A República parte 2
— PENSEI QUE TU APOIAVA A MINHA ARTE!
— E EU APOIO, POR ISSO QUE NÃO QUERIA QUE TU LARGASSE A FACULDADE!
— E A MINHA EXPRESSÃO? A MINHA INDIVIDUALIDADE?
— ULISSES, COMO VAMOS VIVER JUNTOS ASSIM?
— OLHA, BIANCA, SINCERAMENTE! ESPERAVA MAIS DE TI!
Essa é a recepção que Tomás tem ao chegar em casa. Ulisses sai puto, passa por ele no corredor, mas antes de abrir e sair pela porte, pergunta:
— Tomás, vamos tomar uma cerveja?
— HMMmm, sem tempo. Foi mal.
Tomás ouve o choro lá no fundo, vindo da cozinha, mas seu quarto é uma porta à esquerda antes. Aparentemente, ninguém mais estava na República. Tomás, silenciosamente, ou o máximo que conseguia com aquela madeira toda rangendo, entrou no quarto e fechou a porta.
— AAAAAHHHHH — o barulho de choro ficou mais próximo.
Tututú — o celular de Tomás recebe notificação. Ele abre a mensagem que diz. “Ah, me enganei, esse XPTO aí não é especial não, tava separado para descarte. Não usa essa merda, pode te matar.” “E só agora que tu me avisa?” Respondeu Tomás.
O lutador abre o estojo e vê a seringa com o líquido verde e o fungo dentro. São hifas grandes, asquerosas, repugnantes, espalhadas pelo interior do vidro, se mexendo. Lembra o blob, aquele ser vivo que ninguém sabe o que é. Ou ao menos o Tomás não sabe o que é.
— AAHHhhh — o choro para na porta.
Tomás para de se mexer, prende a respiração, fica em silêncio total, parado. Olha à volta, vê que sua luz tá apagada, ufa. Porta? Porta não está trancada, droga. Ou não, se tivesse trancado por dentro poderia denunciar sua presença ali. Mas, bem, agora, não pode fazer nada, apenas ficar quieto e esperar que...
— Tomás, tá aí? — perguntou Bianca com voz de choro.
Ele permanece quieto.
— Tomás, preciso conversar um pouquinho, tá aí?
Ele permanece calado.
— To vendo que a porta tá destrancada, então, vou entrar, tá? — Bianca abre a porta com seu rosto choroso e ranhento. Tomás fica incrédulo com a invasão e está pronto para dar um corte nela, mas suspende ao ver o rosto.
— Oi, Bianca.
— Oi, se tu não te importa, vou sentar aqui. — Ela senta na cama ao lado de Tomás. — UAahhh. Por que ele tem que agir assim?
— Bom, Bianca, eu…
— Eu sempre apoiei ele em tudo, já deixei de estudar para prova de genética para assistir apresentação dele, fiquei até tarde ajudando a ensaiar a flauta…
— Ensaiaram? Impressionante, imagina se não…
— Verdade, né? Parece que ele é talentoso de nascença, mas sou eu quem ajudo ele para tocarmos juntos. Eu não quero que ele abandone a arte e a expressão, só quero que ele tenha um pouco mais de compromisso com algo, pelo nosso futuro juntos.
— Um vagabundo completo!
— Exato, um romântico incurável, um vagabundo poeta, um artista pleno do seu talento. Não é isso que questiono, mas se os professores não enxergam a arte dele, como ele espera que pessoas aleatórias deem moedas o suficiente para pagarmos sequer aluguel?
— Bom, é que talvez tu não devesse pensar num futuro com alguém assim…
— Sim, eu sei que tenho que fazer minha parte, não estou falando de ser sustentada por ele. Eu estudo biologia, pago minha parte do aluguel com a bolsa, ele é um homem incrível, vale todo o esforço.
— Bianca, preciso trocar de roupa para sair…
— Claro, eu viro para o lado. — Bianca se levanta e fica de costas, enquanto continua chorando e falando. — Eu queria muito contar uma notícia ótima para ele, mas que ao mesmo tempo está me deixando insegura demais. Agora, já não sei o que fazer com isso.
— Realmente, Bianca, muito triste, eu só consigo imaginar. — responde Tomás colocando sua nova roupa.
— Eu acredito nele, sei que ele vai esfriar a cabeça, pensar melhor no que aconteceu e chegar a uma conclusão razoável, vir para casa e conversarmos.
— O golpe tá aí, né?
