Capítulo 49 — O Início da Tempestade
O vento soprava leve sobre os campos de Aetheryon.
Silencioso.
Calmo demais.
Ren caminhava de volta pelo caminho de pedra que levava à capela central. Seus passos eram firmes, mas sua mente estava longe dali.
A reunião.
Os olhares.
As palavras.
A acusação.
Traidor.
Ele apertou levemente o punho… e então empurrou a porta da capela.
Lá dentro, como sempre—
Eryndor.
De pé.
Imóvel.
De costas.
Como se já soubesse.
— Demorou. — disse, com a voz baixa.
Ren se aproximou.
— A reunião… aconteceu.
Silêncio.
Eryndor não se virou.
— Então fale.
Ren respirou fundo.
Seus olhos ficaram mais sérios.
— Eles estão divididos.
Uma pequena pausa.
— Alguns acham que a guerra com Vorthal era inevitável.
— Outros…
Ele cerrou levemente os dentes.
— Disseram que era só um conflito isolado. Que você… puxou algo maior do que devia.
Nenhuma reação.
Eryndor apenas escutava.
— E sobre mim…
Agora sua voz ficou mais fria.
— Perguntaram se fui eu que declarei guerra.
— Disseram que fui imprudente.
— Que comecei algo que não posso sustentar.
O silêncio na capela ficou mais pesado.
— E teve mais uma coisa.
Ren levantou o olhar.
— Um deles disse que… com tanta gente sendo recrutada…
— …é impossível não ter um traidor em Aetheryon.
Agora sim.
Um leve movimento.
Eryndor virou o rosto… apenas o suficiente.
Seus olhos.
Frios.
— Foi isso que disseram?
— Foi.
Silêncio.
Pesado.
Por alguns segundos, não havia som algum.
Então Eryndor se virou completamente.
— Líderes das regiões.
Ren franziu levemente o cenho.
Eryndor começou a caminhar lentamente.
— Leste… Valdrik Sorn.
— Sul… Helvar Dren.
Ele parou.
— Norte…
Uma pequena pausa.
— Tan Yang.
O nome caiu no ar como algo que não precisava de explicação.
Ren permaneceu em silêncio.
— Eles sempre falam demais. — continuou Eryndor, com desdém.
— Mas um deles…
Seus olhos desviaram levemente para fora da capela.
— …age.
Antes que Ren pudesse perguntar—
Um som.
Distante.
Grave.
Constante.
Como o bater de vários corações ao mesmo tempo.
Ren virou o rosto.
— O que é isso…
O som aumentava.
Cavalos.
Armaduras.
Passos.
Muitos.
Eryndor simplesmente caminhou até a saída.
Ren o seguiu.
E então—
O campo de Aetheryon estava sendo tomado.
Cavalarias surgiam pelas trilhas, descendo das montanhas, levantando poeira, formando linhas organizadas que pareciam não ter fim.
Soldados.
Muitos.
Muito mais do que o normal.
O ambiente mudou na hora.
Takemura foi o primeiro a reagir.
Seus olhos brilharam.
Um sorriso surgiu.
— Hah… então eles vieram mesmo.
Lysera observava em silêncio, mas seu olhar estava atento.
— Isso não é reforço…
— Isso é preparação.
Isamu ficou parado, olhando tudo com atenção.
— Isso… é guerra de verdade…
Outros soldados começaram a se aproximar, alguns empolgados, outros tensos.
O campo inteiro vibrava com expectativa.
E então—
Eles apareceram.
Três figuras à frente das cavalarias.
Um homem de expressão arrogante desceu primeiro, ajeitando o manto com desdém.
Outro veio logo depois, com postura agressiva, já analisando tudo ao redor.
Mas então…
O terceiro.
Quando ele desceu—
O ambiente mudou.
Silêncio.
Natural.
Sem esforço.
Alto.
Muito acima dos outros.
Cabelos escuros, longos, movendo-se com o vento.
Seus olhos eram calmos.
Mas carregavam algo pesado.
Como se cada decisão dele já estivesse tomada antes mesmo de qualquer situação acontecer.
Tan Yang.
Até Takemura… ficou quieto por um instante.
Eryndor caminhou à frente.
Parou.
Os dois se encararam.
Sem palavras.
