Após o almoço, Ulisses continuou os seus afazeres do dia, como estava ansioso para o seu primeiro treinamento com o seu pai, estava terminando tudo o que tinha para fazer o mais rápido possível, para que nada pudesse atrapalhar aquele momento importante. Ele pensou nisso a todo momento sem parar e quando finalmente terminou tudo, correu para o quarto, para poder se preparar para o grande momento, o momento que seria o começo do seu objetivo principal.
Escolhendo roupas confortáveis para treinamento, Ulisses se alongou, para ver se a roupa poderia aguentar tudo o que estava por vir e logo em seguida, foi até o grande espelho do quarto, para poder verificar que tudo estava no seu devido lugar. O garoto olhou para o seu reflexo e deu uma pequena girada, para verificar mais detalhadamente, mas logo parou e encarou a si mesmo por alguns minutos, em completo silêncio, como se estivesse vendo muito mais do que apenas o reflexo do personagem Ulisses.
Um silêncio apareceu, mas logo ele pode perceber algo muito importante.
— Caramba... eu vou ficar muito bonito quando ficar mais velho.
Na sua vida anterior, devido a alguns problemas que enfrentou durante a sua vida, a sua aparência era algo que deixava a desejar, principalmente a área do seu antigo rosto. Com esse pensamento, era até estranho olhar para o seu reflexo e ver um rosto normal. Cabelo preto, lindos olhos azuis, como um lago calmo e brilhantes, além de um rosto... de certa forma fofo. Isso não era de se espantar, já que em vários momentos na novel, Ulisses era descrito como "um mago bonito e atraente".
Nessa linha de pensamento, uma pergunta lhe veio à mente: se ele próprio era bonito e atraente... o que era o príncipe Noah?
Muitas vezes durante a história, quando os dois estavam no mesmo lugar, as outras pessoas ficavam comparando a aparência dos dois e todos diziam que Noah era mais bonito. "Para alguém dizer isso, então aquele sem graça deve ser Jesus Cristo..." pensou Ulisses, enquanto revirava os olhos, ele não poderia negar, só de olhar para o seu rosto o seu ego crescia um pouco mais.
— Hm... é isso que acontece quando se dá asas para um perdedor? — Ele não pode deixar de rir de si próprio.
Como Eddie era um verdadeiro perdedor em todos os aspectos na sua primeira vida, estava até gostando da sua nova vida. Bonito e de uma boa família, isso realmente só poderia acontecer ao nascer de novo e Ulisses não poderia negar esse fato, já que na sua antiga vida, já não tinha como sair do fundo do poço.
— Bem, vamos ver no que vai dar — Ulisses deu de ombros, enquanto ia na direção da porta.
Ajeitando uma última vez a gola da camisa, saiu do quarto e começou a andar na direção do quintal da casa. Enquanto andava, pode perceber algo, apesar dos seus pais chamarem a moradia de "casa", o lugar estará longe disso, era como uma mansão e ninguém poderia dizer o contrário, porém, Ulisses não estava reclamando, considerando que na sua vida anterior a sua casa era minúscula, então esse lugar será um verdadeiro paraíso.
Não demorou muito e Ulisses chegou até o quintal, ele podia ver que o seu pai já estava lá, arrumando a luva na mão direita. Olhando em volta, pode perceber que o lugar será bem bonito, espaçoso e agradável aos olhos, cercado por um muro alto e denso. O gramado é verde e bem cuidado, com canteiros cuidadosamente cultivados ao longo de caminhos de pedra que levam através dele, sabia que isso só poderia ser obra de Eduina, já que a sua mãe adorava cuidar de plantas. Também pode ver uma fonte central brotando água em um jato alto, oferecendo um som tranquilizante que adiciona a atmosfera tranquila do quintal. Em um canto, há uma pérgola com flores emaranhadas, criando uma área protegida para relaxar em um banco confortável.
"Estou impressionado..." pensou Ulisses, se aproximando de Haru.
— Está preparado para hoje? — Haru colocou as mãos na cintura.
— Muito.
— Fico feliz com isso, mas antes de começar, acredito que saiba os conceitos básicos de mana e mago, certo?
— …
Se havia estudado sobre isso, então não se lembrava. Desde que se lembrou da sua vida passada, não sabia o que fez ou o que aprendeu antes e isso o deixava desconfortável, já que o seu pai estava fazendo uma pergunta importante e ele não sabia responder.
— Não se preocupe, vou explicar. — Haru sorriu, enquanto começava a se alongar — Considerando que começou o ano passado as aulas de magia, vou dar um desconto hehe…
— Obrigado…
Olhando para os alongamentos do seu pai, Ulisses começou a fazer o mesmo. Na sua vida passada, não era gordo, mas também não tinha um bom físico, além de ser sedentário... e pensar nisso fazia Ulisses sentir um pouco de vergonha, já que não praticava nenhum esporte e ficava com preguiça até de caminhar até a esquina.
