Capítulo 40 – Ecos de Traição
O vento frio atravessava as ruas destruídas de Vorthal.
Restos de pedra e madeira ainda desabavam lentamente, enquanto a poeira permanecia suspensa no ar como uma névoa cinzenta. A batalha havia terminado, mas a sensação de perigo ainda pulsava no ambiente.
Ren respirava com dificuldade.
Seu corpo estava pesado depois do fim da transformação ancestral. A energia negra havia desaparecido, deixando apenas exaustão e dor espalhadas pelos músculos.
Ele apoiou uma mão no chão.
Tentou se levantar.
Primeiro um joelho.
Depois o outro.
Sua visão ainda estava turva.
Até que—
Shhhk.
O som seco de uma lâmina sendo posicionada.
Fria.
Precisa.
Uma katana parou a poucos centímetros de seu pescoço.
— Não se mova.
A voz era firme.
Autoritária.
Mas carregava tensão.
— Identifique-se. Agora.
Ren congelou.
Não por medo.
Mas pela voz.
Seu coração acelerou de forma diferente.
Lenta.
Pesada.
Familiar.
Ele permaneceu de costas por alguns segundos.
Então falou, em tom baixo:
— …Essa voz.
Atrás dele, Aoi manteve a espada firme.
— Eu disse para se identificar.
Ren soltou uma respiração lenta.
Levou a mão até o capuz.
E o puxou para trás.
Seus cabelos apareceram primeiro.
Depois o rosto.
Ele começou a se virar lentamente.
Quando terminou—
O mundo parou.
— …Ren?
A espada de Aoi tremeu.
Não caiu.
Mas perdeu firmeza.
Ren a encarou.
Sem sorriso.
Sem surpresa positiva.
Sem emoção.
— Então é aqui que você está.
O Impacto
Aoi não conseguia processar.
Seus olhos percorriam o corpo dele.
As duas espadas curvas.
Os cortes.
A energia residual da batalha.
A destruição ao redor.
— Foi… você?
A voz dela saiu fraca.
Ren respondeu sem hesitar:
— Sim.
O silêncio pesou.
O vento soprou entre os dois.
Aoi deu um passo para trás.
— Ren… eu—
— Nem começa.
A resposta veio seca.
Direta.
O olhar dele mudou.
Mais duro.
Mais distante.
— Você realmente conseguiu.
Aoi franziu o cenho.
— O quê?
Ren caminhou até as espadas fincadas no chão.
Puxou a primeira.
Depois a segunda.
Girou as lâminas com naturalidade.
— Trair todo mundo.
Aoi apertou a katana.
— Você não sabe do que está falando.
Ren parou.
Olhou diretamente para ela.
— Eu sei exatamente.
As Palavras Que Cortam
Ren começou a se aproximar.
Passo a passo.
Sem pressa.
— Daichi morreu acreditando em você.
O impacto foi imediato.
O corpo de Aoi travou por um instante.
Ren continuou:
— Eu acreditava em você.
Outro passo.
— A vila acreditava em você.
Agora ele estava perto.
Muito perto.
Seu olhar era pesado.
Frio.
— Seu próprio pai acreditava em você.
Silêncio.
Aoi tentou manter a postura.
Mas seus olhos vacilaram.
Ren inclinou levemente a cabeça.
— Sabe o que eu fico pensando?
Ela não respondeu.
— O quanto alguém precisa cair… pra conseguir trair tanta gente assim.
Aoi respirou fundo.
Tentando se controlar.
— Ren—
Ele interrompeu:
— Kanzaki deve ter sentido vergonha.
Os olhos dela se arregalaram.
Ren continuou, sem suavizar:
— Talvez tenha até se matado depois de ver no que a própria filha se tornou.
O silêncio ficou pesado.
Aoi não podia explicar.
Não podia revelar a infiltração.
Então apenas suportou.
Ren interpretou aquilo como confirmação.
E qualquer resquício de empatia desapareceu.
O Confronto
Aoi ergueu a katana novamente.
— Se você continuar—
Ren avançou.
O primeiro golpe veio rápido.
Aoi bloqueou.
O impacto ecoou pelas ruas destruídas.
Metal contra metal.
Os dois começaram a trocar ataques.
Movimentos rápidos.
Precisos.
Técnicos.
Não era uma luta de força total.
Era uma luta emocional.
— Você mudou — disse Aoi enquanto desviava.
— Eu parei de ser ingênuo.
Ela contra-atacou.
— Você está deixando o ódio te controlar.
Ren bloqueou.
As lâminas travaram.
Os rostos ficaram próximos.
— Eu estou deixando a realidade me controlar.
Aoi empurrou as espadas e recuou.
— Essa não é a realidade.
Ren girou as lâminas.
— É a única que sobrou.
A Interrupção
Passos começaram a ecoar.
Muitos.
Soldados de Vorthal surgiam pelas ruas.
— O invasor!
— Cercar!
— Não deixem escapar!
Em segundos, dezenas começaram a cercar o local.
Aoi percebeu imediatamente.
Se continuassem—
Ren seria cercado.
Ren também percebeu.
Ele recuou alguns passos.
Aoi não avançou.
Os soldados formavam um círculo.
Ren apoiou uma espada no ombro.
Seu capuz balançou com o vento.
Então ele falou:
— Escutem bem.
Os soldados hesitaram.
Mesmo exausto, a presença dele ainda era esmagadora.
Ren olhou diretamente para Aoi.
— Aetheryon declara guerra.
Silêncio absoluto.
— Guerra real.
O clima mudou.
Mas antes de desaparecer—
Ren deu mais um passo para trás.
E disse, olhando apenas para ela:
— Não importa quanto tempo leve.
Uma energia negra começou a surgir ao redor dele.
Instável.
Mas suficiente.
— Eu ainda vou cortar o seu pescoço.
Silêncio.
— Pelo Daichi.
Aoi não respondeu.
Não conseguiu.
E então—
Ren desapareceu.
O Peso Que Ficou
Os soldados começaram a se movimentar.
Alguns correram para tentar rastreá-lo.
Outros analisavam a destruição.
Mas Aoi permaneceu imóvel.
Sua katana ainda em mãos.
Seu olhar perdido.
As palavras dele ecoavam repetidamente.
Cada uma mais pesada que a anterior.
A guerra havia começado.
Mas para Aoi…
O verdadeiro conflito ainda estava apenas começando.