I.
(Texto escrito à mão, encontrado em uma bola de papel jogado na porta do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, recolhido ao escritório de Srta. Rosa)
Título: “E vocês todos deveriam se curvar!”
Obra escrita e narrada pelo roteirista Fernando Ulisses
(Aos cuidados do Prof. Pletskaya, de teatro, para avaliar a execução da obra abaixo)
Escrevo este relato tão fantástico que poderia estar saindo de minha mente criativa. No entanto, os horrores que vivi e dos quais eu e minha amada ainda nos recuperamos só poderiam ser gerados por mentes doentias e perturbadas. Talvez a minha seja uma delas.
Escrevo este texto à caneta em um bloco de notas que sempre carrego comigo para minhas ideias. Ainda, a escrita que uso é, sim, de minha notoriedade artística e merece atenção — no entanto, não sei mais o valor disso agora que Bianca está deitada nesta cama de hospital ao meu lado.
Seu corpo está totalmente coberto por faixas e unguentos cuja natureza desconheço e só me falta permitir que os “médicos” cuidem de minha amada (como se a “medicina” fosse capaz de algo). Os horrores que fragmentaram sua mente e destruíram parte de sua carne não podem ser encontrados em qualquer manual de medicina. Como se o próprio ar que passa por nós fosse a extensão da boca de um ser invisível e onipresente, vi o “nada” salivar um ácido gosmento e voraz sobre seu corpo.
A cor, verde como um musgo do abismo oceânico, era contornada apenas pelo vermelho do sangue e da pele irritada de Bianca, com seu branco quase de papel sendo corroído lentamente em tom descompassado aos seus gritos de horror que eram respostas não à dor física, mas à penetração mental de uma criatura cuja própria existência perturbava o suficiente a ponto de ser um sedativo perante a qualquer sensação corpórea.
Ainda que minha namorada tenha sofrido a corrosão física e mental das enzimas digestivas de uma criatura cujas presas foram capazes de penetrar o tecido da nossa realidade, meu sofrimento também é altamente notável — se não maior. Ainda que sua dor a consumisse fisicamente de fora para dentro e mentalmente de dentro para fora, seu sofrimento há de ser comparado ao meu. Minhas criaturas também são internas e externas. Diferente do algoz de minha amada, que também enfrentei e que graças a mim não a assola mais, ao menos pelo momento, minhas criaturas continuam existindo.
Eu estou vivo, ela nem tanto, mas no final da semana, a realidade pode se inverter. Sou um ótimo namorado e estou feliz com isso. Sentimos muito, nos perdoamos, nos amamos, somos gratos.
Foi por sorte — ou seria um chamado cósmico? — que fui capaz de encontrar um livro mais antigo do que o papel na biblioteca mais macabra em que já estive, mas que também traria a resposta para nosso dilema. Esse e outros volumes foram encontrados por mim, seguido por Bianca, minha amada, e Vê, a irmã de criação de meu melhor amigo Tomás. Estávamos investigando o primeiro ataque dessa criatura sobre minha esposa e outras vítimas espalhadas quando descobrimos um pequeno culto de grandes horrores sob o asfalto quente da praça frente à Usina do Gasômetro em Porto Alegre.
O horror, no entanto, já havia começado mais cedo naquele dia…
Anot.: lado a lado, bate com o rel. do Tom.? Vou botar trechos intercalados para comparar. Vou pular o que está igual.
II.
(Arquivo digitalizado, impresso e entregue no escritório de Srta. Rosa)
Título: “E vocês todos deveriam se curvar!”
Relatório de investigação e autoanálise de desempenho de Tomás Vachet, revisado por Verônica Rocha
Eu, Tomás, sou bobão, não sei escrever, só sei bater em pessoas. Sou um troglodita. Por isso, vou relatar tudo para a Verônica e ela vai fazer o trabalho de revisar o que escrevi depois. Também estou devendo um engradado de cerveja para ela.
Era o início da manhã de um sábado ensolarado, de um dia bonito que faria o verão de Porto Alegre perfeito se o acesso às praias da capital fosse facilitado. No entanto, a sensação em meu quarto é de que estávamos todos em uma noite de sexta-feira fria, chuvosa, e com neblinas, como se ainda estivéssemos presos no dia anterior. O clima meteorológico e o clima psicológico não estavam combinando.
Sentada na cama, estava Bianca, com olhos cabisbaixos e tremores nas pálpebras. Seu antebraço esquerdo estava fechado com curativos e a mão direita sobre os mesmos. A guria, que sempre fora branca, combinava com o pálido dos meus lençóis. Sentado em minha mesa de cabeceira estava um jovem magrelo, com rosto enrugado e dreads que caiam também sobre pele branca. Ulisses, com olhar em chamas de fúria acendidas pela faísca do caos presente no combustível de angústia que já o permeava há alguns dias.
Ao fundo, abafada pela barreira da porta fechada, a voz de Dona Amélia podia ser escutada: “Verônica, há quanto tempo! Pode entrar, Tomás está no quarto dele”. Passos firmes, suaves e ágeis flecharam pelo corredor e, em poucos segundos, a porta se abriu sem muitas cerimônias. “Tomás, nós precisamos converss..r” — e a Verônica se interrompeu ao perceber pessoas e um clima que não esperava.
Eu estava sentado em uma cadeira de praia, com olhar impaciente e tenso — não como os demais, mas com os demais. Após os cumprimentos, ofereci a ponta da cama para minha amiga sentar e sinalizei para que Bianca recomeçasse seu relato. Aqui, gostaria de trazer o relato ipsis litteris.
— Estávamos em um boteco da Cidade Baixa ontem e — Bianca foi interrompida por Ulisses.
— Conta direito, amor. Deixa comigo. Estava tudo meio vazio na CB… Ainda que no verão Porto Alegre tenha altos e baixos no movimento pelas pessoas que vão para o litoral, a densidade de pessoas estava menor do que o comum. Em compensação, tinha uma neblina forte e densa, que podíamos sentir com os dedos ao erguer as mãos.
— E, também, tinha um cheiro indescritível… azedo… — Bianca complementa.
— Azedo, haha, e tu disse que era indescritível. Ok, amor, deixa que eu continuo. O cheiro era azedo mesmo, podre, e, ao mesmo tempo, adocicado. Lembrava o cheiro de carne humana queimada, misturada com peixe podre e limão. Difícil descrever. — Disse Ulisses.