— Verdade, cai quem quer. A vida é cheia de golpes, como esse, mas sei que eu e ele não cairemos. Mas assim, acho que se ele conversasse com um amigo em quem ele confia, e que desse uns conselhos a ele, tenho certeza que melhoraria a situação. Posso me virar?
— Pode.
— Tomás, ele realmente precisa de uma palavra amiga de alguém, de uma pessoa importante e próxima. Ele está afastado da família que não apoia muito o estilo de vida que ele tem após os 30 anos, então ele precisa de um amigo homem, que o faça enxergar, ele vai escutar melhor. — Diz Bianca, colocando a mão no ombro de Tomás, que dá uma afastada. As pessoas estão com uma mania estranha de tocar nele hoje.
— Tá bom, Bianca, se eu pensar em alguém assim eu te falo. Só que — Bii, bii! Uma buzina toca lá na frente — eu realmente to de saída. Preciso ir trabalhar. — Nesse meio tempo, Jairo Jorge chegava na República e ouviu a última fala, então, gritou enquanto passava pela porta.
— Engraçado que um filho da puta trabalha no puteiro.
— Uau, muito engraçado mesmo, Jairo. — Retrucou Bianca. — Não liga pra esse velho. Tá pior desde que começaram os aplicativos, pois não pega mais tanta corrida pelo táxi. Tu vai para o trabalho? Aquela… casa noturna? Posso ir junto, para não ficar sozinha?
— Desta vez o trabalho é na rua. Fica pra próxima. Agora, se me dá licença…
— Claro! — Bianca fala e Tomás fecha a porta, saindo correndo da casa. Na frente, um audi preto com faixas rosa choque espera por sua chegada. Era Srta. Rosa.
Drug Rush
Mais cedo, quem passou por aquela porta foi Ulisses… Se Dona Amélia tivesse escutado a batida, o guri teria ficado horas escutando reclamações. Provavelmente teria algo envolvendo multa ou algo assim. Só que aparentemente não ficou dano algum e dane-se também, isso não importa mais.
O que importa é tentar se acalmar. Ele acabou de tomar um passo importante na jornada para se tornar um grande artista e ser reconhecido pela sua genialidade. Foi um salto de fé? Foi. Mas é a fé em Jah que nos trouxe aqui, é a Fé em Jah que vai nos levar lá. Bianca não entende, faltou com confiança nele, mas, tudo bem, ela pode só estar preocupada.
Se acender a pontinha de camarão que está no bolso vai deixar tudo melhor. Vai relaxar, vai ficar bem. Ulisses pega aquela metade de perna de grilo, acende e fuma. Está tudo bem, está tudo ótimo. Está gostoso como estava há uma hora, continua gostoso.
Mas vai acabar, né? Bah, que saco… já já acaba, e daí vai voltar pra casa e a Bianca vai estar bem né. Relaxado… mas se não? Pode ser que ela esteja com raiva ainda e jamais compreenda. Ela também não entenderia, não sabe como é ser cobrada todos os dias pelo seu pai para arranjar um emprego.
Bianca nunca teve ninguém incomodando assim. O pai dela é porteiro, a mãe merendeira, já estão felizes o suficiente que ela está na faculdade e é a primeira da família. A vida dela é sem pressão, tranquilidade, vai fazer biologia e ser professora. Poh, quem não quer 2 meses de férias todos os anos?
AH, mas era pra ta calmo né? O Beck… ta dando bad, o coração tá acelerando, não tá dando bom esse, talvez algo para molhar a garganta. No bolicho da segunda quadra tem, preciso pegar logo, whisky barato, 5 a dose. Precisa acelerar, acelerar, acelerar, acelera-a merda não viu a faixa? Um fusquinha quase atropela Ulisses, que viagem cara ahahaha.
— O que vai querer Ulisses?
— Que?
— Tu tá há 5 minutos me olhando aí na porta, quer alguma coisa?
— Sim, já disse.
— O que?
— …
— Fala logo, caralho.
— Um copo.
— Um copo de quê? De cerveja, de café, de porra?
— Whisky seu Carlos.
— Quem é Carlos? Tá toma essa merda. Vai passar cartão? Toma aqui na máquina. — Seu carlos digita 13. — Hehe faz o L agora hehehe hehehe.
— Valeu — Ulisses bebe numa talagada e volta para a rua. Olha para a direita e vê o sol ao longe. Acho que vou ver ele dando tchau.
O sol parece uma bola de fogo né? Mas na real, tá ligado que não é? É acho gás hélio, algo assim. — FILHO DA PUTA, AH — Ulisses tropica na árvore. — Saco sempre. Mas desculpa Alvaro — Ulisses abraça a árvore.
