Ren, o cara da jaqueta esportiva cara, foi o primeiro.
Quando o Sumo Sacerdote aproximou o cristal translúcido do peito dele, o templo inteiro pareceu segurar o fôlego. A pedra pulsou em um dourado violento, projetando letras rúnicas no ar que até Shiro conseguiu entender graças à tradução automática que parecia martelar em sua mente.
[Classe Detectada: Santo da Espada — Rank S]
Os nobres nas galerias superiores explodiram em murmúrios e palmas. O Rei Lucien abriu um sorriso largo na ponta do trono. Ren estufou o peito, olhando de soslaio para os outros como se já tivesse ganho um prêmio de loteria.
Logo em seguida, a garota de uniforme escolar, Aoi, ativou uma luz azul cristalina.
[Classe Detectada: Arquimaga Divina — Rank S]
O terceiro rapaz, Riku, garantiu a classe de Paladino da Alvorada, também de Rank S. Era um combo perfeito. Três prodígios de Rank S prontos para serem moldados pelo reino como armas de guerra.
E então, o Sacerdote parou diante de Shiro.
Shiro deu um passo para trás, desconfortável. Ele ainda usava o uniforme verde da loja de conveniência, manchado de poeira cinzenta e com um cheiro horrível de plástico queimado. Comparado aos outros três, que pareciam saídos de um comercial de TV, ele parecia um intruso que entrou de penetra na festa.
— Fique parado, jovem — o Sacerdote ordenou, a voz sem um pingo da paciência que teve com os anteriores.
O cristal foi posicionado a centímetros do peito de Shiro.
Por três segundos longos, nada aconteceu. O silêncio voltou a tomar conta da catedral, mas dessa vez era um silêncio desconfortável. O cristal começou a vibrar de forma errática. A luz escarlate de antes piscou, enfraqueceu e se transformou em uma cor cinza opaca, quase morta.
Trinc.
Uma rachadura fina cortou o meio da pedra mágica.
[ERRO: Falha na Leitura de Alma. Classe: Não Identificada. Potencial: Nulo.]
As runas flutuaram distorcidas no ar por um segundo antes de evaporarem como fumaça.
— O que significa isso? — O Rei Lucien se levantou do trono, a voz ecoando fria pelas paredes de pedra. — Sacerdote?
— Majestade... eu... eu nunca vi isso antes — o velho gaguejou, afastando o cristal partido como se Shiro fosse contagioso. — A alma dele... o Sistema Mundial não consegue categorizá-la. É como se ele não pertencesse à contagem. Ele não tem classe. Não tem mana utilizável. É uma casca vazia.
Casca vazia o cacete, Shiro pensou, os nós dos dedos ficando brancos de raiva. Ele tinha trabalhado doze horas seguidas no Japão, foi sequestrado por um portal mágico e agora estava sendo chamado de lixo na cara dura por um velho de manto.
Ren soltou uma risadinha abafada ao lado. Aoi desviou o olhar, fingindo que Shiro não existia. O favoritismo daquele mundo era patético.
— Se ele não tem classe, não pode lutar na linha de frente — o Príncipe Leon comentou do alto da escadaria, cruzando os braços com desdém. — É um peso morto. Gastar recursos do tesouro real com um mutante sem poder é burrice.
— Lucien, espere — a Rainha Elena interveio, tocando o braço do rei com urgência. — Olhe o estado dele. Nós o trouxemos para cá. Não podemos simplesmente descartá-lo como se fosse um objeto quebrado. É um ser humano.
O Rei Lucien olhou para Shiro por longos segundos. Não havia ódio nos olhos do monarca, apenas uma indiferença política que doeu ainda mais.
— Elena, estamos em guerra contra uma ameaça real avançando. Cada moeda de ouro e cada grama de ração conta — o Rei sentenciou, voltando a se sentar. — Enviaremos o rapaz para Erenfall. Com uma quantidade razoável de suprimentos e uma escolta de confiança, ele estará longe do perigo. É a medida mais justa que podemos tomar. Preparem a carruagem de descarte.
O sol já estava sumindo no horizonte quando as rodas da carruagem militar pararam de girar.
Marcus Veyne pulou da boleia e jogou uma bolsa pesada de lona sobre a relva, criando um som abafado.
— Pronto, rapaz. Está tudo aqui dentro — Marcus disse, limpando o suor da testa. — Uma espada curta padrão, rações de viagem para uma semana, água e três poções básicas. A bolsa é dimensional, então não vai pesar nas tuas costas.
Shiro desceu da carruagem, olhando para a imensidão das árvores colossais que formavam a fronteira da Floresta de Veyr. O vento da noite trouxe um assobio frio que fez os pelos de seus braços se arrepiarem. Ele engoliu em seco.
— Vocês... vão realmente me deixar aqui sozinho? No meio do nada? — Shiro olhou para os dois soldados. Sua voz saiu mais seca do que pretendia. — Eu era a p*** de um atendente de loja no Japão. Eu não sei usar uma espada.
Daren Holt, o outro cavaleiro, ajeitou a armadura com um semblante visivelmente desconfortável.
— Olha, Shiro... nós apenas cumprimos ordens. Se a decisão fosse nossa, você estaria em um alojamento na capital. Mas o conselho real bateu o martelo. Se quer um conselho de quem sobrevive na fronteira: monte um abrigo antes que escureça totalmente, acenda uma fogueira e não sai do lugar. Com sorte, alguma patrulha de Erenfall passa por essa rota nos próximos dias.
— Chega de conversa, Daren — Marcus interrompeu, subindo de volta na carruagem e puxando as rédeas dos cavalos. — Precisamos dar meia-volta antes que a noite caia de vez.
Marcus olhou para Shiro uma última vez, batendo com o chicote nas rédeas.
— Cuide-se, garoto. Você vai precisar.
A carruagem partiu, deixando uma trilha de poeira e o som decrescente dos cascos dos cavalos na estrada de terra.
Shiro ficou parado, estático, observando a silhueta do veículo sumir na curva. O silêncio da floresta caiu sobre ele como um caixão. O frio começou a morder através do tecido fino do seu uniforme da conveniência. Ele estava sozinho. Sem classe, sem amigos, sem herança heroica. Abandonado para morrer no primeiro dia.
Uma risada amarga escapou de sua garganta.
— Que se foda esse reino — murmurou para o vento, chutando a bolsa dimensional. — Que se fodam todos eles.
As sombras das árvores colossais começaram a se esticar pela estrada vazia à medida que a escuridão engolia a floresta. Shiro respirou fundo, agarrou a alça da bolsa e deu o primeiro passo em direção ao matagal escuro. Se quisesse ver o sol nascer no dia seguinte, dependeria apenas de si mesmo.