— Nesse momento, já não tinha mais ninguém, mesmo. Estávamos a sós. Nem o garçom que viria nos trazer a próxima cerveja enquanto estávamos sentados nas cadeiras de plástico da calçada do boteco estava lá. Ulisses sugeriu aproveitarmos para ir embora…
— Não que eu fuja sem pagar, apenas o ambiente que estava perigoso.
— É, amor, sabemos que tu tem boa índole.
— Sim, agora, deixa eu concluir para eles entenderem melhor. — Disse Ulisses. — O ar foi ficando cada vez mais denso, até que a Bianca começou a relatar algumas visões. Algumas mães d’água verdes que flutuavam e desapareciam. Achei que ela estava ficando doida.
— Haha, tu sempre acha, amor.
Anot.: Mãe d’água = água-viva ou sereia?
— Claro, vida. Fico de olho em ti, tem histórico na tua família. Tenho que cuidar de ti. Enfim, eu comecei a ver essas mesmas mães d’água e seus tentáculos curtos, mas elas apareciam perante a Bianca. Era como um convite.
Anot.: Ok, o animal.
— Naturalmente, vocês não aceitaram esse convite. — Disse Verônica, que por ser uma pessoa bondosa, confiou no bom senso daqueles dois.
— Claro que aceitamos, Vê. — Disse Bianca, não entendendo a cara de surpresa pelo “aceitamos” e a bufada pelo “Vê” da amizade claramente forçada. — Quando o universo te envia um convite, tu deve aceitar. — Ulisses acenou em concordância com a namorada, que falava em tons dissonantes de esperança de uma menina empolgada com a perturbação de um transtorno pós-traumático.
— Eu segui as mães d’água e Bianca me acompanhou. Fomos pelas curvas e esquinas, mas a caminhada estava um tanto difícil.
— Era como se estivéssemos caminhando em um rio viscoso e sem correntezas, mas não tocamos em uma gota d'água sequer, e daí... — Complementou Bianca.
— A gente foi chegando mais perto da Orla do Guaíba — interrompeu Ulisses — e o ar foi ficando mais denso. Os bichos não apontavam apenas direções, mas sim o trajeto. Onde dobrar, aonde ir reto, onde atravessar, com a maior eficiência possível para nos levar ao destino. Quando chegamos de fato na Orla, as coisas ficaram mais esquisitas. As mães d'água pareciam nos levar em direção à Usina do Gasômetro, mas não conseguimos dar mais nenhum passo, porque a Bianca interrompeu a caminhada.
— É. Eu tive que parar. Algumas vozes, que já tinham começado fracas antes e eu disse para o Ulisses, mas acho que ele não tinha entendido bem...
— É que tu fala baixo, né?
— Verdade, eu tenho que melhorar isso. As vozes começaram a soar mais alto. As falas, eu ouvia, eu entendia as intenções, mas não sabia que língua era. A pronúncia, não consigo nem reproduzir. Sons que talvez não sejam humanos. Mas era uma voz, depois duas e depois três. Elas falavam em cântico e uma quarta voz, baixíssima, mas imponente, parecia murmurar em resposta. Uma criatura das Antigas Eras, eles diziam, e que seu novo sacrifício estava aqui.
— Confuso, né? Ela ouvia e não ouvia. Não dá para saber o que realmente aconteceu e o que foi da cabeça da Bianca.
— Então, a criatura falou algo sobre sentir fome e estar pronta para voltar quando estiver alimentada. Foi aí que as coisas realmente ficaram estranhas.
— Só aí? — Verônica, incrédula.
— Sim! A densidade da atmosfera ficou maior e a viscosidade virou uma gosma verde que caía no chão como se o próprio ar fosse a boca de uma criatura salivando sobre suas presas. Quando algumas gotas dessa saliva caíram sobre o braço de Bianca, a pele dela começou a corroer. — Disse Ulisses.
Continuou: — Senti vontade de correr, mas fiquei bravamente ao seu lado enquanto ela gritava de dor. Após alguns segundos, a névoa gosmenta se dissipou e alguns transeuntes, passeando pela orla, simplesmente apareceram ao nosso olhar, como se sempre estivessem estado ali. — Ele ficou tentando imitar algum tipo de contador de histórias de rua com toda uma teatralidade bosta.
— Aí, apareceu alguém querendo nos levar no posto, mas a gente veio pra cá e fizemos um unguento de cogumelos e óleo de coco, cobrimos com folha de bananeira, mas ardia demais ainda. Tomás quem nos salvou. Com alopatia, ok, mas cuidou do meu braço e nos sugeriu descansar. — Explicou Bianca e tanto ela quanto Ulisses olharam para mim com certa admiração e carinho.
Quando eles registram meus atos como algum tipo de bondade, eu realmente fico em dúvida se estou feliz ou não. O problema é que quando pensam que me importo com eles, se sentem à vontade para se aproximar mais. Eu estava dormindo e ouvi gritos do quarto deles. Cuidei dos ferimentos e mandei dormir para parar de me encher o saco.
— Quando isso começou? — Perguntou Verônica.
— Pelas 22 horas? Acho que foi isso. Hoje, a gente vai lá, durante o dia, tentar entender o que aconteceu. — Ulisses respondeu enquanto Bianca abria a boca.
— Ok, os horários batem. — Verônica me puxou para fora do quarto e fomos até o quintal de trás do condomínio. Após olhar ao redor, para ver se havia ouvidos curiosos, me contou que foi por isso que tinha ido lá.
Então, ela disse que a pétala Dalila tinha sido atacada no dia anterior pelas 22:30. Estava na parada de ônibus, voltando de um “serviço” e o celular estava sem bateria. Um carro preto rapidamente parou na sua frente, abriu a janela e jogou ácido em seu rosto e corpo, para em seguida sair correndo.
Verônica me contou que desta vez o trabalho não seria simples, como ir atrás do culpado e corroer a cara dele na base do soco, mas sim investigar o caso. A ideia até era irmos juntos, conversar com outras vítimas que também passaram pela experiência de Dalila, mas o caso da Bianca era bem peculiar.
Por conta disso, ela decidiu que deveríamos nos separar. Ela acompanharia Bianca e Ulisses, eu iria atrás das outras pétalas e vítimas. Daí, voltamos para o quarto.