A caminhada está mais lenta do que o normal, meio sinuosa. AS pessoas olham estranho para ele, uma criança passa de bicicleta rindo, ele tá cagado por acaso? TAlvez esteja, tem algo pesando nas calças. Ah, é o corpo. Tudo está pesado, lento, menos sua testa, franzida com força sem parar. Puta que pariu, Bianca, por que tu tem que ser essa vadia aproveitadora? Só tá comigo porque sou filho de rico, eu devia ter ouvido a mamãe. Essas puta vem do interior só para ficar com rico de cara de trouxa. Mas ele sempre disse que faria o dele sem depender do pai. Meu kkk pq tem um cachorro atrás daquela placa? ahahahahaha. O cachorro tá acenando o rabo, o que acontece se eu me aproximar? Ele ta ficando longe.
O cachorro ta cada vez mais longe, cada vez mais, espera seu doguinho. Oh, vamos pegar uma coisa aqui pra ir mais rápido e pegar esse cornorro kkk o cãorno. Tá dentro do tenis o saquinho, aaha é mais branco que eu esse pó, é só encaixar na pipeta, encostar no nariz e vupt, vira o flash agora.
Os pés tão agitados, vai pegar esse cachorro. Ta indo, to indo, tu indo, quase lá e oooh peguei o cusco. Carinho no cusco ahahaha ele mordeu o dedo e saiu correndo tá sangrando agora aahahaha. AH cara, ah. Ahahahahahaha. vou lamber para parar de sangrar kkk.
— Qual ééee Ulisses.
— Ih, mano, o cusco tá falando.
— Que mané cusco, mano, sou eu. — Um cara de dois metros, usando dreads e um quipá vermelho.
— Mano, que chapéu doido kkk. Éric, tu sempre tá com parada doida. Tá com coisa aí pra mim? — Diz Ulisses apontando com a mão trêmula.
— Não, mano, eu entrei kk pra kkk pra Cabala do Gnomo. Quer se juntar? — O homem abre a mão com uma pílula circular vermelha com pontinhos brancos. — AH, CARALHO, O QUE TU TA FAZENDO? — gritou o rapaz enquanto Ulisses mordeu a mão do homem onde estava a pílula e engoliu, ainda deixando cortada a mão.
— TE FODER, MANO, TO VENDO GNOMO NENHUM AINDA — Ulisses dá um chute no meio das pernas do outro, uma cabeçada na boca dele e sai correndo em direção ao na direção do sol de novo. — QUE MERDA, OUTRO CARRO TENTANDO ME MATAR.
Uma carroça passou correndo por Ulisses. As poucas pessoas na rua naquele momento, naquele lugar, se esquivavam de Ulisses, que babava e grunhia coisas inaudíveis. Seu rosto desperta, os olhos brilham, um sorriso de ponta a ponta se abre. Um gnomo, cara, um gnomo, ele tá acenando.
Não fuja, amigo gnomo, onde você está indo? Vamos assistir o pôr do sol juntos, amigos. Ah, está me mostrando onde tem mais, entendi. Vamos juntos, todos, amigos, vamos.
Ulisses saltita, corre, chuta um hidrante, cai de boca no chão, levanta, saltita, corre, pega um pacote de pipoca que estava voando, ouve gente comemorando por ele, se balança nas árvores do cosmo, corre, saltita, um grupo inteiro de gnomos no meio de um matinho que ainda existe lá na orla do Guaíba, perante aquele rio lindo, onde pode ver o sol se por, alaranjado, no horizonte, entre os barcos, junto com seus amigos gnomos que oferecem um cachimbo com uma pedrinha branca mágica.
Uma baforada.
Duas baforadas.
Três baforadas.
O sol… os gnomos… era um recado… o sol… está caindo, é uma bola de fogo, e é preciso Ulisses ir correndo para casa agora para avisar para aquela filha da puta que ela é uma vadia de merda querendo atrapalhar sua vida e ser uma âncora na sua paz interior. E precisa fazer isso antes que o sol caia e mate todo mundo.
“E todo mundo é meu também” — No rádio do carro de Srta. Rosa toda aquela música clássica da banda dos Tribalistas. Tomás não curte, está enjoado porque ela sempre bota a mesma playlist no carro.
Carona com Srta. Rosa
— Sério, tu não tem mais nada para tocar nesse rádio? — Pergunta Tomás, olhando puto para a mulher ao seu lado. Sua idade ele nunca soube, ela parece jovem de 30 anos, mas parece jovem de 30 anos desde que ele tinha ao menos 16.
