Capítulo 51 — Sob a Luz que Ninguém Vê
Vorthal — Campo de Treinamento
A noite já havia caído.
Mas Aoi ainda estava lá.
Sozinha.
O campo estava vazio agora. Os outros soldados já tinham ido embora há horas. O vento frio passava pelas pedras marcadas de cortes, levando consigo o som distante do mar.
Mas ali…
só existia ela.
Sua respiração era pesada.
Seus braços tremiam.
Seu corpo já tinha passado do limite há muito tempo.
E mesmo assim—
Ela levantou a katana mais uma vez.
— De novo…
Baixo.
Quase um sussurro.
Ela avançou.
O golpe saiu rápido—
Mas falhou.
Desalinhado.
Fraco.
A lâmina riscou o ar sem precisão.
Aoi parou.
Seus olhos tremiam.
— …droga…
Ela apertou o cabo da espada com força.
Ren.
A imagem veio como um golpe.
A velocidade.
A pressão.
Aquela presença esmagadora.
Ela respirou fundo—
Mas não adiantava.
Seu corpo não acompanhava.
Sua mente não acompanhava.
Ela não estava no nível dele.
Ainda não.
Ela fechou os olhos.
E então…
vieram as memórias.
A igreja.
Seu pai.
A infância.
Os treinos simples.
As risadas.
Depois…
o fogo.
A destruição.
A escolha.
O sangue.
Daichi.
Silêncio.
Um vazio pesado tomou conta.
Sua mão tremeu.
— Eu…
Sua voz falhou.
— …eu fiz a escolha certa?
O vento soprou.
Frio.
Sozinho.
Sem resposta.
Seus olhos começaram a se abrir lentamente.
E então—
Ela levantou a katana novamente.
Mas dessa vez…
não foi com força.
Não foi com raiva.
Foi diferente.
Mais leve.
Mais silencioso.
Ela respirou.
Uma vez.
Duas.
Três.
E então…
avançou.
O golpe foi simples.
Limpo.
Silencioso.
Mas no momento em que a lâmina cortou o ar—
Algo aconteceu.
Uma luz.
Fraca.
Prateada.
Começou a surgir ao redor da lâmina.
Como um reflexo da lua…
mesmo sem lua visível.
Aoi parou.
Seus olhos se arregalaram levemente.
— …?
A energia continuava ali.
Fluida.
Suave.
Mas… presente.
Ela deu outro golpe.
E dessa vez—
A luz se expandiu.
Fragmentos.
Pequenos pedaços de brilho prateado se desprenderam do corte e ficaram suspensos no ar.
Como pedaços de lua quebrada.
Flutuando.
Silenciosos.
Belos.
Aoi prendeu a respiração.
— Isso é…
Ela não terminou.
Porque seu corpo… reagiu sozinho.
Ela avançou novamente.
Agora mais rápida.
Mais leve.
Seus movimentos mudaram.
Mais fluidos.
Mais naturais.
Cada golpe deixava rastros prateados no ar.
Fragmentos.
Luz.
E então—
Ela girou o corpo.
E desferiu um golpe mais forte.
Um arco completo.
A lâmina cortou o ar—
E os fragmentos ao redor…
explodiram para frente.
Como uma chuva lunar.
Silenciosa.
Mas devastadora.
O impacto atingiu o campo.
O chão foi marcado.
Rachaduras.
Cortes profundos.
O ar vibrou.
E então…
silêncio.
Aoi ficou parada.
O peito subindo e descendo rapidamente.
Seus olhos… brilhando.
— Eu…
Atrás dela—
— Finalmente.
A voz veio calma.
Aoi virou o rosto.
Shizuna.
Observando.
Sem surpresa.
Apenas… confirmação.
— Então esse é o seu Kai.
Aoi olhou para a própria mão.
A energia ainda estava ali.
Fraca agora.
Mas viva.
— Kai…
Ela repetiu.
Shizuna caminhou lentamente até ela.
— Todos possuem.
— Mas poucos despertam.
Ela parou ao lado de Aoi.
— E menos ainda… conseguem moldar.
Aoi olhou para os fragmentos ainda desaparecendo no ar.
— Isso é… meu poder?
— Não.
Shizuna respondeu.
— Isso é só o começo.
Silêncio.
— O seu Kai…
Ela analisou os rastros no chão.
— …é lunar.
Aoi franziu levemente o cenho.
— Lunar?
— Fluido. Preciso. Enganoso.
Shizuna ergueu levemente a mão.
— Bonito…
Uma pequena pausa.
— …e mortal.
Aoi respirou fundo.
— Como eu controlo isso?
Shizuna não respondeu de imediato.
Apenas deu alguns passos à frente.
— Observa.
Ela ergueu a própria mão.
E então—
O ar ao redor dela mudou.
O frio aumentou.
De forma absurda.
A umidade no ar começou a congelar.
Pequenos cristais surgiram.
Flutuando.
— Meu Kai…
Sua voz saiu calma.
— …é gelo.
Ela moveu levemente os dedos.
E os cristais ao redor…
dispararam.
Rápidos.
Precisos.
Perfuração limpa nas estruturas ao fundo.
Sem esforço.
Sem desperdício.
Ela abaixou a mão.
O frio diminuiu.
— Controle.
Ela olhou para Aoi.
— Não é sobre força.
— É sobre intenção.
