Capítulo 61 — Luz que Rasga o Céu
O campo de batalha já não parecia mais um campo.
Era um cemitério aberto.
Corpos espalhados, estruturas destruídas, o chão marcado por cortes, explosões e sangue seco. O ar estava pesado, quente, difícil de respirar.
E no meio daquele caos… a luz surgiu.
Não uma luz comum.
Era intensa. Violenta. Viva.
Takemura.
Seu corpo tremia. Um braço faltando. Sangue escorrendo por todo o tronco. Queimaduras, cortes, ossos à mostra.
E ainda assim… ele estava de pé.
Não.
Ele estava acima de todos.
A luz vazava de seu corpo como se não conseguisse mais ser contida. Raios luminosos serpenteavam por sua pele, estalando no ar, rasgando o espaço ao redor.
Seus olhos brilhavam.
Não como os de um homem.
Mas como algo… maior.
À sua frente, Kaien não avançava.
Pela primeira vez desde o início da guerra… Kaien hesitou.
Seu peito subia e descia rapidamente. A katana em sua mão tremia levemente, algo quase imperceptível — mas real.
O calor das chamas ao redor dele oscilava.
Instável.
— …isso não é possível… — murmurou, baixo.
Takemura deu um passo.
E desapareceu.
Kaien arregalou os olhos — e virou o corpo no último instante.
CRASH!
Um impacto violento atingiu seu lado, lançando-o metros adiante, arrastando o chão junto com ele. Terra e pedra explodiram no caminho.
Ele rolou, travando os pés no solo, forçando-se a parar.
Sangue escorreu de sua boca.
Quando levantou o olhar… Takemura já estava lá.
Parado.
Esperando.
— Você demorou… — disse Takemura, com um leve sorriso cansado.
A voz… ainda era gentil.
Mas o poder… era esmagador.
Kaien apertou a espada.
Chamas começaram a crescer ao redor de seu corpo, mais densas, mais violentas, como se respondessem ao medo.
Mas não era suficiente.
Ele sabia.
Pela primeira vez… ele sabia.
Seus joelhos tremeram.
Sua respiração falhou.
E então… ele fechou os olhos por um breve segundo.
Abaixou levemente a cabeça.
— …Grande Pai de Todos… — sua voz saiu baixa, quase falhando.
O caos ao redor pareceu se afastar por um instante.
— …se existe algo além da força… além do fogo… — sua mão apertou a espada com mais força
— …então… me dê isso agora.
Seus olhos se abriram.
E as chamas explodiram.
Mais escuras.
Mais densas.
Mais pesadas.
O ar ao redor distorceu.
Takemura observou.
E sorriu.
— Agora sim…
E então—
Ambos desapareceram.
O impacto seguinte não foi som.
Foi destruição.
Explosões de luz e fogo colidiram no centro do campo, criando ondas de choque que varreram tudo ao redor. O chão se partiu, o ar vibrou, soldados foram lançados para longe sem sequer entender o que estava acontecendo.
Luz cortava o fogo.
Fogo engolia a luz.
Takemura surgiu acima, descendo com um chute envolto em pura energia luminosa.
Kaien bloqueou com a lâmina — e o impacto fez seus braços tremerem, seus pés afundarem no solo.
— GHH…!
Takemura girou no ar, desapareceu de novo — e reapareceu atrás.
Kaien virou no limite — mas já era tarde.
BOOM!
Um golpe direto nas costas o lançou novamente, seu corpo quicando pelo chão como se não tivesse peso.
Mesmo assim… ele se levantou.
Mesmo assim… ele avançou.
—
Do outro lado do campo…
Yang permanecia imóvel.
Observando.
Zareth respirava pesado, sangue escorrendo pelo rosto. Ao seu lado, Shizuna estava caída, um braço completamente inútil, o corpo tremendo, mas ainda consciente.
O clone de Yang havia sido destruído.
Mas o verdadeiro… não parecia nem um pouco afetado.
Yang inclinou levemente a cabeça.
— Interessante…
Ele levantou a mão.
A energia começou a se condensar.
Azul.
Densa.
Pesada.
O ar ao redor ficou opressivo. As estruturas próximas começaram a rachar antes mesmo do disparo.
Shizuna tentou se mover.