Ulisses estava balançando a perna e a Bianca tremeu com a brisa da porta abrindo e fechando. A Verônica disse a eles que era jornalista e os ajudaria com habilidades de investigação. Também contou que uma das… moças… que trabalham na Rosa Branca, uma das casas do Roseiral, e outras mulheres da cidade foram atacadas com ácido e que eu, como segurança dessa “zona”, iria verificar a situação dessas outras vítimas. Ulisses demonstrou algum desconforto por eu escolher trabalho em vez de proteger amigos, se arrumaram e saíram dali.
III.
Anot.: Até aqui, confere com Ver./Tom. Excesso de drama. Ver: decisão correta.
Eu estava acompanhado por duas belas moças para realizar a investigação desse ser profano que salivou sobre minha esposa como se fosse dele. Bianca é uma bela mulher, apesar de não se cuidar, faz sentido deliciar-se sobre sua aparência. A partir do momento que a machuca, se torna um problema.
Começamos nossa investigação indo até o boteco em que eu e Bianca tomamos cerveja na noite anterior e onde as coisas estranhas se iniciaram. Observamos o local, as fachadas fechadas, a sujeira do bar boêmio de uma grande capital abandonada pelos seus responsáveis. Moribundos, caídos nas calçadas — alguns que ali moravam, outros que ali apenas estavam por conta do álcool ter tirado sua vontade, intenção ou capacidade de ir para casa.
O pó, o lixo, o fedor de mijo, todo o ambiente grotesco era usual da Cidade Baixa e nós três nos sentíamos “em casa”. Os resquícios de uma festa que terminou e que aguarda para recomeçar. Um barulho atrapalha a quietude da ressaca, o ranger das portas do boteco se abrindo e um homem de mão enfaixada vindo diretamente nos xingar.
Totalmente desconexo da realidade, nos cobrou da cerveja que não havíamos pago e que saímos andando sem nem responder. Verônica colocou panos quentes na situação ao abrir a carteira. “A senhora nem bebeu, mas está pagando para esse vagabundo? Devia escolher melhor os amigos”. Disse o homem totalmente mão de vaca e ganancioso. Preso aos bens materiais.
Verônica perguntou com mais detalhes o que aconteceu e ele contou que tentou nos chamar, mas o ignoramos e, ao tocar em mim, sua mão começou a queimar. Disse que só não chamava a polícia para não incomodar o resto dos clientes, mas que jamais deveríamos retornar ali ou teríamos problemas. Verônica se desculpou por nós e vi como seu sorriso era jovem, vívido e voluptuoso.
Andamos mais uns passos seguindo o trajeto percorrido na noite anterior. Algumas quadras após, encontramos algumas câmeras de rua e Bianca sugeriu pedirmos as imagens das gravações. Muito ingênua. Verônica foi sagaz e pensou como eu, fez o que eu faria. Ela pegou um celular e tentou hackear os aparelhos. No entanto, aparentemente as lentes só pegaram a escuridão noturna e bêbados caminhando… mas… espera, ali somos nós. Eu e a Bianca estávamos sozinhos naquele momento. Não tinha ninguém na volta.
As imagens começaram a falhar conforme alguns pontos luminosos verdes embaçados apareciam e sumiam. Um chiado. Agora, os ruídos alcançavam notas estranhas. Sons que nunca ouvi em meus estudos de música, grunhidos orgânicos que Bianca nunca ouviu em suas aulas do curso de biologia. Riscos apareceram, tomam formas que não consigo descrever e sumiram.
De novo, pessoas bêbadas, pessoas sóbrias, pessoas se beijando, pessoas tomando fora. Nós já não estávamos na imagem. Notei nesse momento Bianca com os dedos no ouvido e olhos fechados recitando palavras estranhas no mesmo ritmo que alguém conta até dez para se acalmar em uma crise de ansiedade. Quando Verônica perguntou, ela só disse que esse método ajudou na autorregulação emocional desde a noite anterior, mas não fazia na minha frente porque não queria me preocupar.
Bianca gosta de falar essas coisas para eu parecer um namorado ruim. Não entendo muito bem. Continuamos a caminhada, Verônica perguntou à Bianca o que eu quis dizer com histórico na família lá na república e ela contou a história de sua avó. Uma versão completamente diferente da que me contara e que eu passava adiante.
Agora, ela diz que sua avó foi internada por dizer que viu árvores andando, omitindo a parte de bicho-pau. Ainda alega que seu avô fez o que fez apenas para forçar um divórcio e se casar novamente. Sempre o homem como ruim.
Aparentemente, Bianca ainda descobriu — e nunca tinha me contado — que o que sua avó viu foi, na verdade, uma “paxiúba”, espécie de árvore que realmente parece andar enquanto cresce novas raízes. Não é uma planta nativa do Rio Grande do Sul, mas foi trazida da Amazônia por um colecionador excêntrico.
Sua pesquisa da faculdade é tentar entender por que aquela paxiúba estava mais “acelerada” do que o normal, por ter se mexido mais de um metro em um mês. Ora, uma história completamente razoável. Qualquer um que escutasse Bianca após ouvir os relatos que faço sobre ela me fariam parecer um mentiroso, difamador. Não é à toa que sua avó foi internada por ser delirante.
Meus pensamentos angustiantes e justamente inquietantes perante essa tentativa de me fazer parecer um péssimo namorado foram interrompidos por gritos. Um mendigo, ao nos avistar, murmurou palavras inexplicáveis. Desta vez, provavelmente por consequência da sua natureza de mendigo. Ele se levantou apontando o dedo para nós e correu para a direção oposta como o diabo corre da cruz.
Descobrimos apenas a normalidade nas próximas ruas. A normalidade desagradável, repugnante, nojenta, suja, fétida e pútrida de Porto Alegre. No entanto, a normalidade. Pessoas passam de um lado para o outro — rindo, esbravejando, sorrindo, chorando — mas ignorantes à realidade viscosa que seus corpos atravessam sem perceber.
Noto, pela primeira vez, que Verônica está um tanto perturbada e respirando pesado. Ah, acho que ela está assim há mais tempo. Acredito que desde que viu aquelas imagens? É, foram estranhas. A perturbação é injustificável, no entanto. Talvez suas mentes sejam fracas — não… minha mente criativa, profunda e etérea que é forte e foi imune ao feito. As duas moças não têm culpa de serem… pessoas.