Sem necessidade.
Então—
Tan Yang inclinou levemente a cabeça.
— Eryndor.
— Yang.
Simples.
Direto.
Respeito sem esforço.
Os olhos de Yang então passaram por Ren.
Apenas um instante.
— Então foi você.
Ren não respondeu.
Mas também não desviou o olhar.
Yang deu um leve sorriso.
Quase imperceptível.
Então deu um passo à frente.
E falou.
Sua voz não era alta.
Mas alcançou todos.
— A partir de agora… Aetheryon não será mais dividido.
O campo inteiro ficou em silêncio.
— Não existem mais regiões.
— Não existem mais fronteiras internas.
Ele olhou ao redor.
— Existe apenas um exército.
O vento soprou forte.
Capas e bandeiras se moveram.
— Estamos em guerra.
Direto.
Sem emoção.
— E por isso…
Uma pausa.
— Todos vão treinar.
Murmúrios começaram a surgir.
— Não como antes.
— Não como indivíduos.
Seus olhos percorreram cada rosto.
— Mas como um só.
Takemura sorriu.
— Agora sim…
Lysera respirou fundo.
— Então acabou o descanso…
Isamu fechou levemente as mãos.
— …é agora.
Yang virou levemente o rosto para Eryndor.
— Espero que você esteja pronto.
Eryndor respondeu sem hesitar.
— Sempre estive.
Corte — Vorthal
O céu ali era mais pesado.
Nuvens densas cobriam o alto das muralhas.
Soldados estavam reunidos.
Em grande número.
O clima era outro.
Mais tenso.
Mais agressivo.
E então—
Um homem avançou.
Armadura escura.
Presença firme.
Olhar cortante.
Zareth.
Ele parou diante de todos.
Silêncio.
— A guerra… começou.
Simples.
Direto.
— Aetheryon cruzou o limite.
Seus olhos ficaram mais frios.
— E nós vamos responder.
Alguns soldados começaram a reagir.
Sorrisos.
Excitação.
— Em cinco dias…
Ele continuou.
— Nós atacamos.
Agora o barulho cresceu.
— Mas essa ordem…
Uma pausa.
O silêncio voltou.
— …não veio de mim.
Os soldados ficaram atentos.
Zareth ergueu levemente o olhar.
— Veio… dele.
O peso daquela palavra caiu como uma sombra.
Mesmo entre os mais confiantes… houve silêncio.
— A mensagem é clara.
Sua voz ficou mais firme.
— Treinem.
— Evoluam.
— Superem seus limites.
Seus olhos percorreram todos.
— Porque quando chegarmos em Aetheryon…
— Não haverá segunda chance.
Entre os soldados
Kaien estava com um sorriso no rosto.
Animado.
— Finalmente… guerra de verdade.
Ao lado dele—
Aoi.
Silenciosa.
Seus olhos estavam baixos.
Sua mente…
longe.
Ren.
Aquela luta.
Aquela energia.
Aquela presença.
Ela apertou levemente a mão.
Kaien percebeu.
— Você tá quieta demais.
Aoi desviou o olhar.
— Só… pensando.
Ele riu.
— Pensando demais vai te matar antes da guerra.
Ela não respondeu.
Porque no fundo…
ela sabia.
Se encontrasse Ren de novo…
do jeito que estava…
Ela perderia.
E feio.
Silêncio.
Respiração.
E então—
Aoi virou.
Sem dizer nada.
E começou a andar.
Direto.
Kaien franziu o cenho.
— Ei, onde você—
— Treinar.
Ela não olhou pra trás.
— Eu não vou entrar nessa guerra fraca.
Kaien sorriu.
— Agora sim…
Campo de Treinamento — Vorthal
O som de lâminas ecoava.
Soldados treinavam.
Energia sendo liberada.
Impactos.
Movimento.
Aoi entrou.
Seus olhos… diferentes agora.
Mais firmes.
Mais decididos.
Ela parou no centro.
Respirou fundo.
Lembrou.
Da igreja.
Do pai.
De Ren.
De Daichi.
Seus dedos se fecharam lentamente sobre o cabo da katana.
— Eu não vou…
Sua voz saiu baixa.
— …ficar pra trás.
E então—
Ela avançou.
O treinamento…
havia começado.