Capítulo 45 — O Céu Que Caiu Sobre a Terra
O mundo havia sido reduzido a dois homens.
Todo o resto… era cenário.
A vila, o festival, as vozes, os olhares — tudo parecia distante agora, como se estivesse sendo observado debaixo d’água.
No centro de tudo aquilo—
Kanzaki e Eryndor ainda estavam de pé.
Mas agora… já não havia beleza.
Só restava o que vinha depois dela.
O desgaste.
A dor.
A verdade.
Eryndor avançou novamente.
Sem aviso.
Sem estratégia aparente.
Apenas… força bruta.
Sua velocidade ainda era absurda, mesmo com o corpo marcado por cortes, queimaduras e o sangue que escorria constantemente pelo lado esquerdo do rosto. O olho perdido não parecia importar.
Ele ainda via.
Ainda reagia.
Ainda lutava.
Kanzaki não tentou mais acompanhar no mesmo ritmo.
Dessa vez…
Ele mudou.
Seus pés firmaram no chão.
Sua respiração desacelerou.
E a entidade atrás dele…
se moveu sozinha.
Não como reflexo.
Mas como vontade própria.
As lâminas de luz começaram a interceptar os ataques de Eryndor antes mesmo que Kanzaki reagisse. Bloqueios perfeitos, cortes defensivos, movimentos que não vinham mais do corpo de Kanzaki, mas de algo… além.
Kanzaki passou a atacar apenas quando necessário.
Um corte preciso.
Um avanço pontual.
Sem desperdício.
Sem excesso.
Eryndor percebeu.
Mas não recuou.
Ele avançava mesmo assim.
E a cada avanço—
Era punido.
Um corte no braço.
Outro no peito.
Uma lâmina atravessando superficialmente sua lateral.
O sangue já não escorria.
Corria.
Mas ele não parava.
Não diminuía.
Não pensava.
Cada golpe dele era carregado de algo que não podia mais ser chamado de técnica.
Era… fúria.
Kanzaki desviou de mais um ataque, enquanto a entidade atrás dele avançava com duas lâminas simultâneas, cruzando o corpo de Eryndor com cortes profundos.
Eryndor cambaleou por um instante.
Mas, ainda assim—
Deu outro passo à frente.
Outro ataque.
Outro avanço.
Como se o próprio corpo tivesse deixado de ser relevante.
Kanzaki franziu o cenho.
E pela primeira vez desde o início da luta—
Falou.
A voz firme.
Mas carregada de algo diferente.
— Pare com isso.
Eryndor não respondeu.
Continuou.
Outro golpe.
Outro corte recebido.
Outro avanço.
Kanzaki desviou novamente, sua lâmina passando perto do pescoço de Eryndor, abrindo mais um corte.
— Isso já passou do limite.
Nada.
Nenhuma resposta.
Apenas o som do corpo de Eryndor sendo rasgado…
E avançando mesmo assim.
Kanzaki apertou a espada.
— Se continuarmos…
Ele desviou de um ataque e contra-atacou com um corte limpo no torso de Eryndor.
— Isso não termina entre nós dois.
Silêncio.
Por um instante…
Eryndor parou.
Deu alguns passos para trás.
Lentamente.
O suficiente para criar distância.
Seu peito subia e descia de forma irregular.
Seu corpo estava… destruído.
Mas sua presença…
Ainda era esmagadora.
Ele olhou ao redor.
A vila.
As casas.
As pessoas.
A igreja.
O festival.
Tudo ainda existia.
Tudo ainda… respirava.
E então ele olhou de volta para Kanzaki.
Seu olhar não era mais apenas raiva.
Era algo mais profundo.
Mais antigo.
Mais pesado.
Ele caminhou até sua katana.
Cravada no chão, onde havia sido lançada antes.
A segurou pelo cabo.
E a puxou.
O som do metal sendo arrancado da terra ecoou de forma estranha no silêncio.
E então—
Ele falou.
Baixo.
Mas cada palavra parecia carregar o peso de algo irreversível.
— A igreja…
Uma pausa.
— …e você…
Outro passo à frente.
— …não vão sair impunes.
Seus dedos apertaram o cabo da katana.
— Pelo que fizeram com o mundo.
O ar começou a mudar.
— Pelo que fizeram com ele.
Seu olhar endureceu.
— Com o meu irmão.
Raizen.
O nome não foi gritado.
Mas caiu como uma lâmina.
E então—
Eryndor fincou a katana no chão.
Com força.
Com decisão.
Com… intenção.
E naquele instante—
Tudo ao redor reagiu.
O céu escureceu.
Não lentamente.
Mas como se algo tivesse sido puxado para cima.
As nuvens começaram a girar.
Rápido.
Violento.
O vento surgiu.
Não como brisa.
Mas como pressão.
Como força.
Como aviso.
Raios começaram a surgir ao redor da lâmina.
Primeiro pequenos.
Depois maiores.
Depois—
Incontroláveis.
Eles subiam pela katana como serpentes elétricas, se entrelaçando, crescendo, se multiplicando. O chão ao redor começou a rachar ainda mais, incapaz de suportar a energia que estava sendo concentrada ali.
Kanzaki sentiu.
Não era apenas um ataque.
Era… destruição absoluta.
Ele deu um passo à frente.
Tentou avançar.
Mas já era tarde.
Eryndor levantou o olhar.
E disse—
— Contemplem.
E então—
O mundo explodiu.
Uma descarga colossal de energia desceu do céu como se o próprio firmamento tivesse sido rasgado ao meio. Raios atingiram o ponto onde a katana estava fincada, e a energia acumulada foi liberada de uma só vez.
A explosão foi instantânea.
Massiva.
Impossível de conter.
O impacto se espalhou em todas as direções, engolindo tudo.
Casas foram destruídas como se fossem feitas de papel.
A igreja—
Desapareceu.
O festival—
Se tornou silêncio.
A luz tomou conta de tudo por um instante.
E então—
O som veio.
Atrasado.
Mas ensurdecedor.
Quando tudo cessou…
O que restou—
Era irreconhecível.
Fumaça.
Destroços.
Silêncio.
Um silêncio que não deveria existir.
Kanzaki estava de pé.
Mas seus olhos…
Não estavam mais calmos.
Não estavam mais centrados.
Eles estavam… em chamas.
Ódio puro.
Cru.
Real.
Seraphiel, ao longe—
Não dizia nada.
Mas sua presença havia mudado completamente.
A serenidade havia desaparecido.
No lugar dela—
Algo muito mais perigoso.
Mas mesmo assim…
Nenhum dos dois se moveu.
Porque sabiam.
Que naquele momento—
Não havia mais luta.
Apenas… consequência.
No centro da destruição—
Eryndor ainda estava de pé.
Sua respiração pesada.
Seu corpo à beira do limite.
Mas sua mão ainda firme na katana.
Ele a puxou do chão lentamente.
Observou o que restou ao redor.
E então—
Falou.
Sem gritar.
Sem força.
Mas com um peso que atravessava tudo.
— Sintam…
Uma pausa.
O vento ainda carregava o cheiro de destruição.
— …um pouco da dor de todos.
Silêncio.
E então—
Ele desapareceu.
Sem som.
Sem aviso.
Sem deixar nada além de…
Ruínas.
E memória.