Capítulo 59 — Aquilo que ainda resta
O campo de batalha já não era mais um lugar.
Era um estado.
De destruição.
De desgaste.
De escolhas que não podiam mais ser desfeitas.
E no meio disso…
Alguns ainda lutavam.
Mesmo quando não deviam mais estar de pé.
Takemura e Kaien
O impacto do chute ainda ecoava.
Kaien atravessou o chão, rolando entre pedra e destroços até parar, forçando o corpo a se levantar no limite. O ar escapava dos pulmões dele de forma irregular, enquanto os músculos tremiam pela primeira vez desde o início da guerra.
À frente—
Takemura.
De pé.
Um braço a menos.
O corpo coberto de sangue.
Mas envolto… em luz.
Não era uma aura explosiva.
Era algo mais limpo.
Mais direto.
Como se cada parte do corpo dele estivesse sendo sustentada por aquilo.
Kaien cuspiu sangue no chão.
E sorriu.
— …Então você tinha isso guardado.
Takemura inclinou levemente a cabeça.
— Nem eu sabia.
E então—
Ele avançou.
Luz em movimento
Takemura não correu.
Ele… desapareceu.
Kaien reagiu no instinto, girando o corpo e levantando a katana—
Impacto.
A lâmina dele foi empurrada para o lado, desviada com precisão absurda. Takemura já estava dentro da guarda dele.
Um soco.
Simples.
Direto.
Mas carregado.
A luz explodiu no contato.
Kaien foi jogado para trás, deslizando com os pés marcando o chão, tentando recuperar equilíbrio.
Ele avançou de novo.
Dessa vez, Kaien respondeu.
A katana veio em um corte diagonal, o fogo comprimido na lâmina criando uma linha incandescente no ar.
Takemura inclinou o corpo.
Desviou por centímetros.
E respondeu no mesmo movimento.
Um golpe de perna.
Baixo.
Direto.
Kaien bloqueou.
Mas o impacto…
Passou.
A perna de Takemura se envolveu em luz no instante do contato.
O chão rachou sob os pés de Kaien.
Ele foi forçado para trás mais uma vez.
Mas dessa vez…
Ele não caiu.
Respirou fundo.
E avançou de novo.
Força contra propósito
O ritmo aumentou.
Os dois se moveram ao mesmo tempo.
A katana de Kaien desceu em sequência — cortes rápidos, pesados, cada um carregado com fogo comprimido.
Takemura desviava.
Redirecionava.
Respondia.
Agora não havia mais hesitação.
Não havia mais defesa pura.
Cada movimento dele era ofensivo.
Cada abertura…
Aproveitada.
Um erro de Kaien.
Mínimo.
A katana abriu um pouco demais após um golpe.
Takemura entrou.
Direto.
Um golpe de ombro.
Curto.
Mas suficiente.
Kaien perdeu o eixo.
E então—
O chute veio.
De novo.
Mas dessa vez…
Mais forte.
A luz explodiu.
O impacto lançou Kaien metros para trás, atravessando uma estrutura destruída antes de parar.
Silêncio.
Por um segundo.
Takemura respirava.
Pesado.
O corpo tremendo.
A luz… ainda presente.
Mas instável.
Mesmo assim—
Ele deu um passo à frente.
Kaien… ainda de pé
Entre os destroços, Kaien se levantou.
Devagar.
O corpo marcado.
Ferido.
Mas os olhos…
Ainda vivos.
Ele limpou o sangue do canto da boca.
E sorriu.
— Você vai cair primeiro.
O fogo ao redor da katana aumentou.
Mais intenso.
Mais denso.
— Mas… valeu a pena.
E ele avançou outra vez.
Ren e Aoi
O som do impacto era seco.
Pesado.
Repetido.
Aoi não conseguia mais reagir direito.
O primeiro soco atingiu o rosto.
A cabeça virou com violência.
Antes que o corpo caísse—
O segundo veio.
No abdômen.
O ar saiu.
Ela caiu de joelhos.
Tentou levantar.
Não conseguiu.
Ren já estava ali.
A mão agarrou o cabelo dela.
E puxou.
Forçando o rosto dela para cima.
Os olhos dele…
Vazios.
Distantes.
— Levanta.
Ela tentou falar.
Não conseguiu.
O terceiro golpe veio.
Mais forte.
O corpo dela foi lançado para trás, rolando pelo chão até parar.
Silêncio.
Por um instante.
Flash
Uma lembrança.
Rápida.
Aoi.
