Capítulo 60 — O Preço da Luz
O campo de batalha parecia inclinar.
Não para um lado.
Mas para o colapso.
E no meio desse cenário quebrado… alguns ainda sustentavam o impossível.
Takemura e Kaien
A luz em Takemura não era mais instável.
Ela havia se tornado… intenção.
Cada ponto do corpo dele brilhava com propósito — não mais como sobrevivência, mas como escolha consciente.
Kaien percebeu.
E respondeu.
O fogo na katana deixou de ser caótico. As chamas se comprimiram ainda mais, agora girando em espiral apertada ao redor da lâmina, como se o calor estivesse sendo puxado para dentro até o limite.
Os dois se encararam.
Sem palavras.
E avançaram.
Choque de domínios
Kaien atacou primeiro.
Um corte horizontal.
Simples.
Mas quando a lâmina passou—
O ar explodiu em sequência.
Não era um único impacto.
Eram múltiplas detonações atrasadas, rasgando o espaço por onde o golpe tinha passado.
Takemura desapareceu antes da explosão completa.
Mas mesmo assim foi atingido de raspão.
O corpo dele foi lançado, girando no ar antes de tocar o chão.
Ele não caiu.
Pousou.
Deslizou.
E voltou.
Mais rápido.
Passo de luz
Dessa vez, não houve imagem residual.
Não houve múltiplos reflexos.
Takemura simplesmente… encurtou o espaço.
Como se o caminho entre ele e Kaien tivesse sido apagado.
Ele surgiu já dentro da guarda.
O joelho subiu.
Direto no abdômen.
Mas não foi o impacto que fez Kaien dobrar.
Foi o que veio depois.
A luz se expandiu para dentro.
Uma descarga silenciosa.
Concentrada.
Kaien travou.
O corpo inteiro respondeu ao mesmo tempo.
E então foi empurrado para trás.
Kaien responde
Ele cravou a katana no chão.
Mas diferente de antes—
O fogo não se espalhou.
Ele se acumulou.
Sob os pés.
Compacto.
Pesado.
E então—
Explodiu para cima.
Kaien saiu do meio da própria explosão, envolto por chamas comprimidas que agora aderiam ao corpo dele, não apenas à lâmina.
— Eu também tenho mais…
Ele avançou.
Agora não era só espada.
Era corpo.
Punhos.
Chutes.
Tudo envolto em fogo denso, cada impacto carregando calor suficiente para rasgar pedra.
Troca brutal
Takemura bloqueou o primeiro golpe.
Mas o calor atravessou.
Queimou.
Ele girou o corpo, desviando do segundo, e respondeu com um chute baixo.
A perna dele brilhou.
O impacto veio seco.
Mas a luz entrou.
Kaien foi empurrado dois passos.
E sorriu.
— Bom…
Outro golpe.
Dessa vez, Kaien acertou.
Direto no torso.
O fogo explodiu no contato.
Takemura foi jogado para trás.
O corpo bateu forte no chão.
O sangue voltou a escorrer com mais intensidade.
A luz… oscilou.
Por um segundo.
Só um.
Mas Kaien viu.
E avançou.
Yang, Zareth e Shizuna
Yang inclinou levemente a cabeça.
Como se tivesse tomado uma decisão.
— Já deu.
O ar ao redor dele vibrou.
O Kai respondeu.
E então—
Ele se dividiu.
Não foi uma ilusão.
Não foi um reflexo.
Foi outro corpo.
Outro Yang.
Idêntico.
Presença real.
Peso real.
Zareth parou por um instante.
Instinto puro.
Perigo.
— …Então é isso…
Os dois Yangs avançaram.
Dois contra um
O verdadeiro foi direto.
Sem recuar.
Sem medir.
O soco veio com tudo.
Zareth bloqueou com os braços—
O impacto atravessou.
O corpo dele foi empurrado para trás com violência.
O chão cedeu sob os pés dele.
Antes que pudesse recuperar—
O outro Yang apareceu.
Não atacou.
Só interceptou.
As lâminas de gelo de Shizuna, que vinham em sequência para dar cobertura, foram quebradas no ar.
Uma.
Duas.
Três.
Como se fossem frágeis demais para sequer chegar.
Shizuna apertou os dentes.
O braço quebrado tremendo.
Mas ela continuou.
Mais gelo.
Mais ataques.
Mais pressão.
Mesmo sem corpo para sustentar aquilo.
Zareth resiste
O verdadeiro Yang não parava.
Cada golpe dele era pesado.
Bruto.
Direto.
Sem técnica refinada.
Só poder absoluto.
Zareth recuava.
Mas não caía.
Bloqueava o que podia.