— É algo bem simples na verdade.
Como havia lido a novel, Ulisses se lembrava bem das explicações de magia desse mundo. Ele sabia que existia algumas classificações e métodos de treinamento para cada um deles, a única diferença era que alguns precisavam treinar mais o corpo e outros a mana, justamente para se adequar às suas habilidades em combate, porém, também existem aqueles que não eram combatentes.
Pensando nisso, Ulisses sabia que no mundo de "Planos para matar o Imperador", existiam apenas dois tipos de classificação e dependendo de qual a pessoa era colocada, o indivíduo poderia se especializar em uma das áreas da classificação.
As classificações poderiam ser guerreiros, cujo a área poderia ser uma especialização em combate com espadas, arco e flecha, tank e o mais conhecido, o especialista em armas (pode usar qualquer arma com facilidade. É considerado a especialização mais difícil, junto com o intensificador). Em contrapartida, existem a classificação mago, onde terá as as áreas de curandeiro, alquimista mágico, mago das sombras e o intensificador (magos que podem intensificar os seus ataques a curta e longa distância sem encantamento. É considerado a especialização mais difícil nas academias).
Se o indivíduo for mago, eles treinam o seu fluxo de mana que pode passar pelos seus corpos e não causar danos à si próprio ao conjurar um feitiço, muito diferente dos guerreiros, que treinam o seu corpo para aguentar a energia que passa pelo corpo, deixando os seus ataques mais fortes e rápidos, porém, como não treinam o fluxo de mana, um guerreiro precisa de um objeto condutor e por isso eles usam muito as armas, para os ajudar a conduzir mana na hora da luta e não sofrer danos internos.
Como cada pessoa possui mana, todos também possuem os seus núcleos de mana e para usar, cada pessoa tem as suas veias de mana, veias que estão por todo o corpo, fios invisíveis que se entrelaçam com o núcleo de mana, muito parecido com as veias sanguíneas normais. Ulisses lembrava do momento que leu as páginas que contavam sobre a magia do continente de Malinis, ele até pensou em apenas pular essa parte, mas acabou lendo, o que foi útil no final das contas.
— ... e quando a pessoa sente onde está cada veia de mana, ele ou ela pode usar essa veia para conduzir mana para um ponto específico do corpo — explicou Haru.
Ulisses voltou o seu olhar para o seu pai.
— Como por exemplo... a mão... — Haru estendeu uma das mãos — Se você usar a veia certa e canalizar a mana na quantidade certa, você pode controlar algumas coisas.
Com essa última palavra, Ulisses sentiu o chão tremer levemente e logo em seguida um pequeno amontoado de terra flutuou do chão e foi até a mão de Haru, formando uma esfera perfeita. Ele não pode deixar de ficar impressionado e percebendo o olhar de Ulisses, Haru não pode deixar de se sentir orgulhoso de si mesmo.
— Posso usar mana para criar algo?
— Pode, mas isso já é mais para quem já está numa certa área e a sua afinidade já foi definida, se a sua afinidade for fogo, então poderá criar o fogo do zero, se for água é a mesma coisa.
— Entendi…
— Mas isso não significa que não possa usar outros elementos também. — Haru disse logo em seguida — Você pode usar outros elementos numa luta, mas não poderá criar do zero, então só pode controlar o elemento que está no mesmo lugar que você.
— Hm... por exemplo...?
Haru olhou em volta e encontrou a fonte.
— Por exemplo, eu tenho afinidade com o fogo — uma pequena chama apareceu na ponta dos dedos do pai de Ulisses — e eu não consigo fazer a água aparecer do zero, então só posso controlar.
Movimentando a outra mão, Ulisses pode ver uma certa quantidade de água sair da fonte e ir na direção de Haru. Foi tão impressionante que Ulisses não viu uma gota cair no chão, foi algo completamente perfeito. A água se juntou na palma da mão de Haru, formando uma esfera, ainda sem deixar uma gota cair no chão.
— Mesmo que eu só possa controlar, não significa que seja inútil, uma vez que eu o controle, posso fazer o que quiser com ele. — sem esperar, a água rapidamente congelou e logo em seguida, a esfera foi jogada na parede, se despedaçando completamente — E apesar de magos poderem fazer isso, eles geralmente não focam muito nesse tipo de controle de mana, então eles treinam mais a sua afinidade e consequentemente isso se torna o seu ponto mais forte.
Agora Ulisses poderia entender, na novel, Ulisses controlava a água e mesmo que fosse apenas isso, ele ainda era bem forte. Claro, ele era um dos mais fracos no grupo da protagonista feminina, mas não deixava de forte para pessoas de fora desse grupo. Nesse mundo, magos geralmente eram usados como suporte e ficavam mais na segunda linha de defesa, tanto é que numa luta, Ulisses dava suporte mágico para Stelle, que seria da classificação guerreiro.
