Os galhos secos estalavam sob os tênis gastos de Shiro à medida que ele avançava para o interior da vegetação. O sol já havia sumido completamente, deixando apenas um rastro de luz roxa no céu que logo deu lugar a uma escuridão densa, quase sufocante.
Ele caminhou por cerca de vinte minutos até encontrar uma clareira mínima, cercada por três árvores gigantescas cujas raízes saltavam do chão como costelas de um monstro enterrado.
— Que lugar desgraçado — Shiro praguejou baixinho, deixando a bolsa dimensional cair na terra úmida.
Ele se sentou em uma raiz, sentindo o suor frio colar a camisa do uniforme verde no corpo. Sua mente era uma bagunça de exaustão e ódio. Horas atrás ele estava organizando caixas de leite sob a luz fluorescente de Tóquio. Agora, estava em um planeta desconhecido porque um bando de engravatados com coroas decidiu que sua alma era lixo.
Casca vazia. Potencial nulo.
As palavras do Sumo Sacerdote ainda queimavam em seu peito.
Tentando afastar os pensamentos, Shiro abriu a bolsa e puxou a espada curta fornecida pelo reino. O metal era opaco, sem corte aparente, e o cabo de madeira áspera machucava a palma da mão. Uma piada de arma. Ele a colocou de lado e tentou juntar algumas folhas secas para acender uma fogueira, mas percebeu o óbvio: ele não tinha isqueiro, não tinha fósforo e nunca tinha acendido um fogo na vida sem tecnologia.
O vento parou de repente.
O assobio frio que cortava as árvores cessou, deixando a clareira em um silêncio absoluto. Shiro congelou com a mão estendida sobre os gravetos. Um arrepio violento subiu por sua nuca. Uma sensação de peso, como se o ar estivesse ficando mais espesso, esmagou seus ombros.
Algo estava olhando para ele.
Das sombras de um arbusto espinhoso a cinco metros de distância, dois pontos amarelos e brilhantes se acenderam. Logo à esquerda, mais dois.
Dois pares de olhos. Dois predadores.
Lobos da Fronteira. Mas eles não pareciam os lobos da Terra; eram do tamanho de um leopardo, com pelos negros que pareciam fumaça sólida e presas que saltavam para fora da boca salivante.
— Droga... droga, droga! — Shiro xingou, o coração disparando tanto que ele conseguia ouvir as batidas nos próprios ouvidos.
Ele largou os gravetos e tateou o chão no escuro até fechar os dedos ao redor do cabo da espada curta. Seus braços tremiam tanto que o metal da lâmina vibrava no ar.
O primeiro lobo não esperou. Com um rosnado baixo, a criatura saltou da escuridão direto em direção ao seu pescoço.
A adrenalina e o puro pânico de morrer dominaram o corpo de Shiro. Em vez de recuar, ele deu um passo à frente com um grito desesperado e desferiu um golpe horizontal com as duas mãos, usando todo o peso do próprio corpo.
O impacto foi brutal. A lâmina cega atingiu a lateral do pescoço do lobo em pleno ar. O osso estalou e a criatura caiu pesadamente na lama, debatendo-se duas vezes antes de ficar imóvel.
Mas o preço veio imediatamente.
Trinc!
Um estilhaço de metal voou raspando a bochecha de Shiro. A lâmina da espada curta, frágil e vagabunda, havia se partido ao meio com o impacto. Tudo o que restou em sua mão direita foi o cabo e um pedaço de ferro quebrado de apenas quinze centímetros.
Antes que ele pudesse processar o choque, o segundo lobo aproveitou a brecha.
O monstro avançou como uma sombra veloz, atingindo o peito de Shiro com as patas dianteiras. O impacto o jogou de costas contra a terra úmida. Shiro ergueu o braço esquerdo por instinto para proteger o rosto, e as mandíbulas do lobo fecharam-se ao redor do seu antebraço.