Desviava o impossível.
E quando surgia uma brecha—
Atacava.
Um corte.
Raso.
Mas acertou.
Yang olhou.
Viu o sangue.
E sorriu.
— Você ainda tá aqui…
Zareth cuspiu sangue.
— Ainda não acabou.
E avançou de novo.
Ren e Aoi
Silêncio.
Não no campo.
Mas ali.
Entre eles.
Aoi não conseguia mais se mover.
O corpo não respondia.
As pernas estavam tortas em ângulos errados.
O braço… não levantava.
A respiração era curta.
Falha.
Dolorida.
Ren parou.
Pela primeira vez desde que tudo começou.
Ele não atacou.
Não imediatamente.
Ele apenas… olhou.
De cima.
Como se estivesse avaliando algo que já não importava.
— É isso?
A voz dele estava distorcida.
Baixa.
Arrastada.
— Foi isso que você escolheu?
Aoi tentou responder.
Mas só o sangue saiu pela boca.
Nenhum som.
Nenhuma palavra.
Humilhação
Ren deu um passo mais perto.
Agachou levemente.
O rosto próximo ao dela.
— Você traiu… matou… escolheu esse caminho…
Ele inclinou a cabeça.
— …pra terminar assim?
O olhar dele não tinha raiva.
Não tinha dor.
Só desprezo.
— Nem consegue levantar.
Dentro dela
…quando foi…
A visão dela falhava.
Mas pensamentos… não.
…que tudo saiu do lugar…
Ela lembrou.
Da igreja.
Do treinamento.
Do sol entrando pelas janelas.
Ren rindo.
Ela errando.
Recomeçando.
…foi quando ele mudou?
Outra lembrança.
Daichi.
A lâmina.
O silêncio depois.
…ou fui eu?
O peso caiu.
Mais forte que qualquer golpe.
…eu fiz tudo isso…
Ela tentou mover a mão.
Nada.
…pra quê?
Os olhos começaram a fechar.
…eu…
— Olha pra mim.
A voz de Ren cortou.
Ela tentou.
Com dificuldade.
Os olhos abriram de novo.
Ele estava lá.
Perto.
Muito perto.
— Não desvia agora.
Eryndor e Lysera
Lysera conseguiu.
Por pouco.
Mas conseguiu.
A distância entre eles aumentou.
Não muito.
Mas o suficiente para não sentir a presença dele nas costas.
Ela parou.
Por um instante.
Apoiada em uma parede quebrada.
Respirando com dificuldade.
O corpo inteiro tremendo.
Mas ainda viva.
Interrupção
Eryndor continuava caminhando.
Na mesma direção.
Sem pressa.
Mas então—
Alguém apareceu.
Um soldado.
De Aetheryon.
Ferido.
Sangrando.
Ele não atacou.
Não tentou nada.
Ele caiu de joelhos.
Na frente de Eryndor.
A cabeça baixa.
As mãos tremendo.
— Por favor… senhor…
A voz falhou.
Mas ele continuou.
— Nós não aguentamos mais…
Eryndor parou.
Observando.
— Isso… isso não é mais guerra…
O soldado respirou fundo.
Desesperado.
— Meus companheiros… todos mortos… isso… isso não tem mais sentido…
Ele levantou levemente o rosto.
Os olhos cheios de lágrimas.
— Por favor… acabe com isso…
Um segundo de silêncio.
— Nos liberte…
Eryndor olhou ao redor.
E viu.
Outros soldados.
De Aetheryon.
De joelhos.
Armas no chão.
Cabeças baixas.
Rezando.
Sussurrando.
Chamando por um nome.
— Aionis…
O nome ecoava.
Baixo.
Repetido.
Como uma súplica.
Como se ainda acreditassem.
Que algo maior… pudesse intervir.
Resposta
Eryndor voltou os olhos para o soldado à sua frente.
Se aproximou.
Devagar.
A espada em mãos.
— Se você quer…
O soldado arregalhou os olhos.
Esperança.
— Eu—
— …eu lhe liberto.
O sorriso veio.
Fraco.
Mas real.
— Obrigado… senhor… eu—
O corte
Foi rápido.
Limpo.
Silencioso.
A lâmina passou.
O pescoço abriu.
O corpo caiu.
Sem terminar a frase.
Silêncio
O som das orações… falhou.
Por um instante.
Eryndor ficou ali.
Olhando o corpo no chão.
Sem emoção.
Sem arrependimento.
— Já libertei muitos hoje.
Ele ergueu levemente a espada.
O sangue escorrendo pela lâmina.
Os olhos frios.
E voltou a caminhar.
Na direção de Lysera.