Talvez minha tranquilidade com esses seres que parecem querer romper a realidade para chegar à minha esposa exista por conta desta coisa dentro de meu corpo. Algo cuja natureza, intenções, e personalidade desconheço, mas escolheu meu corpo para se alojar. Ainda não a entendo completamente, porém, desde que reconheci sua existência, algo mudou. Essas duas pessoas que me acompanham jamais vão saber o que é carregar um ser em si.
Chegamos finalmente na calçada onde o nosso problema da noite anterior atingiu o ápice. O ar está normal, várias pessoas passeando ao redor, e não há nenhuma voz esquisita além de artistas de rua sem talento. Eu tenho um mercado aberto para mim, pelo jeito.
Deveríamos retornar? Deveríamos ir até a Usina do Gasômetro? Compartilhei minhas ideias e conclusões e ouvi as considerações das meninas a respeito do próximo passo, mas o raciocínio foi interrompido. Verônica, com seu olhar atento e esperto — afinal, por isso que anda com meu amigo Tomás — notou algo estranho no chão e nos apontou.
Uma fileira de formigas que contornava uma gosma esverdeada em um tom indescritível de podre. Verônica pegou sua mochila grande, volumosa e cheia, abriu e retirou um pote de vidro, luvas e uma haste de metal com um material branco na ponta. Ao passar a haste na gosma e a coletá-la, esta não permaneceu. A gosma verde, como se lembrando que não pertence a esta realidade, se desfez no ar em um efeito de fade out para cada gota que Verônica tentou pegar até não restar nada. Os registros de imagens foram inúteis, pois apareceu apenas o chão nas fotos.
IV.
Anot.: Tom.
Estávamos no meio da manhã e o sol quente que fazia Porto Alegre ser chamada de Forno Alegre por seus habitantes torava nas costas de quem ousasse colocar o pé na rua. Eu já tinha fugido desse calor e estava sob o ar condicionado da Rosa Branca, a “casa noturna” do Roseiral localizada na Cidade Baixa, nossa principal “loja”.
No entanto, por mais que a temperatura elevada lá fora machucasse, havia uma dor maior dentro do local. A voz de Dalila parecia se perder em escuridão e vazio de um abismo oceânico, submersos em medo e agonia. As feridas maiores eram na sua mente e não no corpo.
A criatura que a atingiu não acertou muito de sua pele. Acontece que, no momento do ataque, ela havia colocado a mão na frente para tentar bloquear o ácido atirado. Algumas gotas caíram sobre a roupa, deixando apenas poucas marcas diretamente no busto e no antebraço, enquanto outras menores foram na testa e no queixo.
Dalila disse que estava em uma parada de ônibus da Avenida Ipiranga, perto do shopping que tinha o mesmo nome do logradouro, à noite, e uma das luzes do poste tinha começado a falhar. Ela tinha acabado de sair da casa de um cliente e só percebeu que estava sem bateria para chamar uma carona de aplicativo quando saiu de lá. Não conseguiu falar com ele novamente e decidiu pegar um ônibus.
Há pouco, tinha passado uma dupla de brigadianos que estava fazendo ronda e, quando estes já estavam na esquina, aconteceu a situação. O poste terminou de falhar, a lâmpada estourou e um fusca preto apareceu de repente. O carro parou, abriu a janela e ela avistou um humanóide esquisito com uma pele viscosa de cor acinzentada. Ele esticou a mão e jorrou um líquido ácido em Dalila, que logo colocou o braço no rosto e gritou. Antes dele tentar um segundo jorro, os brigadianos vieram correndo. O fusca partiu e correu mesmo recebendo tiros.
Dalila é uma garota nova de idade e nova no Roseiral. Disse que tinha medo de se tratar de uma vingança de algum dos seus clientes após ela rejeitar apaixonados e certos fetiches. Eu não posso descartar a possibilidade, claro, mas em toda minha vida como combatente e guarda-costas deste lugar vi mais ameaças dessas do que ataques. A violência, quando era para ser, era na hora — e poucos se atreviam a machucar uma pétala da Srta. Rosa.
Naquele momento, outra menina se manifestou. Ela havia chegado há pouco e esperou Dalila terminar de contar a história para falar. Segundo ela, uma amiga sua, Rosana, tinha passado por uma situação parecida na noite anterior, mas estava hospitalizada. O ácido atingiu seu rosto inteiro, inclusive os olhos, e a cegueira seria definitiva.
Não seria conveniente conversar com Rosana, mas com seu namorado, que estava junto, talvez fosse. Segui imediatamente para o hospital onde ela estava internada, ali no bairro Menino Deus, a fim de começar as buscas a partir dali, já que a pétala não tinha o contato do namorado de Rosana e eu sou um analfabeto digital, daí não dava para chamar nas redes sociais. Por sorte, o responsável pela emergência naquele turno era um conhecido meu. O Dr. Rodolfo era pai de uma menina menor que havia sido sequestrada e tentaram “vender” para o Roseiral alguns meses atrás.
Localizei o namorado, que tinha acabado de trocar o posto de acompanhante com o irmão de Rosana e fora almoçar. O segui sorrateiramente até o restaurante da esquina e sentei à sua frente. Ele estava tremendo em ódio e tristeza, mas quando me viu, o caos ficou maior. Parecia uma chaleira fumegante que acabara de ser tapada e começara a tremer no lugar sem saber se explodia ou não.
Logo, me apresentei — ao menos no que importa a alguém da Superfície — e expliquei que estava atrás de quem fez aquilo com Dalila e, também, Rosana. Anderson parecia desconfiado, mas, ao mesmo tempo, aliviado de poder falar sobre isso com alguém. Então, ele me contou seu relato.
Os dois, Anderson e Rosana, estavam saindo de uma consulta com sua nutricionista, coincidentemente também na Avenida Ipiranga, na frente do conjunto de prédios comerciais que tinha por lá. O último horário que viu, ainda no elevador, foi 22:25, pouco antes de Dalila ter sido atacada.