— AAAAHG! — Shiro urrou de dor quando os dentes perfuraram o tecido do uniforme e rasgaram a carne, estraçalhando seus músculos.
O cheiro de sangue fresco enlouqueceu o predador. O lobo começou a balançar a cabeça, rasgando ainda mais o braço de Shiro e tentando alcançar sua garganta com as garras das patas dianteiras, que cortavam suas costelas sem parar.
Shiro estava afundando na lama, sangrando muito, com a visão começando a piscar em preto devido à dor excruciante. Ele empurrava o focinho do lobo com a mão esquerda mutilada, mas suas forças estavam escorrendo junto com o sangue.
Eu vou morrer aqui? o pensamento cruzou sua mente moribunda. Morto no mato por causa da porcaria desse mundo?
Uma fúria cega e ácida subiu de suas entranhas. Ele não aceitava morrer de forma tão patética.
No milésimo de segundo em que o lobo abriu as mandíbulas para desferir a mordida final em sua garganta, a realidade ao redor congelou. As gotas de saliva do monstro ficaram suspensas no ar. O som do vento desapareceu.
Diante dos olhos quase sem vida de Shiro, uma interface preta fosca com linhas vermelhas cor de sangue rasgou a escuridão. O brilho era imponente, pulsando com a autoridade de uma entidade absoluta.
[ALERTA DE SOBREVIVÊNCIA: Sinais vitais do Hospedeiro em nível crítico (14%).]
[O 'Sistema de Origem' (Rank SSS) detectou uma ameaça hostil de nível inferior.]
[Deseja ativar a habilidade exclusiva: [Manipulação de Gravidade do Inimigo]?]
— Ativa... essa... merda! — Shiro cuspiu o sangue que se acumulava em sua boca, rugindo mentalmente com toda a força que lhe restava.
[Habilidade: [Manipulação de Gravidade do Inimigo - Nível 1] ativada com sucesso.]
[Alvo: Lobo da Fronteira (Nível 3). Aplicando pressão gravitacional multiplicada por 10.]
O tempo voltou a correr.
No mesmo instante, um estrondo surdo ecoou pelo chão da clareira. O lobo, que estava prestes a rasgar o pescoço de Shiro, soltou um ganido agudo e sufocado. Uma força invisível e esmagadora desabou sobre as costas do monstro, empurrando-o violentamente contra o chão.
O predador foi completamente prensado contra a lama ao lado de Shiro, incapaz de erguer a cabeça ou mover uma única pata. Os ossos da criatura começaram a estalar sob a pressão invisível de dez vezes o seu próprio peso.
Shiro ofegou, rolando de lado com dificuldade. Seus músculos queimavam e o braço esquerdo estava em carne viva, mas o lobo estava imobilizado, preso como um inseto espetado em uma mesa.
Olhando para o monstro que quase tirou sua vida, Shiro forçou o próprio corpo a se mover. Ele rastejou sobre a lama, ignorando a dor nas costelas, até ficar por cima da criatura indefesa.
Sua mão direita ainda segurava firmemente o cabo da espada quebrada, com a metade da lâmina de ferro lascada e afiada pela fratura.
— Minha alma é lixo, é? — Shiro sibilou, os olhos injetados de sangue e a voz carregada de puro rancor.
Com um movimento violento e descendente, ele cravou a metade da lâmina quebrada direto no olho do lobo, empurrando o ferro até o cabo bater contra o crânio do monstro.
O lobo estremeceu uma última vez e amoleceu na lama.
[Inimigo abatido. Experiência adquirida: 45 EXP.]
[Primeira caça concluída com sucesso. Iniciando processo de regeneração básica...]
Shiro desabou de costas ao lado do cadáver, soltando a arma quebrada. Enquanto olhava para a tela vermelha do sistema flutuando no escuro da floresta, uma sensação quente começou a se espalhar por seus ferimentos, aliviando a dor.
A contagem dele estava apenas começando.