Capítulo 43 — Quando Lâminas Dançam com o Trovão
O mundo pareceu prender a respiração.
Por um único instante…
Nada se moveu.
Então eles desapareceram.
O chão sob os pés de Kanzaki e Eryndor cedeu ao mesmo tempo, como se o próprio impacto da decisão de lutar tivesse sido suficiente para quebrar a terra. No espaço onde antes estavam, restou apenas poeira sendo lançada ao ar.
No alto—
As lâminas se encontraram.
O choque entre as espadas não foi apenas físico. Foi como se duas forças completamente opostas colidissem no ar, criando uma pressão invisível que se espalhou pela vila. O vento foi empurrado para trás, as roupas dos moradores se agitaram, e até as estruturas ao redor rangeram sob o impacto.
Os dois ficaram travados por um breve momento.
Olhos nos olhos.
Nenhuma palavra.
Apenas entendimento.
E então… movimento.
Kanzaki girou o corpo primeiro.
Seu estilo era limpo, direto, sem exageros. Cada golpe tinha propósito. Ele desceu a lâmina num arco preciso, forçando Eryndor a reposicionar a defesa. No mesmo fluxo, já vinha o segundo ataque — não como uma sequência forçada, mas como continuação natural do primeiro.
Eryndor respondeu com a mesma fluidez.
Ele não recuava.
Não quebrava o ritmo.
Se Kanzaki era precisão…
Eryndor era agressividade refinada.
Os dois começaram a se mover em círculos curtos, trocando golpes rápidos, desviando por centímetros, avançando e recuando como se estivessem coreografando uma dança que só eles entendiam.
Cada passo era calculado.
Cada respiração, controlada.
Kanzaki avançou com um corte diagonal, buscando o ombro.
Eryndor inclinou o corpo o suficiente para deixar a lâmina passar raspando, e no mesmo movimento tentou um contra-ataque nas costas.
Mas Kanzaki já estava girando.
A lâmina dele apareceu no caminho, bloqueando o golpe antes mesmo de ele se completar.
Os dois continuaram.
Sem parar.
Sem dar espaço.
O ritmo aumentava a cada segundo.
O chão começou a marcar os movimentos deles — sulcos, rachaduras, pontos de impacto onde seus pés tocavam com força absurda.
Então…
Eryndor sorriu.
Foi sutil.
Mas foi real.
E naquele momento—
Tudo mudou.
O ar ao redor dele começou a vibrar.
Pequenos estalos surgiram.
A energia se acumulava.
E então ele sumiu.
Kanzaki reagiu no mesmo instante.
Ele não tentou acompanhar com os olhos.
Sentiu.
Girou o corpo, levantando a espada no momento exato em que Eryndor reapareceu acima dele, descendo com um golpe carregado de força.
O impacto fez Kanzaki deslizar para trás alguns metros.
Antes que pudesse estabilizar completamente—
Eryndor já não estava mais ali.
Ele se movia agora como um relâmpago.
A cada reaparição, um novo ataque.
De cima.
De lado.
Por trás.
Sempre rápido demais.
Sempre no limite.
E junto com seus movimentos, a energia crescia.
Raios começaram a se formar ao redor da lâmina de Eryndor, acompanhando seus cortes, explodindo contra o chão quando erravam por pouco.
A vila tremia.
O combate deixava de ser apenas físico.
Kanzaki desviava com precisão absurda.
Seus movimentos não eram mais apenas defesa.
Eram leitura.
Antecipação.
Ele entendia o padrão.
Ou melhor…
Ele entendia o homem.
Mas ainda assim—
Era pressão demais.
Em um choque mais forte entre os dois, a força os separou.
Kanzaki deslizou para trás.
Dessa vez, ele não avançou imediatamente.
Parou.
Firmou os pés no chão.
E então…
Fechou os olhos.
O campo de batalha pareceu desacelerar por um instante.
Eryndor observou.
Curioso.
Atento.
Kanzaki juntou as mãos lentamente diante do peito.
Seus dedos se tocaram como em uma prece.
Mas não era uma prece comum.
A energia ao redor dele mudou.
Ficou mais densa.
Mais… elevada.
E então ele falou.
A voz baixa.
Mas carregada de algo antigo.
Algo sagrado.
— Pai que observa acima de todos os céus…
O vento cessou.
— Que testemunha a lâmina e o pecado…
A luz começou a surgir ao redor dele.
— Conceda-me sua presença…
A terra sob seus pés começou a vibrar levemente.
— E lute ao meu lado.
Silêncio.
Um instante.
E então—
A luz explodiu.
Atrás de Kanzaki, uma forma começou a surgir.
Primeiro, apenas um contorno.
Depois…
Detalhes.
Uma entidade.
Alta.
Imponente.
Feita de luz branca, quase transparente, como se não pertencesse completamente àquele mundo.
Seu rosto estava oculto sob um capuz marcado com símbolos antigos da igreja — padrões que pareciam se mover levemente, como se estivessem vivos.
E em suas mãos…
Duas espadas.
Iguais às de Kanzaki.
Mas feitas de pura energia divina.
Kanzaki abriu os olhos.
Eryndor observava em silêncio.
Sem medo.
Sem recuar.
Apenas… interessado.
Kanzaki avançou.
E dessa vez—
Ele não estava sozinho.
Quatro lâminas se moveram ao mesmo tempo.
As dele.
E as da entidade.
Os ataques vinham em sincronia perfeita, como se fossem uma extensão direta da vontade dele.
Eryndor respondeu com velocidade.
Relâmpagos explodiam ao redor do seu corpo enquanto ele desviava e contra-atacava, seus movimentos deixando rastros elétricos no ar.
Mas agora…
Era diferente.
A pressão havia mudado de lado.
Os golpes de Kanzaki eram mais difíceis de ler.
Mais difíceis de bloquear.
A entidade atacava junto, ampliando o alcance, alterando os ângulos, criando aberturas impossíveis.
Cada troca de ataques gerava explosões de energia.
Luz branca contra relâmpagos azuis.
O chão se quebrava.
O ar vibrava.
A vila inteira assistia.
Sem conseguir sequer piscar.
Porque aquilo não era mais apenas uma luta.
Era um espetáculo de destruição controlada.
Uma dança entre duas forças que não deveriam coexistir.
Eryndor apareceu à frente de Kanzaki, envolto em eletricidade, tentando atravessar a defesa com um golpe direto—
Mas duas lâminas bloquearam.
E outras duas vieram logo depois.
Ele recuou no último instante.
Um raio explodiu ao lado dele.
A entidade avançou junto com Kanzaki.
Sem pausa.
Sem hesitação.
A batalha escalava.
Cada vez mais.
Cada vez mais rápido.
Cada vez mais destrutiva.
Ao longe…
Observando tudo em silêncio—
Seraphiel.
Seus olhos estavam fixos.
Sérios.
Diferentes de antes.
Ele analisava cada movimento.
Cada troca.
Cada explosão de poder.
E então…
Ele falou.
Baixo.
Quase para si mesmo.
— Então esse é…
Uma pausa.
Seus olhos se estreitaram levemente.
— o líder de Aetheryon.
Silêncio.
Mais uma explosão iluminou o céu da vila.
Seraphiel cruzou os braços.
E murmurou:
— …Espero que Kanzaki ainda saiba lutar.
A batalha continuava.
E só estava começando.