Quando na calçada, estavam sob uma iluminação já fraca e notei que ele não mencionou o fenômeno de lâmpada estourando não aconteceu. Um fusca preto se aproximou e parou. Saíram do carro duas figuras. A primeira, a princípio uma pessoa, usando uma túnica verde-musgo e que parecia com pressa, a ponto de deixar cair uns papéis que estavam no veículo. A segunda, um humanoide esquisito, de pele viscosa cinza, e umas antenas penduradas na cabeça. A figura, por si só, talvez fosse ridícula em outra situação, mas o clima pouco colabora para gozar do mesmo.
Ao ver que o homem da túnica veio em sua direção, Anderson conseguiu golpeá-lo na boca do estômago e o empurrá-lo para o lado. A criatura humanóide estava lentamente, mas a passos duros e longos, se aproximando de Rosana, que, com medo, gritava e se afastava. A guria se virou para correr, mas a criatura não a permitiu ir longe.
O ser estranho abriu a boca, proferiu palavras indecifráveis com um tom de voz horrendo que acertaram os ouvidos de Rosana como uma sniper de som, e ela caiu no chão. Anderson tentou agarrar a criatura, mas este desviou e o olhou sem qualquer expressão. O humanoide não fazia outros sons, não falava, não parecia nem mesmo respirar. Se mexia com assertividade e dureza, indiferente a qualquer obstáculo, e socou o estômago de Anderson, repetindo o golpe que seu motorista tinha recebido.
Anderson se levantou com esforço e agilidade que conseguia, mas não a tempo de impedir o humanoide de agarrar Rosana no chão e jorrar ácido sobre seu rosto. Algo pior ainda parecia que ia ocorrer quando o barulho do tecido da blusa de Rosana rompeu os gemidos dela e de seu marido. O ser, no entanto, foi interrompido quando um grupo de três pessoas usando terno preto e óculos escuros, no calor e escuro da noite de verão, apareceu no horizonte. Em seguida, Anderson desmaiou e acordou na emergência com Rosana.
Me levantei, paguei o almoço de Anderson e fui embora. Notei alguns padrões nas histórias, mas queria confirmar antes de tirar conclusões. Algo me dizia que Bianca, Dalila e Rosana não teriam sido as últimas vítimas.
Fui até o Centro Histórico que estava com o baixo movimento do sábado à tarde tradicional de Porto Alegre. Entre as ruas e becos com maior fedor de mijo, a pior esquina da Avenida Farrapos tinha um bar que estava sempre aberto para quem soubesse onde ficava sua entrada. Como um dos clientes mais frequentes, não precisava nem girar a maçaneta. A porta se abriu para mim.
Por dentro, a situação era outra. Carpete vermelho, paredes cobertas de garrafas, móveis de ébano e cerejeira, sofás de couro autêntico, barris de carvalho que pareciam fontes infinitas de cerveja. Não existia martelada na cabeça que não tivesse remédio em um martelinho daquele bar.
O dono, Capeletti, era a marmota mais eficiente e famosa do estado quando o assunto era bebidas alcoólicas. Não arriava para nenhuma entrega, não importasse a dificuldade. Fazia negócios com pessoas da Superfície sem qualquer medo do Véu da Ignorância, pois seu trabalho era tão sigiloso que nem mesmo os maiores conhecedores do Submundo sabiam de onde vinham seus pedidos.
A garçonete, uma antiga… amiga… minha já estava servindo o chopp de sempre enquanto eu me dirigia ao balcão. Ela falou algo do chopp estar quase tão gelado quanto eu, mas não entendi muito bem. De qualquer forma, após cumprimentar os poucos presentes, me pus a beber enquanto pensava nas histórias.
Peguei uns rabiscos do bolso. Eu tinha pedido para Dalila e Anderson tentarem desenhar a figura. Naquele momento, senti uma batida no ombro. Um outro cliente recorrente do bar disse que reconhecia a criatura. Sua irmã tinha sido atacada, mas conseguiu fugir a tempo. O horário? 23:40. Local? Perto das Rótulas das Cuias, a “obra de arte” apelidada de “Politeta” pelos porto-alegrenses e que, coincidentemente, ficava na continuação da Ipiranga.
Minha amiga se aproximou com expressões confusas. Ela parecia satisfeita que um hiperfoco seu, casos obscuros, virou pauta de discussão. Só que também estava horrorizada com o motivo disso acontecer.
Me indicou ir até o acervo da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, lá no Menino Deus, e ler sobre os casos do ano de 1999, quando pessoas teriam morrido por ácido derramado em seus corpos. Ao terminar meu caneco, decidi que seguiria o conselho, mas pedi mais um chopp antes de ir andando para a biblioteca.
V.
Anot.: Ul.
O sol estava ardendo no topo do céu fazendo meu corpo derreter e a agonia que me queimava vinha além do medo da insolação. A perda de água fez algo sob minha pele e carne se mexer, tremer, dar súbitos movimentos de agitação — invisíveis, mas tateáveis. Não íamos conseguir mais informações parados ali, então decidimos ir a um restaurante almoçar.
Continuamos a caminhar pela orla em busca de alguma sombra, ainda que o prefeito tenha retirado quase todas as árvores do local. Vimos quiosques oferecendo diferentes pratos superfaturados em que nenhum de nós três tinha interesse em desperdiçar dinheiro, logo passamos reto. Seguimos nesse caminho em direção ao Centro Histórico. Na entrada do bairro, já tem restaurantes e botecos para nos abrigar e satisfazer a fome.
Conforme nos aproximávamos do Centro, também nos aproximávamos da praça que ficava no caminho, a Brigadeiro Sampaio. Estava rolando uma Feira de Cultura Peruana e o cheiro dos alimentos nos atraiu. Escolhemos nosso destino.
Pedimos porções de causa limeña (“escondidinho” peruano), anticucho (espetinho de coração de boi) e lomo saltado (prato sinoperuano de carne preparada como yakisoba e servida com batata frita). Bianca tentou me lembrar de que eu havia “parado de comer carne” e eu a lembrei que veganismo já é algo ultrapassado. Hoje a verdadeira conexão com a natureza é através do consumo de carnes purificadas.
Eu me conecto todos os dias com o plasma universal para que o sofrimento dos animais que eu venha a consumir seja substituído pelo regozijo de ser sacramentado e levado para reencarnar em um planeta melhor. Não é a mesma selvageria e brutalidade com que Verônica morde aquele coração que segura com as mãos. Pensei que fosse uma bela mulher, mas é muito animalesca.