E logo após a entrada de Noah, Ulisses continuou como suporte, e dos dois protagonistas principais. Enquanto estava lendo a história, sempre pensou que Ulisses poderia ficar mais forte, já que sempre foi dito que o segundo protagonista terá uma quantidade de mana enorme e isso será um feito de poucas pessoas, já que nem todos terão uma grande quantidade de mana.
"Na história original ele é tão idiota, ficou correndo atrás de rabo de saia e acabou esquecendo de treinar!" Ulisses não pode deixar de fazer uma careta involuntária com esse pensamento, o que não foi passado despercebido pelo seu pai.
— Não entendeu algo?
— O... o que? — Ulisses engoliu o seco e riu de nervosismo, enquanto coçava a nuca — N-não... a explicação foi bem... explicativa…
— Certo... mas tem alguma pergunta?
— Não... não tenho.
— Certo, então podemos passar pela sua primeira missão.
— Sim, mestr-
— Lisses!
Percebendo o quão rápido Haru foi em cortar a sua fala, Ulisses não pode deixar de ficar surpreso com isso.
— O que foi?
— Eu vou te ensinar o básico, mas não me chame de "mestre", esse título deve ser daquele que você aceitar como mestre.
— Hm... entendi.
Havia esquecido desse detalhe, no continente de Malinis, ter um mestre, será bem importante. Podia se lembrar que na história, foi dito que ao encontrar um mestre, é feito um pequeno ritual para que o pupilo tenha a sua mente mais aberta para conseguir adquirir os ensinamentos completamente, para nunca mais esquecer. Como uma folha em branco que estará sendo escrita pela caneta de alguém.
Devido a isso, os pupilos seguem os seus ensinamentos à risca e logo após isso, não se pode mais ter outro mestre, já que seria muito desrespeitoso. Os pais podem até ensinar os seus filhos no treinamento, mas eles respeitam tanto o chamado primeiro mestre que deixam o próprio filho escolher a pessoa que poderia lhes ensinar tudo o que era necessário.
— De qualquer forma, que tal tentar controlar a água?
Ulisses olhou para a fonte e ao lembrar do seu pai controlando a água, não pode deixar de achar fácil. Ele poderia fazer isso, ao menos era o que pensava.
— Certo, fique olhando, eu vou fazer isso bem rápido.
Ulisses arregaçou as mangas e começou a andar na direção da fonte.
— Claro, Lisses... — Haru riu suavemente — Sabe o que precisa fazer a princípio, certo?
O garoto parou abruptamente e ficou em silêncio por alguns segundos, tentando pensar em algo que não o fizesse parecer tão idiota na frente do pai. Ele havia se apressado tanto que nem havia perguntado sobre o primeiro passo.
— É claro... que... Hum... — Ulisses olhou para Haru, enquanto soltava um suspiro — Se... quiser explicar essa parte também, eu não iria reclamar.
— Haha! — Haru andou na direção de Ulisses e acariciou sua cabeça — Vamos começar com algo simples, okay?
Aquele simples gesto deixou Ulisses um pouco estranho. Na sua passada, nunca pode ter momentos de pai e filho, e ter Haru fazendo gestos tão simples como acariciar sua cabeça o fazia se sentir estranho. Não era ruim, mas não sabia como iria reagir a isso, já que não estava acostumado com isso.
— Okay.
Quando Haru deu alguns passos para perto da fonte, Ulisses olhou para ele, ainda com um sentimento estranho no peito, mas logo balançou a cabeça para poder voltar a si. Não era o momento para pensar em coisas assim, precisava focar no que era importante. Mesmo que tentasse se convencer desse tipo de pensamento, não podia deixar de achar um tanto estranho, já que, praticamente, Haru pode ter a mesma idade em que Ulisses morreu na sua vida passada e poderia até mesmo ser mais novo.
Como Eddie ainda se sentia como um intruso no corpo de uma outra pessoa, ele ainda não sabia como reagir a esses momentos de carinho, tanto do seu pai como da sua mãe. Ainda ficava bobo quando Eduina o chamava de “filho” e o mesmo para Haru, que na maioria das vezes o chamava pelo apelido. Escutar Haru o chamando de “Lisses”, ele só podia sentir um pequeno frio na barriga, porém tentava agir o mais normal possível, mesmo que os seus sentimentos estivessem em conflito toda vez que isso acontecia.
Apesar disso, ainda tentava se acostumar com isso e mesmo que não admitisse, no fundo, queria que momentos e palavras gentis se tornassem mais como uma rotina. Como um momento para fugir de todo aquele conflito interno que trouxe da sua vida passada, como uma bagagem que não sabia se poderia jogar fora.