O bipe intermitente do caixa eletrônico era o único som que quebrava o silêncio da loja de conveniência.
Shiro Hanayatsu passou o pano úmido pela terceira vez sobre o balcão de fórmica. O relógio digital acima da porta marcava 03h47 da madrugada. Lá fora, a chuva de Tóquio batia contra o vidro, transformando os faróis dos raros carros em borrões amarelos.
Suas pernas latejavam. O calcanhar esquerdo, apoiado na sola gasta de um tênis barato, parecia queimar após oito horas de pé.
Ele puxou o celular do bolso do uniforme. Abriu o aplicativo do banco.
Saldo: 3.200 Ienes.
Mal dava para pagar o arroz da semana e a conta de luz do seu minúsculo apartamento de um cômodo. Shiro guardou o aparelho com um suspiro pesado, limpando uma mecha de cabelo castanho que insistia em cair sobre os olhos. Ele não tinha dezenove anos com grandes sonhos de faculdade. Tinha apenas o cansaço de quem precisava sobreviver ao amanhã.
Faltavam treze minutos para o fim do turno.
Ele jogou o pano no balde. Foi quando o som do bipe do caixa simplesmente parou.
As lâmpadas fluorescentes no teto piscaram duas vezes, zumbiram como insetos moribundos e apagaram de vez. A escuridão engoliu a loja. O silêncio que se seguiu não era normal; até o barulho da chuva pesada lá fora havia sumido.
— Mas o que...? — Shiro murmurou, esticando a mão no escuro tateando o balcão. — Queda de energia logo agora?
Um calor sufocante atingiu seu rosto. Não era o ar-condicionado quebrado. O cheiro de ozônio e algo semelhante a plástico derretido infestou o ar em segundos, fazendo seus olhos arderem.
Sob os seus pés, o chão começou a vibrar.
Rachaduras douradas rasgaram o piso de linóleo branco da loja. Elas não quebravam o concreto abaixo, mas brilhavam com uma luz geométrica, desenhando círculos dentro de círculos, repletos de runas antigas que Shiro nunca tinha visto na vida.
O pânico finalmente disparou em seu peito. Ele deu um passo para trás, mas seu corpo cambaleou. A gravidade parecia estar falhando.
As prateleiras ao redor começaram a tremer. Garrafas de chá e pacotes de salgadinhos flutuavam a centímetros do metal.
Shiro tentou correr em direção à porta de vidro, mas suas pernas pareciam presas em areia movediça. O ar sumiu de seus pulmões como se o próprio oxigênio estivesse sendo sugado para o centro do brilho dourado.
Uma força invisível, bruta e violenta, agarrou suas costas. Não parecia um chamado mágico divino; parecia um rasgo. Como se ele estivesse no lugar errado, na hora errada, e uma corda cósmica o tivesse laçado por puro azar.
O chão desapareceu. A luz dourada explodiu, cegando sua visão, seguida por uma sensação de queda livre no vácuo.
Baque.
O impacto contra as costelas arrancou o último resto de ar que Shiro tinha no corpo. Ele rolou de lado, tossindo violentamente, o rosto batendo contra uma superfície de pedra fria, polida e impecavelmente limpa.
O cheiro de ozônio sumiu. Agora, o ar cheirava a incenso antigo e cera de vela.
— Conseguimos! O ritual... funcionou! — uma voz ecoou ao longe, trêmula e ofegante, vinda de algum lugar acima dele.
Shiro forçou os olhos a se abrirem, lutando contra a tontura. O teto alto de gesso da loja de conveniência tinha sido substituído por arcos de pedra gigantescos, vitrais coloridos que filtravam a luz do sol e colunas que pareciam pertencer a uma catedral medieval.
Ao seu lado, outras três pessoas se levantavam devagar.
Um jovem de jaqueta esportiva cara, uma garota com uniforme de uma escola de elite e outro rapaz de postura firme. Ao contrário de Shiro, que estava coberto pela poeira cinzenta do chão queimado de sua antiga loja, os três pareciam intactos. Uma leve fumaça azulada se dissipava ao redor deles.
— Onde... onde nós estamos? — a garota de uniforme escolar perguntou, a voz oscilando entre o medo e o deslumbramento.
Shiro tentou se levantar, apoiando-se nos joelhos, mas seus músculos protestaram. Sua visão focou mais à frente.
Dez homens vestindo mantos brancos e encapuzados estavam caídos de joelhos em um semicírculo, ofegantes, com as mãos apoiadas no chão de pedra. Claramente exaustos, como se tivessem drenado a própria vida para realizar aquilo.
No topo de uma escadaria de mármore, um homem de meia-idade com uma coroa de ouro cravejada de rubis os observava. Ao lado dele, um homem mais velho, segurando um cajado que terminava em um cristal translúcido do tamanho de um punho, deu um passo à frente.
Os olhos do ancião brilhavam com uma expectativa quase fanática.
— Sejam bem-vindos, Heróis do Outro Mundo — a voz do Sumo Sacerdote ecoou por todo o templo, fazendo as paredes de pedra vibrarem. — O Reino de Asteria clama pela sua força.
Ele começou a descer os degraus lentamente, trazendo o cristal em direção ao grupo. A pedra começou a pulsar com uma luz escarlate à medida que se aproximava do primeiro jovem da fila.
Shiro engoliu em seco, encolhendo os ombros dentro de seu uniforme de atendente rasgado. Ele não entendia o que era aquele lugar, mas o Sistema já estava prestes a ditar o seu destino.