Sua saliva cai gota a gota sobre a carne ainda não mordiscada e antecipa a corrosão que ocorrerá na digestão do seu estômago. Ela para de comer quando um som de notificação toca no celular. Limpa as mãos e escreve um SMS. Deve ser para Tomás, que ainda rejeita os smartphones. Um dia eu e Bianca transcenderemos como ele nessa desnecessidade da tecnologia. É um ponto que devo dizer onde ele é superior.
A única com dificuldades em se alimentar é Bianca. Ela mexe com a comida devagar. As feridas do ácido ainda causam dores no antebraço e ela não corta, não garfa, não pega o alimento direito. Ao mesmo tempo, ela não tira o olhar de uma mesa que está no outro canto onde um rapaz corta a carne do prato de sua namorada, que coincidentemente está com os braços enfaixados. Eu fico feliz.
Bianca reconhece a maturidade da nossa relação onde eu não preciso agir como seu pai. Ela tem dificuldades, mas é uma mulher independente dentro de um limite. Não precisa de macho para isso. Finalmente, Verônica quebrou o silêncio.
A ruiva pergunta se em algum momento sentimos aquelas luzes, vozes e fenômenos nos conduzindo em direção à água. Afinal, fomos até a orla e paramos por lá. Eu e Bianca explicamos, mais uma vez, só que mais pausada e didaticamente, que não.
Reforçamos que, na nossa caminhada, fomos até a Orla e primeiro dobramos à direita antes do fenômeno começar. Bianca explica que a cada passo que deram sentia aquela força sendo maior com uma pressão vindo justamente da direção para a qual estávamos indo. Vê explica que Tomás estava investigando os casos de mulheres atacadas com ácido por um estranho de túnica e uma criatura de pele cinza.
Ela complementa que, junto com Tomás, chegou à conclusão de que esses ataques estavam seguindo um percurso, similar ao nosso, também em direção à orla e, depois, dobrando à direita. Me irrita o quão baixo ela fala sobre esse assunto.
Eu e Bianca elevamos a voz para ver se conseguimos todos falar mais alto. Minha namorada revela que nossa caminhada recente também havia despertado sensações nela. Sentia a mesma pressão que sentira no dia anterior, apenas mais fraca. E sentia que se aproximava da fonte conforme percorríamos a orla e ao atravessarmos a rua para a praça, sentiu enfraquecer. Eu pedi para que ela apontasse de onde vinha essa energia agora e ela apontou para a Usina do Gasômetro.
Verônica prontamente começou a mandar mensagens e murmurou Srta. Rosa. Lembrei que ela mencionou que Tomás estava investigando ataques às prostitutas do puteiro em que trabalha. Será que Srta. Rosa é uma delas? Enfim, devem estar atualizando informações.
Ela disse algo sobre deixarmos o Tomás dar continuidade a partir daqui e eu fortemente me opus. Bianca concordou e disse que deveríamos levar às autoridades, mas logo eu e Verônica também nos opusemos. Se fosse por isso, também deixaria para o Tomás. O guarda-costas de um puteiro me parece mais interessado na segurança das putas do que a polícia. Eu não queria deixar tudo nas mãos do meu amigo nem deixar quem atacou minha amada sem provar da minha própria fúria.
Verônica diz que não sabemos o que estamos enfrentando e eu disse que era bobagem. Sinto que dentro de mim há algo não natural e posso acabar com qualquer perigo. A preocupação dela é legítima, normal fêmeas quererem a proteção. Eu propus um brainstorm: eu e Bianca primeiro revimos toda a questão sobrenatural que passamos para não deixar nenhum detalhe de fora. Segundo, começamos a especular a origem de tudo isso.
O terror de Bianca e minha empolgação atraiu o olhar de pessoas à volta. Ela às vezes me apoia na arte e gostei como ela fez atuação de método usando o próprio trauma para me ajudar a atrair pessoas para a minha narrativa. É assim que pretendo conduzir meu teatro de rua. Apenas Verônica se mostrou ansiosa com tantos olhares. Medo de palco?
Uma moça peruana se aproximou. Se apresentou como Rubi e como a pessoa que estava coordenando a feira. Achou que estávamos fazendo brainstorm para alguma obra narrativa e disse que o que falamos não era muito estranho para ela. Havia ouvido e lido esse tipo de história na infância e na adolescência lá no Peru.
Bianca, com toda sua xenofobia de guria branca de apartamento, disse que fazia sentido, parecia coisa de povo tradicional e antigo peruano. Rubi se mostrou bem desconfortável com os comentários e ignorou, ainda bem. Imagina passar mais vergonha por causa dessa minha namorada. Enfim, a indígena contou que havia lido Lovecraft, um autor dos Estados Unidos, e que essa história que estávamos elaborando parecia ter se inspirado no homem.
Puxei no celular qual seria a biblioteca com melhor acervo de Lovecraft em Porto Alegre e a resposta foi a Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães. Verônica sugeriu vermos apenas PDFs, mas eu duvido que dados sejam o mesmo que papel na hora de uma pesquisa. Decidimos ir para a biblioteca pesquisar. Por mais que fosse um autor de ficção, algo poderia inspirar uma resposta. Verônica pareceu aliviada quando mencionei ser literatura. Acho que, talvez, no fundo, seja uma mulher aculturada.
VI.
Anot.: Tom.
Não conseguia parar de beber conforme pensava na história toda. Três canecos de chopp nunca foram um problema para mim. Cada gole de chopp parecia me colocar mais dentro da situação. Talvez tenham sido mais do que três canecos, porque só saí de lá chutado.
Não era para eu estar tão tonto quando saí daquele lugar. Eu sentia que algo estava chamando meu nome de longe, mas eu não sabia a origem. Na verdade, meus passos estão normais, é minha mente que parece estar tropeçando. Conforme me afastava do Centro Histórico, a voz ficava mais distante. Com o fim dos chamados, uma angústia começou a surgir em meu peito.
Uma dor cada vez mais forte batia em meu peito conforme eu caminhava. Algumas imagens em movimento apareceram perante meus olhos. Uma grande árvore avermelhada surgiu em minha frente e quase bati a cabeça.
Suas raízes estavam expostas e destruídas. Metade, cortada em fatias com a seiva escorrendo pela terra. Outra metade, corroída, ao passo que era transplantada por um enxerto que surgia do nada.