Mais jovem.
Segurando uma katana de madeira.
— Você tá abrindo demais a guarda.
Ren, rindo.
— E você tá lenta.
Ela avançava.
Errava.
Ele desviava.
Os dois riam.
De volta
O impacto.
Outro soco.
Aoi foi arrastada pelo chão.
O sangue já escorria pelo rosto.
A respiração falhando.
Os braços não respondiam direito.
Ela tentou se levantar.
Caiu.
Flash
Daichi.
De costas.
— Às vezes… proteger alguém significa escolher o lado errado.
Aoi parada.
Sem resposta.
De volta
Ren apareceu de novo.
Sem som.
Sem aviso.
O chute veio.
Direto.
O corpo dela atravessou destroços antes de parar.
Ela não conseguiu levantar dessa vez.
Ficou ali.
Caída.
Olhando.
Sem foco.
Sem força.
Pensamento
…Eu fiz a escolha certa?
O rosto de Daichi.
A lâmina atravessando.
O silêncio depois.
…Ou eu só escolhi… sobreviver?
Ela tentou mover o braço.
Não conseguiu.
…Eu sou… inútil?
Os olhos começaram a fechar.
Passos
Ren caminhou até ela.
Devagar.
Sem pressa.
Como se o resultado já estivesse decidido.
Ele parou.
Acima dela.
Observando.
Eryndor e Lysera
Lysera tropeçou.
O corpo não aguentava mais.
A perna falhando.
O sangue escorrendo.
Ela caiu.
Tentou levantar.
Falhou.
Eryndor caminhava.
Sem pressa.
A espada em mãos.
Cortando qualquer um que aparecesse no caminho.
Sem esforço.
Sem emoção.
— Correndo ainda?
A voz dele era calma.
Quase… divertida.
Ele passou por um soldado de Vorthal.
O corte foi limpo.
O corpo caiu.
Ele nem olhou.
Os olhos voltaram para Lysera.
— Você vai cair.
Um passo.
Mais perto.
Observação
Ele parou.
Por um instante.
E olhou ao redor.
Yang.
Dominando.
Ren.
Terminando.
Takemura.
Ainda lutando.
Ele soltou um pequeno sorriso.
— Já acabou.
E voltou a caminhar.
Yang, Zareth e Shizuna
Zareth avançou novamente.
Mesmo ferido.
Mesmo claramente em desvantagem.
Yang desviou do golpe com facilidade.
Mas dessa vez—
Zareth não recuou.
Continuou.
Pressionando.
Forçando.
Mesmo que os golpes não fossem perfeitos.
Mesmo que não fossem suficientes.
Ele ainda avançava.
Shizuna
No chão.
Ferida.
Um braço quebrado.
A respiração pesada.
Os olhos…
Fixos.
Aoi.
Caída.
Sendo esmagada.
Sem chance.
Sem reação.
O olhar dela mudou.
Lentamente.
Depois—
Yang.
E Zareth.
Ainda lutando.
Sozinho.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Respirou.
E então—
O gelo respondeu.
Assistência
Fragmentos começaram a se formar ao redor dela.
Instáveis.
Irregulares.
Mas vivos.
Ela ergueu a mão.
Com dificuldade.
E lançou.
As lâminas de gelo cortaram o ar.
Direto.
Yang desviou de duas.
Mas a terceira raspou.
Um corte leve.
Mas suficiente.
Zareth viu.
E avançou.
Aproveitando.
Dupla
Agora—
Era ritmo.
Zareth pressionava de perto.
Golpes pesados.
Diretos.
Enquanto—
Shizuna atacava à distância.
Dificultando.
Forçando.
Yang recuou meio passo.
Só meio.
E sorriu.
— Agora sim.
Takemura
O corpo dele já não aguentava mais.
Mas ele ainda estava de pé.
A luz ao redor… diminuindo.
Mas ainda ali.
Ele respirou fundo.
E então—
Por um instante—
Olhou.
Ren.
E o que viu…
Não era mais um humano.
Mas…
Ele ainda viu.
Aquele garoto.
Treinando.
Errando.
Insistindo.
Ele fechou os olhos por um segundo.
E pensou—
Eu não ligo…
Os olhos se abriram novamente.
Firmes.
Se você virou um monstro…
Ele avançou.
Na direção de Kaien.
…então eu vou lutar…
A luz voltou a crescer.
Mesmo que por pouco.
…até o fim.
Ele sorriu.
— Vamos.
E desapareceu novamente.