A noite estava nublada e escura, e saindo de dentro de seu palácio, em direção ao quintal dos fundos, se encontrava um homem, ele usava uma coroa circular de ouro polido incrustada com pequenas pérolas por toda sua circunferência, forrada com veludo vermelho que subia, até acima da base, se fechando com oito arcos de ouro em volta, e acima deles, como ornamento central, se encontrava um belo diamante vermelho, lapidado impecavelmente. Uma franja de cabelos negros caiam para fora da coroa, cobrindo um dos olhos do homem. Ele era alto e esbelto, com um tom de pele acobreado, olhos negros, como carvão, nariz longo e arredondado e lábios finos e discretos. Onde um sorriso apreensivo estava estampado. Estava vestindo uma longa camisola de seda branca, que chegava até depois dos joelhos, e um manto de lã, vermelho, caía de seus ombros e se arrastava no chão atrás de si, seguindo seu passos. Segurava uma adaga curva, elegante e refinada, em uma das mãos, seu cabo era feito de ouro maciço, com arabescos com padrões florais, feitos de prata, a bainha, que cobria toda a extensão da lâmina, era feita também de ouro maciço, fazendo com que a adaga ficasse pesada.
Atravessando o quintal, passou por lindas árvores de cerejeira à sua esquerda e por damas-da-noite muito cheirosas à sua direita. Um cheiro melhor ainda adentrou suas narinas, quando passou por seu belo e longo jardim, que era composto por, incontáveis, jasmins, magnólias e gardênias. Quando, por fim, chegou ao final do quintal, que terminava em uma varanda, conseguiu ver a luz da lua, que tentava se esgueirar, através das nuvens, que não deixavam nenhuma estrela ser vista. O chefe de sua guarda o esperava. Com um homem, ajoelhado, amarrado e amordaçado, à sua frente.
– Trouxe o traidor, Vossa Graça – disse ele. Era alto, forte e também de pele acobreada. Vestia-se com sedas verdes e calças soltas negras, usava uma espada longa, presa em sua cintura, guardada na bainha de aço ornamentada.
– Muito bem, Daaryllo – disse o homem com a coroa. – Sabe o que acontecerá se uma única palavra sobre isso vazar, não sabe? – Acrescentou em um tom de voz sombrio.
– Sim, Vossa Graça – respondeu Daaryllo temeroso.
– Pode se retirar – disse, afastando o homem com um aceno de mão.
– Como quiser, Vossa Graça. – e fazendo uma grande reverência, se virou, cruzou o quintal e abandonou a escuridão da noite, pela luz que vinha da parte de dentro do palácio.
– Somos só nós dois agora – disse ao homem amordaçado. Ele usava um longo robe, com capuz, de cor roxa. Tinha longos e lisos cabelos negros, que se derramavam por suas costas, e sua pele era impecavelmente branca. Seus olhos mostravam o medo que sentia enquanto tentava balbuciar alguma coisa por baixo da mordaça. – Diga o quer dizer – Disse quando, com um puxão forte, tirou a mordaça da boca do homem.
– Não o traí Vossa Graça – falou desesperadamente o homem. – Tem de acreditar, nunca o trairia…
– Eu sei Innillos – disse o rei simplesmente. – Na verdade, me serviu bem demais. E é por isso que lhe trouxe aqui, para honrá-lo – Viu a confusão preencher os olhos de Innillos, e depois de um momento, continuou. – Sabe… segui seu conselho, me comuniquei com os seres cósmicos.
– Eu lhe disse Vossa Graça – a vida parecia ter voltado a pele pálida de Innillos. – Eu lhe disse que daria certo.
– E deu, de fato – dirigiu um sorriso, melancólico, para ele. – Porém… ele me pediu algo em troca. Um pequeno sacrifício em seu nome, nada de mais. – Conseguiu ver o horror e o medo, tomando conta de Innillos novamente, enquanto ele se debatia, tentando se soltar. – Então eu pensei, quem melhor do que você, que me aconselhou á contatá-lo, para se ter essa honraria.
– Não Vossa Graça, eu suplico, por favor, não me mate. Pense em seu pai, eu era um grande amigo…
Mas Innillos foi interrompido.
– Não se preocupe Innillos, não irei matá-lo, irei honrá-lo, afinal, que honraria pode ser maior do que morrer pelo seu rei e pelo seu reino?
– Por favor, Vossa Graça, por favor – Innillos implorava, com lágrimas caindo de seus olhos.