Uma buzina me acordou e eu estava no meio da Avenida Érico Veríssimo, onde ficava localizada a biblioteca para a qual me dirigia. Recuperei meus sentidos e voltei a caminhar, apressado. A tontura tinha passado, apenas a confusão pós-experiência permanecia. Quando cheguei na biblioteca, fui recebido por uma bibliotecária de presença firme e olheiras profundas de exaustão. Ela me perguntou se eu estava ali para as sessões de RPG ou troca de livros, mas logo disse que queria ver o acervo de jornais.
Renata, como se apresentou, me levou até uma mesa com uma tela onde é possível passar diversas edições de jornais antigos em papel. Queria chegar em notícias do ano de 1999 e para isso precisei passar edição por edição. Apesar da vontade de passar tudo o mais rápido que dava, aquela agonia interior voltei e passei a folhear devagar edição por edição, dia a dia. Por sorte, só precisava me preocupar com um jornal, o Correio da Hora, apontado pela minha amiga.
Em certo momento, meu dedo travou e me deparei com uma manchete. Não é uma notícia de 1999 ou 2000, mas sim de 2016. Algo recente que contava uma história que, em outro contexto, eu trataria apenas como uma piada.
“‘ET de Passo Fundo’ é preso suspeito de atacar pessoas com ácido para chamar atenção do prefeito” Egeno Vasconcela
Um empresário de 48 anos foi preso em Curitiba suspeito de atacar cinco pessoas com ácido sulfúrico contaminado com sais de cobre e resíduos orgânicos em Porto Alegre, em junho deste ano. Entre as vítimas estão cinco mulheres — prostitutas, uma delas teve queimaduras no rosto — escolhidas de maneira aleatória por ele.
Apelidado de ‘ET de Passo Fundo’, foi detido na última sexta-feira (4) em sua casa. Diz que teria descido dos céus com os foguetes enviados pela Nasa em Rio Grande no passado e queria viver em paz com os humanos. No entanto, após ser ‘descoberto’ no vídeo hoax de suposto ET em Passo Fundo, se disse exposto e resolveu atacar.
O objetivo de Ricardo Flores, como foi identificado pela polícia, era chamar a atenção do Prefeito para autorizar a passagem de poder da cidade para seu nome. Apesar da polícia entender que se trata de alguém sem boas faculdades mentais, o considerou perigoso e está preso de forma preventiva, mesmo sob o protesto de seu advogado, Dr. Andrei Fernandes.”
A princípio parecia só um doido qualquer e, bem, uma vez preso, a história se fechava. Talvez os ataques recentes fossem de outro doido inspirado por ele? Ou talvez ele tenha sido solto e voltou a atacar? Mas… tinha algo que não batia com a história da Bianca e… fui ver as notícias de 1999 como a minha amiga da taverna tinha sugerido. Seria o criminoso original que inspirou todos? Era isso que eu queria descobrir.
Desta vez nada me travava enquanto eu passava as notícias mais rápido. Eu afundei o dedo a quase estragar o botão até que a bibliotecária, que parecia irritada, me mostrou que tinha como passar mês a mês ou ano a ano. Fui até 1999 e, aos poucos, cheguei no que precisava.
“Engenheiro e empresário é preso suspeito de encomendar morte de prostituta
Pedido de prisão temporária foi cumprido contra homem de 20 anos. Caso é investigado pela polícia do Rio Grande do Sul
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul prendeu nesta quarta-feira (29), José Maria, um jovem engenheiro de 20 anos, por suspeita de participar do assassinato de uma prostituta em Porto Alegre.
Segundo investigações, o suspeito, que não teve identidade revelada, teria participação e conhecimento do crime. Ele seria o membro único de um culto que tentara estabelecer em volta de Kaustíōn (Καυστίων), um ser que ele dizia ser de outra existência. As ligações com o ocultismo foram reveladas quando os a Polícia Civil teve acesso aos pertences de José Maria.
Daniela R., de 19 anos, foi encontrada desfigurada e aos pedaços na trajetória de saída de seu local de trabalho (não revelado). Seu 90% do seu corpo tinha sumido e havia uma substância ácida derramada pelo chão e pelas partes que sobraram. Ao menos, segundo relato, pois a polícia não conseguiu fotografar ou coletar o material, que evaporava até sumir conforme coletavam.
A suspeita caiu sobre o engenheiro, pois um dia antes da morte Daniela havia registrado um Boletim de Ocorrência por perseguição. A jovem reportou que José Maria tinha sido seu cliente um ano e meio antes, se apaixonou e não aceitou quando ela saiu da prostituição para iniciar um relacionamento.
José Maria teria se distanciado depois de um tempo, mas dois meses após ela ter dado à luz e voltado a trabalhar (permaneceu na casa noturna como atendente), voltou a aparecer e ameaçá-la.
No quarto de José Maria, foram encontrados convites para pessoas integrarem seu culto e uma estatueta à mão de uma mãe d’água verde cujo corpo parecia ser feito de líquido, além de uma boca com presas, algo não existente em mães d’água.
O advogado de José Maria, Dr. Andrei Fernandes, alegou que seu cliente passara sim do ponto com as ameaças e era excêntrico, mas se fosse por isso, teria que ser preso por assassinato todo mundo que ‘já rezou para alguém morrer’. José Maria foi liberado.”
Essa segunda notícia estava me deixando ainda mais incomodado com o que aconteceu e nada me tirava da cabeça que tinha ligação direta com as visões que tive mais tarde naquele dia, conforme relatarei mais à frente.
Uma angústia me passou a cada palavra, letra e pontuação dessa notícia. Algo muito errado estava naquelas linhas e eu não sabia o que era. Não a morte de origem desconhecida, não a maluquice do fanático. Havia algo me afetando pessoalmente e a agonia, a raiva, o ódio subiam. Precisei respirar fundo, pois eu sentia a eletricidade começar a percorrer meu corpo e afetar os equipamentos à volta, chamuscar livros, como se filamentos de eletricidade se espalhassem em choques estáticos pelo ar.
Puxei a racionalidade para pensar. Eu não sabia se o advogado ser o mesmo era uma coincidência maior do que os ataques a mulheres usando ácido. Quando decidi sair para pensar, a bibliotecária veio com olhar estranho e pediu num tom que misturava ordem e súplica para “rebobinar” as notícias para as mais atuais.
