Capítulo 36 – Sangue Sobre Vorthal
O mar estava inquieto.
Ondas longas e profundas empurravam lentamente a pequena embarcação que cortava o oceano rumo ao território de Vorthal.
O céu estava parcialmente encoberto, e o vento soprava com força constante, fazendo o manto de Ren balançar atrás dele.
Ele estava sozinho.
Nenhum soldado.
Nenhum aliado.
Nenhuma segunda chance.
Apenas o som do mar.
E seus pensamentos.
Memórias no Silêncio
Ren permanecia sentado na proa do barco, com os olhos fixos no horizonte.
Mas não estava realmente olhando para o mar.
Estava olhando para dentro.
Daichi.
A imagem dele surgiu primeiro.
O sorriso fácil.
A forma como sempre tentava manter todos unidos.
E então…
A execução.
O sangue.
O silêncio da multidão.
Ren fechou os olhos por um instante.
Seu punho apertou com força.
— …
Outra imagem surgiu.
Isamu.
As palavras calmas.
Os conselhos.
Aquela estranha paz que ele carregava mesmo em meio ao caos.
Ren respirou fundo.
Depois…
Aoi.
O olhar dela naquele dia.
Frio.
Controlado.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se Daichi fosse apenas… um traidor.
O vento ficou mais forte.
Ren abriu os olhos.
Mas havia mais.
Muito mais.
Uma lembrança que quase nunca vinha.
Porque doía demais.
Sua mãe.
Um rosto suave.
Uma voz tranquila.
Uma presença que parecia distante… como um sonho.
Ele ainda lembrava do toque dela em sua cabeça quando era criança.
Lembrava do cheiro.
Do calor.
E lembrava também…
De quando ela desapareceu.
Sem explicações.
Sem despedida.
Sem respostas.
Ren apertou as espadas presas em sua cintura.
Seu olhar mudou.
Ficou mais duro.
Mais frio.
Mais vazio.
— Eu vou entender tudo.
O barco continuou avançando.
E no horizonte…
As enormes muralhas de Vorthal começaram a surgir.
O Reino de Vorthal
Vorthal era diferente.
Muito diferente.
As muralhas eram altas e negras, feitas de pedra escura que parecia absorver a luz.
Torres gigantescas se erguiam em vários pontos.
Bandeiras negras tremulavam ao vento.
O símbolo era estranho:
Uma marca circular com linhas quebradas — representando o domínio sobre forças ancestrais.
Não era um reino religioso.
Era um reino militar.
Frio.
Estratégico.
Violento.
O barco atracou discretamente em uma área menos movimentada do porto.
O barqueiro não fez perguntas.
Não queria saber.
Ren se levantou.
Colocou o capuz.
A sombra cobriu parte de seu rosto.
Ele desceu.
O barco partiu imediatamente.
Agora…
Ele estava completamente sozinho.
O Primeiro Contato
Ren deu apenas alguns passos.
E então—
— PARADO!
O som ecoou.
Passos surgiram de todos os lados.
Dezenas de soldados apareceram.
Armaduras escuras.
Espadas.
Lanças.
Arcos.
Eles cercaram Ren.
Um dos soldados avançou.
— Identifique-se!
Silêncio.
Ren não respondeu.
O soldado franziu a expressão.
— Está surdo?
Outro soldado falou:
— Tire o capuz.
O vento soprou.
Ren permaneceu imóvel.
A mão dele deslizou lentamente até o cabo das espadas.
— Último aviso—
CLANG.
O som metálico ecoou.
As duas espadas curvas foram sacadas em um único movimento.
O combate começou.
A Evolução de Ren
O primeiro soldado avançou.
Golpe horizontal.
Rápido.
Preciso.
Ren simplesmente inclinou o corpo.
A lâmina passou pelo vazio.
E no mesmo movimento—
SHHHK
A primeira espada atravessou o abdômen do soldado.
A segunda cortou o pescoço.
Dois golpes.
Um movimento.
Sem hesitação.
O sangue começou.
E não pararia.
— ATAQUEM!
Os soldados avançaram.
Lanças vieram primeiro.
Ren girou o corpo.
As duas espadas se moveram como um fluxo contínuo.
CLANG
CLANG
SHHHK
Centelhas.
Metal.
Sangue.
Ele não estava apenas lutando.
Estava dançando.
Um soldado tentou atacar por trás.
Ren girou completamente o corpo.
Corte cruzado.
As duas espadas abriram o peito do inimigo.
O efeito começou.
O sangramento das lâminas.
As feridas não eram comuns.
O sangue jorrava mais rápido.
Mais profundo.
Mais intenso.
O soldado caiu em segundos.
Outro veio.
Ren avançou.
Agora era ele quem atacava.
Passos rápidos.
Movimentos leves.
Os meses de treinamento com Eryndor e Takemura estavam ali.
Visíveis.
Claramente.
Ele deslizava entre os ataques.
Bloqueava.
Contra-atacava.
Executava.
Um arco disparou.
Ren inclinou a cabeça.
A flecha passou raspando.
Ele avançou.
Dois cortes rápidos.
O arqueiro caiu.
Mais cinco soldados cercaram.
Ren respirou fundo.