– É tarde demais para isso – disse enquanto desembainhava a adaga curva que trazia consigo. – Agradeço, verdadeiramente, pelo conselho. – Refletiu por um momento e acrescentou. – Ah, e não se preocupe, mandei afiar a adaga, provavelmente não irá sentir nada – E falando aquilo, abriu a garganta de Innillos, seu próprio ocultista, de ponta a ponta.
Sangue começou a jorrar da garganta cortada. Então, rapidamente, molhou sua mão com o sangue ainda quente de Innillos, e começou a pintar o chão com ele. Um hexagrama, sim, foi isso que ele disse, pensou ele. Dois triângulos, sobrepostos, um apontado para cima e o outro para baixo. Demorou um pouco para que terminasse de pintar, com sangue, a figura. Quando terminou arrastou o corpo, agora sem vida, de Innillos para que ficasse no centro dos dois triângulos. Quando tudo estava pronto, proferiu as palavras que haviam lhe dito:
Representando a união entre o céu e a terra,
o fogo e a água,
o espírito e a matéria,
o homem e a mulher,
o equilíbrio entre forças opostas,
eu, que busco poder, sabedoria e equilíbrio,
convoco-o,
venha até mim.
Assim que terminou de proferir aquelas palavras, o sangue que compunha o hexagrama começou a pulsar e a brilhar, como se estivesse, novamente, em um corpo vivo. Viu o corpo de Innillos levitar, repentinamente, e o sangue, que antes era de um vermelho vivo, agora começara a se tornar negro, como piche, e tão de repente como quando começou a levitar, o corpo de Innillos foi arremessado contra o chão, tão violentamente, que fez seus ossos se quebarem com um crack, que ecoou pelo jardim. Seu corpo começou a ser sugado para dentro do chão de pedra fria, como se ele estivesse o engolindo, e por fim, sumiu. Apenas alguns instantes depois, do centro do hexagrama, uma luz avermelhada surgiu, subindo até os céus como um raio, e desapareceu, mas do lugar de onde brotara, um vortex de fogo negro começou a tomar o lugar do hexagrama, consumindo totalmente o sangue que o compunha.
Do centro daquele vortex, surgiu um Ser, uma figura humanoide, alto e magro, com a pele coberta pelo fogo negro, de que o vortex era feito, mas que parecia não o incomodar, tinha poucos fios de cabelo branco, desgrenhados, finos e secos, que caiam de sua cabeça, em direção ao seus largos ombros. E junto dele, surgiu também, uma malícia incontrolável.
Um arrepio percorreu o corpo do homem, da espinha até a cabeça, e sua mente se encheu de pensamentos, que não pareciam ser seus. Seu corpo se enrijeceu e o ar de seus pulmões o abandonou. Abriu a boca para falar, mas as palavras fugiram dele. O Ser, lentamente se aproximou, um passo e depois o outro, olhando fixamente para o homem à sua frente, com seus olhos, completamente vermelhos, cheios de raiva. Não, pensou o homem, não era isso que eu queria, algo deu errado!
Tentou se afastar, tremendo, mas não conseguia afastar o olhar daquele Ser. Caiu ao chão antes mesmo de dar dois passos para trás, e a coroa caiu de sua cabeça, e rolou para perto daquela abominável figura. Sem tirar os olhos do rei, com apenas um pisão destruiu completamente a coroa de ouro polido.
Lágrimas brotavam de seu rosto quando aquele Ser, de pele queimada e olhos vermelhos, se pôs à sua frente, o olhando de cima. Sentiu a urina quente, que escorria, perna abaixo quando sentiu a mão, ressecada e sem pele, tocar seu ombro. Tinha dedos longos e grandes unhas, negras e afiadas, que o seguraram e o levantaram facilmente. Queria se debater, se livrar do agarrão daquele monstro, mas não tinha forças para isso. Parecia que seu corpo o tinha abandonado, pois não era capaz de controlá-lo.
O Ser o levantou, até ficarem olho com olho, e falou com ele, em um dialeto grosseiro e rude, que não entendeu uma palavra sequer. Então sentiu o aperto das mãos em seus ombros, que começavam a ficar mais forte, e mais forte, e mais forte… Queria gritar, mas nem isso conseguia. Sentiu seu peito se comprimir e os ossos de seus ombros se quebrarem. Conseguiu dar seu último suspiro, quando por fim, o Ser, monstruoso, conseguiu atravessar seus ombros e peitoral, e juntar as mãos, em um aglomerado de carne, tripas e sangue.
Seu corpo foi arremessado, sem vida ao chão, em uma poça do próprio sangue. Sua coroa fora destruída, e o Ser agora rumava para dentro do seu palácio, e depois seguiria para tomar seu reino.
E por tudo isso, e muito mais, a culpa cairia sobre ele.