Seu corpo não respondeu.
A energia foi liberada.
Um feixe devastador cortou o campo, destruindo tudo em sua trajetória — chão, pedra, restos de construções.
Direto em direção a ela.
Mas antes que atingisse—
Uma figura surgiu.
Zareth.
Ele apareceu na frente dela sem hesitar.
E não se defendeu.
O golpe atravessou seu corpo.
O impacto fez o chão rachar sob seus pés… mas ele não saiu do lugar.
O feixe continuava pressionando seu peito, queimando, destruindo, rasgando sua carne.
Sangue começou a escorrer.
Mas ele permaneceu.
Parado.
De pé.
Protegendo.
Shizuna arregalou os olhos atrás dele.
— …Zareth…!
Yang observou.
Silencioso.
Zareth cuspiu sangue.
Mas não caiu.
Sua voz saiu rouca, baixa… mas firme.
— Eu não… luto sozinho…
A energia continuava rasgando seu corpo.
— Eu… carrego… todos eles comigo…
Ele levantou levemente o rosto.
Os olhos ainda vivos.
— …é isso que significa… ser um líder.
Yang… sorriu.
Pela primeira vez… com interesse real.
E então a energia cessou.
Zareth caiu de joelhos.
Mas ainda não caiu completamente.
—
Mais distante…
Ren estava parado.
Seu corpo ainda marcado.
Mas as marcas… estavam sumindo.
Lentamente.
Sua respiração estava irregular.
Seus olhos… menos vazios.
Menos… distorcidos.
Diante dele…
Aoi.
No chão.
Seu corpo… destruído.
Braços quebrados.
Pernas sem força.
Respiração falha.
Sangue.
Muito sangue.
Ren deu um passo.
Mais lento agora.
Como se algo estivesse… voltando.
Ou talvez… indo embora.
Aoi tentou se mover.
Nada.
Seu corpo não respondia.
Sua visão estava turva.
Mas ainda assim…
Ela olhou para ele.
E viu.
Não o monstro.
Mas… fragmentos do que ele já foi.
Sua mente falhava.
Memórias surgiam em flashes.
Treinamento.
Risos.
A igreja.
Ren.
…Daichi.
Seu peito apertou.
“Quando…”
“…quando foi que isso… começou…?”
Seus dedos se moveram.
Levemente.
Ela tentou falar.
Nenhum som saiu.
Ainda não.
—
Mais ao fundo…
Eryndor limpava o sangue da lâmina.
O corpo do soldado ainda caído aos seus pés.
Ao redor…
Dezenas de soldados ajoelhados.
Rezando.
Sussurrando.
Implorando.
Eryndor ergueu o olhar.
Para o céu.
Um leve sorriso surgiu.
— Grande Pai de Todos…
Ele abriu os braços lentamente.
— olhe ao seu redor…
Seus olhos brilhavam.
— quantas almas eu já te entreguei?
Silêncio.
— Diga-me…
Sua voz ficou mais baixa.
Mais fria.
— …isso ainda não é o suficiente?
Ele abaixou o olhar.
E voltou a caminhar.
Na direção dela.
Lysera.
—
Lysera tropeçava.
Cada passo era uma luta.
Sangue escorria pela perna.
Sua respiração falhava.
Mas ela continuava.
Ela lembrava.
Do mar.
Da conversa.
De Isamu.
Do sorriso simples.
Do jeito tranquilo.
“…eu acredito em você…”
Ela apertou os dentes.
E continuou.
Mesmo sabendo…
Que ele estava vindo.
—
O campo inteiro vibrava com as batalhas.
Luz.
Fogo.
Sangue.
Destruição.
E no meio de tudo isso…
Aoi finalmente conseguiu.
Seus lábios se moveram.
Sua voz saiu.
Fraca.
Quebrada.
Mas real.
— …Ren…
Ele parou.
Por um instante.
Ela respirou com dificuldade.
Seus olhos… ainda firmes.
Mesmo à beira da morte.
— …se esse é o seu caminho…
Uma pausa.
Dor.
Sangue.
Mas ela continuou.
— …então… eu ainda vou… lutar contra você…
Silêncio.
O vento passou entre os destroços.
Com uma garota quebrada…
…ainda se recusando a cair.