Capítulo 35 – O Caminho da Escolha
A manhã em Aetheryon nasceu silenciosa.
Não havia mais o caos da batalha recente, nem o som constante de reconstruções urgentes. O reino parecia calmo novamente — mas era uma calmaria diferente, pesada, como se o próprio vento soubesse que aquilo não duraria.
No alto das muralhas, dois soldados observavam o horizonte.
Poucos minutos depois, surgiram pequenas embarcações cortando o mar.
Eryndor já sabia o que aquilo significava.
O Retorno dos Caçadores
Os barcos chegaram rapidamente ao cais.
Os soldados enviados semanas antes para localizar Kanzaki desceram sem sequer descansar. Seus passos eram apressados, diretos.
Algo havia sido encontrado.
Eles seguiram imediatamente para a capela principal de Aetheryon.
O interior da capela era amplo e silencioso. Grandes pilares sustentavam o teto alto, e a luz atravessava os vitrais criando cores suaves pelo chão.
No centro, parado diante do altar, estava Eryndor.
Imóvel.
Como uma estátua.
Sem virar o rosto, ele falou:
— Encontraram.
Não foi uma pergunta.
O líder dos soldados se ajoelhou.
— Sim.
— Confirmamos a localização.
— Kanzaki está escondido em uma vila costeira ao sul.
O silêncio tomou o ambiente.
A expressão de Eryndor não mudou.
Mas seus olhos… ficaram mais frios.
— Finalmente.
Ele se virou lentamente.
— Excelente trabalho.
Os soldados sentiram um arrepio.
Não era elogio.
Era o início de algo.
— Podem descansar.
— Em breve… vamos precisar de todos vocês.
Os homens saíram.
Eryndor permaneceu ali por alguns segundos.
Seus olhos ficaram distantes.
Não era apenas estratégia.
Não era apenas guerra.
Era pessoal.
Mas antes que pudesse continuar seus pensamentos—
Passos ecoaram pelo salão.
Ren Sobe Até a Capela
Ren caminhava pelos longos corredores de pedra.
Cada passo era firme.
Diferente.
Os meses de treinamento haviam mudado completamente sua presença.
Seu olhar estava mais frio.
Mais focado.
Mais pesado.
As duas espadas curvas estavam presas em sua cintura.
O vento atravessava as janelas abertas, balançando levemente seu manto.
Ele chegou à grande porta da capela.
Respirou fundo.
Empurrou.
A porta se abriu lentamente.
Eryndor já estava olhando para ele.
Como se soubesse que ele viria.
— Então… chegou.
Ren caminhou até o centro.
— Estou pronto.
Silêncio.
Nenhuma dúvida.
Nenhuma hesitação.
Eryndor analisou Ren por alguns segundos.
Observando postura.
Respiração.
Presença.
Energia.
Ele percebeu.
Ren havia mudado.
Muito.
— Está mesmo?
Ren respondeu sem desviar o olhar:
— Sim.
O silêncio voltou.
Então, Eryndor começou a andar lentamente ao redor dele.
— Você já enfrentou soldados.
— Já sentiu o peso da batalha real.
— Já viu o sangue.
Ele parou.
— Mas agora… é diferente.
Ren não respondeu.
Eryndor continuou:
— Sua missão… não é apenas lutar.
— É enviar uma mensagem.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Vorthal invadiu Aetheryon.
— Eles querem testar nossa força.
— Então vamos testar a deles.
Ren sentiu o coração acelerar levemente.
Eryndor falou com absoluta frieza:
— Você vai invadir Vorthal.
O silêncio ficou ainda mais profundo.
— E vai matar o General Karthus.
Ren não demonstrou reação externa.
Mas por dentro—
A pressão daquela missão era absurda.
Karthus não era um soldado comum.
Era um dos guerreiros mais fortes de Vorthal.
Um comandante.
Um estrategista.
Um lutador experiente.
Eryndor continuou:
— Não será uma missão simples.
— Não será uma missão limpa.
— E você estará sozinho.
Ren respondeu imediatamente:
— Não importa.
Eryndor parou diante dele.
Os dois ficaram frente a frente.
— Importa.
Uma pequena pausa.
— Porque se você falhar…
— Você morre.
Silêncio.
Ren não recuou.
Não desviou.
Não hesitou.
— Então eu não vou falhar.
Por um breve instante—
Eryndor sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas real.
— É isso que eu queria ouvir.
A Verdadeira Intenção
Eryndor virou de costas e caminhou até o altar.
— Existe outro motivo para essa missão.
Ren permaneceu atento.
— Quero ver até onde você chegou.
Ren franziu levemente a expressão.
— Se quer caminhar nesse mundo…
— Precisa provar.
— Para mim.
— Para seus inimigos.
— E principalmente… para si mesmo.
Ren apertou o punho.
Ele entendia.
Aquilo não era apenas uma missão.
Era um teste.
Um passo sem volta.
A Partida
Algumas horas depois…
O sol já começava a descer no horizonte.
No cais de Aetheryon, uma pequena embarcação estava preparada.
Sem bandeiras.
Sem símbolos.
Sem identificação.
Missão silenciosa.
Ren ajustou suas espadas.
O vento soprava forte.
Passos se aproximaram.
Isamu.
— Então… é hoje.
Ren apenas assentiu.
Isamu cruzou os braços.
— Missão perigosa?
— Muito.
Silêncio.
Isamu respirou fundo.
— Só toma cuidado.
Ren respondeu:
— Eu volto.
Mas havia algo naquela frase.
Algo diferente.
Não era certeza.
Era decisão.
Lysera também estava ali.
Observando.
Ela não falou nada.
Mas seu olhar dizia tudo.
Ren subiu no barco.
A embarcação começou a se afastar lentamente.
Aetheryon ficava para trás.
O mar se abria diante dele.
E muito distante…
Vorthal o aguardava.
Sem que ele soubesse…
Alguém também estava lá.
O Aviso de Eryndor
Enquanto o barco desaparecia no horizonte, Eryndor observava do alto das muralhas.
Seus braços estavam cruzados.
Seus olhos fixos.
Takemura se aproximou.
— Mandou o garoto sozinho?
— Sim.
— Arriscado.
Eryndor respondeu:
— Necessário.
Silêncio.
Então ele continuou:
— E não estarei aqui quando ele voltar.
Takemura virou o rosto.
— Vai atrás de Kanzaki?
Eryndor não respondeu.
Mas não precisava.
Takemura entendeu.
O vento ficou mais forte.
— Então… finalmente começou.
Eryndor respondeu calmamente:
— Sempre esteve acontecendo.
Ele virou de costas.
E começou a caminhar.
— Só estamos entrando na parte interessante agora.
Dois Caminhos
Naquela noite…
Duas viagens começaram.
Ren avançava pelo mar em direção a Vorthal.
Eryndor se preparava para partir em direção à vila onde Kanzaki estava escondido.
Dois caminhos.
Duas batalhas.
Duas histórias prestes a colidir.
E em algum lugar entre elas—
Um reencontro inevitável aguardava.