— E tu não tem mais nada para me falar, piá de merda? — Srta. Rosa levanta sua cartola de feltro escuro e faixa rosa com sua mão direita, coberta por uma luva de couro que vai até o cotovelo.
— Que tu tem gosto musical de velha porque é uma velha.
— AAAH! — sentada ao lado de Srta. Rosa, uma jovem de pele morena e cabelo cacheado se assusta.
— Velha é teu cu, Tomás. Que é, Camila?
— Desculpe, Srta. Rosa, é que nunca pensei que veria alguém falando com a senhora assim. — Camila baixa a cabeça, não olha Srta. Rosa nos olhos, mas por acidente acaba fitando os olhos no decote em v de Srta. Rosa, entre seu vestido midi de cetim de tom vinho, que contrasta com o cinto largo e o casaco longo marrom. — Nem mesmo a senhora falando esse tipo de termos.
— Meu bem… — Srta. Rosa, com sua fala aveludada, encosta o dedo sob o queixo de Camila e o levanta, para olhá-la nos olhos. — Realmente, não é o meu tom comum, mas… certas crianças recusam em amadurecer e precisam ser reeducadas constantemente. Desculpe por esse… “trauma”. — Srta. Rosa fita Camila olho no olho com seu delineado gatinho e sombra feita com batom líquido rosa, parecendo que entra na tua alma e inicia um incêndio lá dentro. — Espero poder te compensar depois.
— Ta-tá… — Camila treme um pouco e aperta bem as pernas, enquanto segura a saia. O calor logo é refrescada com o balde de água de uma risada.
— O QUE É, TOMÁS? — Pergunta Srta. Rosa, olhando para ele tão rápido que parecia carregar uma lança na pupila para cortar o pescoço dele fora.
— “Senhora” ahahahaha. “Senho-AI” — O bico fino do sapato de Srta. Rosa aperta o pé de Tomás.
— Não quero saber. Tu vai usar essa merda de XPTO sim. Já separei uma dose especial para ti.
— Especial? Diz um XPTO Avançado?
— Não, é o comum, que amplia habilidades físicas como os outros, mas esse só tem mais chance de dar certo.
— Como assim dar certo?
— Isso não importa, só que tu não é minha cobaia. Tu é meu lutador e preciso de ti sendo mais forte do que é. Até hoje, tu lutou no Ciclo de Lutas de humanos, venceu todas, muito bem. Só que o dinheiro e o poder moram no Ciclo de Proto-Humanos. Se tu quer mais grana e quer me ajudar a expandir meu poder, usa o XPTO.
— Eu consigo vencer o ferrugem.
— Ferroada.
— Qualquer merda assim sem usar isso daí. Tu falou que tem muito esquisito sem qualquer habilidade no Ciclo de Proto-Humanos.
— Eles tentam entrar, mas não avançam, no máximo ficam bem na base da pirâmide depois de muita sorte, já te falei.
— Eu não preciso de sorte, preciso de habilidade e conhecimento. O que mais eu preciso saber sobre meu adversário e a arena de hoje?
— Bom, o Ferroada tem lâminas e próteses de ferro espalhadas pelo corpo. Ele já era de fazer modificações corporais, mas foi patrocinado por uma fábrica… a Montino, de aço e lâminas para cozinha e churrasco. Ele tem uns espetos metido a besta pelo corpo.
— Isso não faz sentido algum.
— Só piora. Agora, sobre a arena. Será uma gaiola com uma cerca eletrificada com eletricidade vermelha.
— Vão mandar um cara com ferro no corpo todo para ser um para-raios? E eletricidade vermelha, o que é isso?
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— Pronto, só preciso dar um jeito desse cara tomar um choque e acabou tudo, venci a luta.
— Tomás... — Diz Srta. Rosa.
O carro para no destino: o Largo Zumbi dos Palmares. Um espaço largo, um estacionamento, onde ao redor há uma avenida, casinhas antigas e duas ruas com a entrada para o bairro boêmio de Porto Alegre, a Cidade Baixa. No centro, um círculo de cercas de ferro está com as portas abertas, rodeado por uma arquibancada montada, já cheia das 20 únicas pessoas com permissão para assistir isso ao vivo.
— Usa isso. — Srta. Rosa abre uma caixa, um estojo aveludado, na frente de Tomás, que gentilmente fecha.
— Está tudo bem. Só preciso correr, pois aparentemente minha torcida de absolutamente três pessoas além de ti e do Sr. Paulo — Tomás aponta para o chofer — já estão chamando o Roseiral, misturando com outros chamados… — Gritos ao fundo gritam diversos nomes. — menos o meu.