta de Segurança Nível Vermelho. Todos os cidadãos devem interromper suas atividades e dirigir-se imediatamente aos abrigos designados. Repito: Todos os cidadãos devem interromper suas atividades e dirigir-se imediatamente…”
A atmosfera acolhedora da cafeteria evaporou. O silêncio foi engolido por gritos desesperados.
— Preciso ir — disse Yuri, virando-se para a garota.
Maria estava paralisada. Os olhos arregalados refletiam o giro vermelho das luzes de emergência.
— Cuidado... — A voz dela soou fraca, quase engolida pelo barulho. — Você também, Kaleb.
— Relaxa. Eu ainda vou voltar para pegar o dinheiro desse merda de volta.
Yuri trocou olhares com a atendente, esboçando um sorriso antes de sair correndo do local.
O pátio do Quartel-General fervilhava como um formigueiro. Centenas de soldados formavam fileiras rígidas, aguardando a próxima ordem.
Yuri e Kaleb assumiram seus postos à margem da tropa comum. Ao se aproximarem do ponto de encontro do esquadrão, avistaram Lara, William e Paula e se juntaram a eles.
Após alguns instantes, todos os soldados voltaram sua atenção para o alto do palanque. Um homem de cabelos invisíveis os encarava em silêncio, apoiando o peso do corpo em uma bengala de aço.
— Uma horda marcha contra o setor oeste. — Comandante Igor falava com calma, sua voz oscilante ressoando através dos alto-falantes da praça. — Nada que nunca tenhamos enfrentado antes. Já sabem o que fazer. Matem-os de vez!
Como um mar de formigas blindadas, a infantaria marchou em união para fora dos portões. O grupo de Yuri se preparava para se juntar à linha de frente, quando o som rítmico de metal chamou a atenção deles.
— Comandante! — Todos bateram continência.
— Tenho uma missão especial para vocês — declarou Igor, segurando com firmeza na bengala grossa.
— Nossa inteligência confirmou que os Sepultados estão sendo guiados por um Tirano de grau 5, talvez superior — explicou o comandante — Acham que conseguem?
Yuri permaneceu em silêncio por alguns instantes, calculando as chances de sucesso daquela missão. Kaleb pousou a mão em seu ombro e lhe deu um aceno positivo com a cabeça.
— Faremos nosso melhor.
Igor transferiu um arquivo criptografado para o DCCEF1 de Yuri, revelando as coordenadas exatas do Tirano que iriam caçar.
No setor oeste, a atmosfera era sufocante, iluminada apenas pelo brilho doentio da Lua de Jade. Acima deles, uma tempestade de flechas cortava o céu, caindo sobre um oceano de criaturas necróticas.
Yuri não carregava a alcunha de "Super Novato" à toa. Assim que a primeira onda de zumbis se aproximou, abriu parte de sua farda enegrecida, expondo seu ombro marcado por antigas runas.
Um brilho dourado irrompeu delas. A energia fluiu e se materializou em suas mãos, na forma de uma espada reta e um escudo reluzente.
Em um movimento fluido, desferiu um golpe contra um morto-vivo de duas cabeças, partindo a aberração ao meio.
Ele liderava a marcha, enquanto Lara, William e Paula protegiam os flancos. Na retaguarda, qualquer aberração que conseguisse passar pelos quatro Caçadores era facilmente silenciada por Kaleb.
De repente, um cão zumbi de três metros de altura surgiu por trás da formação. Suas mandíbulas apodrecidas já se abriam para dilacerar a garganta de Kaleb.
Sem sequer olhar para trás, ele estalou os dedos. Runas cintilaram em um tom esmeralda ao redor de seu pescoço. No mesmo instante, o estrondo de um escudo interceptando um ataque ecoou pelo ar.
Vibrações distorceram o ar ao seu redor. Os dentes da fera colidiram violentamente contra a barreira sônica, e o impacto a arremessou vários metros para trás.
Ele girou e apontou os dedos para a cabeça da besta.
— Bang. — A frequência sônica atravessou o crânio do Sepultado. A cabeça da criatura explodiu em uma chuva de sangue.
A equipe abriu caminho através do mar de abominações, deixando para trás o caos da linha de frente.
Seguindo as coordenadas exibidas no DCCEF¹ de Yuri, os Caçadores finalmente pararam diante das ruínas de um gigantesco complexo comercial, erguido muito antes do Cataclismo.
— É aqui — confirmou o loiro. O brilho de sua lâmina revelava a entrada do prédio abandonado.
Assim que entraram no prédio, o grupo reorganizou a formação, assumindo uma postura mais adequada à exploração. Dali em diante, o avanço dependeria dos sentidos aguçados de Kaleb e Lara.
Kaleb expandiu sua audição ao limite, tornando-se capaz de escutar uma folha caindo a vários metros de distância. Lara ativou seu estigma, runas ao redor de seus olhos acenderam em um tom rosado, aguçando sua visão para identificar qualquer ameaça oculta.
A atmosfera nas ruínas era sufocante, ainda mais densa do que nas trincheiras infestadas do setor oeste. Uma força invisível parecia esmagar os pulmões da equipe.
Quando alcançaram o terceiro andar, a pressão tornou-se quase insuportável. Lara ergueu um dedo trêmulo em direção ao véu de escuridão à frente do grupo.
— Ele está ali... mas não consigo enxergá-
Antes que ela pudesse terminar, uma torrente de sangue escapou de sua boca. Cravado em seu abdômen havia um pedaço de aço que lembrava vagamente uma espada.
Segurando a arma, estava um morto-vivo alto como uma porta, trajando uma farda escura.
Sem deixar tempo para o luto, a criatura arrancou a lâmina e avançou para a próxima vítima.
Dispositivo de Comunicação Comunista Extremamente Fodástico