Silêncio.
— Se você só atacar…
— Vai morrer.
Aoi ficou em silêncio.
Absorvendo.
Sentindo.
— Mas se entender…
Ela deu um leve passo para trás.
— …você mata antes mesmo do inimigo perceber.
Vorthal — Noite
O quarto estava silencioso.
Aoi estava sentada.
Sozinha.
O kimono escuro já substituía parte da armadura pesada.
Mais leve.
Mais adequado.
Ela olhava para as próprias mãos.
Sentindo o que despertou.
Então—
— Você vai se matar assim.
A voz veio da porta.
Kaien.
Encostado.
Braços cruzados.
Aoi não olhou.
— O que você quer?
— Você precisa descansar.
Ele entrou alguns passos.
— Dois dias seguidos sem parar? Isso não é treino, é suicídio.
Silêncio.
Aoi respondeu, calma.
— O certo é ir pra guerra fraca?
Ele ficou quieto.
— Com medo?
Agora ela olhou.
Direto.
— Você vai com esse pensamento?
Kaien não respondeu.
Ela se levantou.
— Porque eu não vou.
Silêncio.
Pesado.
Kaien desviou o olhar.
— …tanto faz.
Ele virou de costas.
— Só não morre antes de eu ver essa guerra.
E saiu.
A porta se fechou.
Silêncio.
Aoi ficou parada.
Por alguns segundos.
Então…
se sentou novamente.
Seus olhos… mais pesados agora.
— Eu…
Baixo.
— Tô fazendo o certo?
A igreja.
Seu pai.
A destruição.
O vazio da ilha.
— Onde vocês estão…?
Sua mão se fechou levemente.
— Pai…
Silêncio.
— Isso tudo… vale a pena?
Ela abaixou a cabeça.
— Minha infiltração…
— Tá ajudando em alguma coisa?
Nenhuma resposta.
Apenas o silêncio da noite.
Aetheryon — Campo de Treinamento
O impacto veio rápido.
Ren tentou reagir—
Mas foi tarde.
A energia o empurrou para trás.
Não com força bruta…
Mas com precisão.
Ele deslizou alguns metros até parar.
Respiração pesada.
À frente—
Tan Yang.
Imóvel.
— De novo.
Ren avançou.
Dessa vez mais atento.
Ele levantou uma das espadas—
E tentou sentir.
A energia.
O Kai.
Mas ainda era instável.
Ele atacou—
Yang desviou sem esforço.
— Errado.
Um passo.
E Ren foi desestabilizado novamente.
— Você força.
— Não sente.
Ren cerrou os dentes.
— Então como eu faço?
Silêncio.
Yang o encarou.
— Pare de tentar usar.
Ren franziu o cenho.
— O quê?
— Sinta.
Uma pausa.
— O Kai não é algo que você ativa.
— É algo que já está em você.
O vento passou.
Ren respirou fundo.
Fechou os olhos por um instante.
E então…
avançou novamente.
Dessa vez—
mais calmo.
O golpe veio.
Yang desviou—
Mas algo mudou.
Uma leve distorção acompanhou o movimento da lâmina de Ren.
Quase imperceptível.
Mas estava lá.
Yang parou.
Por um instante.
— Hm.
Ren abriu os olhos.
— Eu senti…
Yang assentiu levemente.
— Continue.
Aetheryon — Beira do Mar
A noite estava silenciosa.
O som das ondas batendo nas pedras era constante.
Ren caminhava.
Cansado.
Pensativo.
Então ele viu.
Takemura.
Sentado.
De frente para o mar.
Imóvel.
Ren se aproximou.
— O que você tá fazendo aqui?
Sem resposta.
Ren parou ao lado dele.
Observou.
Os machucados.
A marca do impacto.
— Aquilo…
— Foi feio.
Takemura soltou um leve suspiro.
Mas não olhou.
— Ren.
Silêncio.
— Você acha que eu sou inútil?
Ren franziu o cenho.
— O quê?
— Sem Kai.
A voz dele era baixa.
— Você acha que um cara como eu…
— devia estar aqui?
O vento soprou.
Ren não respondeu de imediato.
Takemura continuou.
— Um treinador…
— que nem consegue usar a porra da energia que todo mundo usa.
Ele soltou uma risada seca.
— Engraçado, né?
Silêncio.
Pesado.
Então—
— Você não é inútil.
Ren respondeu.
Direto.
Takemura ficou quieto.
— Eu só sei lutar assim por sua causa.
Ren olhou para ele.
— Então não fala merda.
Silêncio.
Takemura finalmente sorriu.
De leve.
Mas não virou.
— …idiota.
Uma pausa.
Longa.
O som do mar preenchia o espaço.
Então—
— Ren…
A voz mudou.
Mais séria.
— Você é como um filho pra mim.
Ren ficou em silêncio.
— E por isso…
Takemura apertou levemente as mãos.
— Se eu morrer nessa guerra…
Uma pausa.
— Você me promete…
Silêncio.
— …não deixar minha história ser em vão?
O vento passou mais forte.
Ren não respondeu na hora.
Mas ficou ali.
Sentindo o peso daquilo.
Takemura se levantou.
Sem esperar resposta.
Sem olhar para trás.
E começou a andar.
Deixando Ren sozinho.
Com o som do mar.
E com aquelas palavras…
gravadas.