Final do dia
Assistir a uma facada em segunda pessoa — ou seja, tu é o alvo — é traumatizante, mas essa experiência pode ser pior quando engatilha uma memória de outra facada, de uma vez que tu viu em terceira pessoa, sendo desferida em alguém que tu amas. Apesar disso, esse gatilho também lembra como teu herói lutou antes de cair.
Essa estocada pela esquerda na cara foi imprudente e covarde, em um ângulo perfeito para levantar teu braço canhoto e desviar a lâmina para o lado e puxar teu adversário na tua direção enquanto o recebe com um chute no estômago usando a sola do pé.
O resultado não é o mesmo da memória. Como poderia ser? O inimigo que tu enfrenta não carrega uma faca na mão, é mais complicado que isso, o braço dele é uma faca. Uma lâmina em cada antebraço, como duas garras de aço, que passam o quê? Cinco centímetros do punho cerrado? O tamanho do pinto de Jairo Jorge no verão… haha, velho brocha, mas não é hora de pensar nisso.
Diferente de como foi com teu mestre, o resultado do teu movimento foram teu antebraço e tua mão sangrando por ter pego a lâmina diretamente, mas… ele sentiu o chute. Sentiu física e moralmente, pois logo em seguida veio com mais raiva fazendo cortes diagonais no ar.
“Como um caboclo tem essa audácia? Fica quieto e apanha, velho de merda” Foi o grito que ouviu no passado.
“Como um simples humano tem essa audácia? Fica quieto e apanha, piá de merda” Foi o grito que ouviu no presente.
Só que Tomás não sentiu medo e raiva. Desta vez, sentiu apenas raiva. Raiva, ira. Ele aceitou o desafio — e o dinheiro que vinha com ele — então não estava ofendido pelo proto-humano além do “trash talk” usual de uma luta combinada. Mas a memória, a memória sim, a memória pulsava em seu corpo e não o permitia sentir nenhuma dor física.
Ele fechou os olhos e se lembro do que seu galo véio fez naquele dia. Tomás tinha o nariz e o reflexo da mãe, é o que diziam, mas a cor, o cabelo e a agilidade eram do pai. Antes que o som do vento sendo cortado chegasse nele, mergulhou em um salto para a frente, à direita, desviando dos golpes. A aterrissagem foi com as mãos espalmadas e os braços rapidamente dobrando e o disparando novamente na direção contrária, enquanto girava o corpo em 180º e acertava com os dois pés no adversário.
O veio fez o mesmo movimento. Ele se lembra. Foi realmente audacioso. Foi bonito. A plateia — desta vez tem plateia, desta vez é uma luta, não um assassinato frio… afinal, todos estão ganhando para isso e concordaram com os riscos — a plateia comemorou o movimento. O adversário, não. Foi como na sua memória.
Um homem caído no chão, após ter dado de costas em uma cerca elétrica (e empurrado para a frente pelo pulso), e com a mão na costela, onde levou o chute, e com cortes feitos pela própria lâmina durante o processo.
— Parece que o Ferroada se ferrou, não é mesmo? Ha-ha-ha!! — foi o que gritou Bombcorn, com outra piada ruim que ainda assim faz o público rir por conta do seu carisma.
— UGH! Aaarrgg — mas o gemido alto e gutural em seguida… não foi de Ferroada, o adversário Proto-Humano de Tomás que tinha implantes de lâminas e espetos no corpo todo. Também não foi do homem careca usando couro e com tatuagens de serpentes que usou uma faca envenenada contra seu pai há mais de uma década atrás. Uma estocada só — ágil, forte, profunda, talvez no estômago, talvez no pulmão.
A sirene da polícia toca ao fundo. Tarde demais para salvar o homem. Tomás… não tem ninguém para tentar salvá-lo. Faz parte da luta. Se morrer, é acidente de trabalho, apesar de nunca ser bom para os negócios. Ferroada ainda tem um movimento final — perfura Tomás também com a outra lâmina, o joga para cima e o chuta com um pontapé, como se fosse uma bola de futebol.
Outro corpo leva choque hoje nas paredes dessa gaiola eletrificada com… eletricidade vermelha? Algo assim, mas Tomás tem coisas mais importantes para lembrar enquanto vaza pela barriga seu sangue e seu almoço, como fato de que pode ser a primeira vez que perde uma luta.
— USA ESSA MERDA LOGO, TOMÁS! PARA DE SER BURRO! USA ESSA PORRA DE XPTO! — uma voz feminina, adulta grita. Uma mulher, é a Srta. Rosa, Tomás reconhece a voz. Ela rola para dentro da gaiola uma seringa com um líquido verde e algumas coisas estranhas misturadas.
— Enfia esse troço no cu e levanta, filho da puta. Vencer de gente normal paga menos. Vem, usa essa merda e vem lutar comigo de novo. — diz Ferroada, impaciente, incitando seu adversário.
Tomás usa a pouca energia que está, leva o braço até acima a seringa e baixa a mão, desligando o despertador para se levantar da cama. É a manhã daquele dia, quando teve suas últimas horas para se preparar para uma das lutas mais importantes da sua carreira.