E pela primeira vez…
Liberou energia.
Uma aura vermelha começou a surgir ao redor das lâminas.
Os soldados hesitaram.
Erro fatal.
Ren desapareceu.
Um movimento tão rápido que parecia um salto.
Mas não era.
Era velocidade pura.
SHHHK
SHHHK
SHHHK
Três soldados caíram instantaneamente.
Os outros dois tentaram recuar.
Tarde demais.
Ren cruzou as lâminas.
Golpe duplo.
Os dois caíram.
Silêncio.
Restava apenas um soldado.
Ele tremia.
— Q-quem é você…?
Ren caminhou lentamente até ele.
Não respondeu.
Apenas ergueu uma das lâminas.
E finalizou.
Silêncio absoluto.
O chão estava coberto de sangue.
Ren limpou levemente as lâminas.
O vento soprou.
E então—
Ele simplesmente desapareceu dali.
De Volta a Aetheryon
O sol já começava a cair.
Na área de treinamento, Isamu estava sentado sobre uma pedra.
Respiração controlada.
Mãos apoiadas nos joelhos.
Lysera observava.
— Está melhorando.
Isamu abriu os olhos.
— Ainda parece pouco.
Lysera sorriu de leve.
— Sempre parece.
Isamu ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou:
— Lysera…
Ela olhou para ele.
— Você realmente confia no Eryndor?
O clima mudou.
Lysera ficou em silêncio.
O vento passou entre os dois.
Ela respondeu calmamente:
— Se ele não tivesse me encontrado…
— Eu provavelmente estaria morta.
Isamu franziu levemente a expressão.
Lysera continuou:
— Eu era uma mercenária.
— Lutas constantes.
— Missões suicidas.
— Sobrevivendo por acaso.
Ela olhou para o horizonte.
— Eryndor me derrotou.
— Fácil.
— Eu achei que iria morrer.
Pequena pausa.
— Mas ele me ofereceu uma escolha.
Silêncio.
— Viver… ou continuar desperdiçando minha vida.
Isamu entendeu.
Mas ainda assim…
Algo dentro dele não se acalmava.
Antes que pudesse responder—
Uma voz surgiu atrás deles.
— Lysera.
Takemura.
— Vamos lutar.
Lysera suspirou.
— Você não cansa?
Takemura sorriu.
— Ren não está aqui.
— Preciso me divertir com alguém.
Lysera estava prestes a aceitar.
Mas então…
Olhou para Isamu.
Pensou por alguns segundos.
E disse:
— Hoje não.
Takemura franziu a expressão.
— Então quem?
Lysera respondeu:
— Ele.
Isamu arregalou levemente os olhos.
— Eu?!
Takemura começou a rir.
— Isso vai ser rápido.
Lysera apenas falou:
— Lute.
A Primeira Luta de Isamu
Isamu se levantou.
Respirou fundo.
Segurou sua katana.
Takemura girou a lança.
— Não vou pegar leve.
— Nem eu.
Takemura avançou.
Rápido.
Golpe direto.
Isamu bloqueou.
CLANG!
A força empurrou Isamu para trás.
Ele deslizou alguns metros.
Mas não caiu.
Takemura sorriu.
— Melhorou.
Novo ataque.
Isamu desviou.
Girou.
Contra-atacou.
Movimento mais rápido.
Mais preciso.
Takemura bloqueou.
Mas percebeu.
Isamu estava diferente.
Mais focado.
Mais controlado.
Os golpes começaram a acelerar.
CLANG
CLANG
CLANG
Isamu respirou fundo.
E então—
Sua katana brilhou.
Pétalas de energia começaram a surgir ao redor da lâmina.
Takemura avançou.
Isamu golpeou.
As pétalas avançaram junto.
Takemura desviou.
Mas então—
As pétalas mudaram.
Explodiram em chamas.
Uma onda de fogo avançou além do golpe original.
Takemura arregalou os olhos.
Desviou por pouco.
Mas parte da explosão atingiu sua armadura.
Ele recuou.
Agora sério.
— Interessante.
Isamu também estava ofegante.
Mas seus olhos estavam determinados.
A luta continuou.
Mais intensa.
Mais rápida.
Mais forte.
Mas a diferença ainda existia.
Takemura era mais experiente.
Mais forte.
Mais preciso.
Após alguns minutos—
Ele desarmou Isamu com um movimento rápido.
A lança parou a centímetros do pescoço dele.
Silêncio.
Isamu respirava pesado.
Takemura abaixou a arma.
— Você vai ficar forte.
Lysera sorriu discretamente.
O Ponto Mais Alto de Vorthal
A noite já havia chegado.
No ponto mais alto do reino—
Sobre uma enorme torre de pedra—
Uma figura surgiu.
Ren.
O vento soprava com força.
Seu capuz cobria parte do rosto.
A cidade inteira estava abaixo.
Ele caminhou até a beirada.
E então falou.
Sua voz ecoou pelo vento.
— General Karthus.
Silêncio.
— Eu vim por Aetheryon.
Uma pausa.
— Apareça.
O vento ficou mais forte.
As nuvens começaram a se mover.
E a guerra…
Estava prestes a começar.