Foi nesse momento que me deparei com uma terceira notícia impactante. Desta vez, de pouco tempo atrás. Dezembro de 2019, final do ano passado. O tal do ET de Passo Fundo que estava preso de forma definitiva tinha conseguido fugir da cadeia, com as grades e outras passagens corroídas por um ácido não identificado que sumia no ar quando alguém tocava.
Como se não bastasse tudo isso, cheguei na agenda cultural do jornal impressa para este final de semana. Uma Feira de Tecnologia e Inovação que estava ocorrendo na Usina do Gasômetro desde o dia anterior, promovida pela EPI-Mago. Essa empresa não era estranha e lembrei rapidamente.
É uma facção do submundo com quem já lidamos antes. Muito inovadores para promover equipamentos de EPI para trabalhadores do submundo. No entanto, suas invenções sempre apresentavam alguma falha grave que impedia a suposta genialidade se concretizar. A Feira fazia sentido, parecem manjar de teoria, mas na prática, venderiam apenas cursos e mentoria.
O release com o convite, no entanto, tinha um tom estranho que parecia tentar persuadir, conquistar pessoas para além de relações comerciais. Tons de repetição, palavras sem sentido misturadas nas frases em português e que faziam minha mente ficar vidrada no texto que estava lendo. Havia até esquecido da agonia e raiva de minutos atrás, mas a ira voltou no final. Um convite para a palestra do CEO e Engenheiro José Maria.
Quase quebrei meu celular quando recebi o teu SMS sem sentido, Srta. Rosa. Me pareceu bem sem noção tu me informar que tinha marcado uma luta para mim no pré-ingresso do Circuito Proto-Humano. Querer me desviar do caminho agora mesmo? De qualquer forma, me acalmei quando vi informações sobre a luta.
Usina do Gasômetro, à noite, contra o “ET de Passo Fundo” da EPI-Mago.
Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu só sabia que queria bater em alguém. E apareceu alguém para eu bater. Coincidentemente, aquele que representava a origem do meu ódio. Na saída, avistei, por meio das estantes, Ulisses, Bianca e Verônica, que tinham acabado de chegar na biblioteca. Desviei deles enquanto estavam distraídos falando alto sobre magias, criaturas e coisas que, porra, Verônica, não era para falar em voz alta. Obs.: E era o que eu tava tentando fazer, cacete!
Saí e fui em direção à Usina do Gasômetro.
VII.
Anot.: Ul.
Chamamos um carro de aplicativo para ir à biblioteca. Eu queria pegar um ônibus, mas Verônica insistiu em um ar condicionado para enfrentar o Forno Alegre. Eu concordo plenamente, ainda mais se ela estava disposta a pagar.
A viagem foi curta, mas também foi longa. O motorista tentou puxar assunto com Bianca a respeito do braço enfaixado. Perguntou detalhes e pediu para ver o ferimento. Foi bastante desconfortável para ela e ainda mais para mim. Ver minha esposa ferida sem poder fazer nada é humilhante.
O motorista comentou ser enfermeiro e que deveríamos limpar o ferimento, trocar a faixa, conforme nos ensinaram na emergência. Disse que era visível que não tratávamos das feridas há horas. Bom, ninguém nos ensinou nada na emergência, porque não fomos lá e fizemos tudo por conta.
Quem ele era para me ensinar a cuidar da minha mulher? Se não era hora para trocar, não era. No entanto, Verônica disse que não sabia da frequência correta, mas tinha os equipamentos e sabia trocar. Que mulher insistente!
Ao chegarmos no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues, onde fica a biblioteca, vimos Tomás entrando. Eu e Bianca estávamos prontos a chamar nosso amigo e Vê nos interrompeu. Disse que era melhor deixá-lo operando sozinho, pois ele pensa melhor assim. Era o que eu ia dizer. Bianca e Verônica apenas atrapalhariam o seu raciocínio.
As duas, primeiro, se dirigiram ao banheiro. Foram trocar as faixas, aplicar curativo e toda essa frescura. Ouvi uns gemidos. Espero que seja de dor e não de outras coisas. De qualquer forma, eu estava sentindo algo agoniante dentro de mim.
Uma pressão estranha. Como se eu estivesse dentro de uma piscina sem fundo, mergulhando cada vez mais. A água, verde, espessa, viscosa, me engolia cada vez mais. Senti uma irritação física. Meu corpo inteiro começou a arder devagar e aumentou conforme afundo mais nesse líquido. Estou só. Não. Mães-d’água, medusas e outros animais parecidos aparecem à volta, rodeando meu corpo como urubus.
PAH
A batida da porta do banheiro me despertou. Eu descrevo o que tinha acabado de ver para Bianca e ela compara um pouco com o tipo de pressão e energia que sentira antes. Disse que parecia entrar em um líquido viscoso de uma “piscina vertical”. Ela não me escuta, como esperado de sua personalidade. Situações completamente diferentes.
Uma bibliotecária se aproxima. Cansada e agitada ao mesmo tempo. Diz que nos ouviu conversando e que se estamos interessados no RPG de terror era só irmos em uma certa sala da biblioteca. Lá, Madame Marie estaria mestrando Call of Cthulhu.
O timing foi curioso, mas pura coincidência. Dispensamos o jogo, mas aceitamos instruções de onde estão os livros de Lovecraft. Parecia uma boa forma de começar, como eu pensei e como Vê sugeriu logo depois.
Pegamos todas as obras disponíveis na biblioteca e colocamos em uma pilha. Foi difícil me concentrar com tanta gente gritando na sala de RPG, imitando piratas, freiras e guerreiros medievais. Mandei Bianca pedir para baixarem o volume, mesmo com Vê dizendo que nem estavam falando tão alto.
Página por página, lemos os nomes Cthulhu, Dagon, Azathoth… nenhuma dessas criaturas e histórias ressoava com o que estávamos experimentando. Eu sentia um vazio em todas as leituras. O máximo que me cutucou foram as menções ao livro fictício Necronomicon. Tem uma criatura de ácido, mas não se parece nada com o que experienciamos.
Deixamos a literatura de lado e fomos aos livros teóricos. Pessoas discutindo Lovecraft, racismo, xenofobia, arqueologia, teoria literária, horror cósmico, horror, e Conan, o Bárbaro. Tem livros de pessoas tentando colocar todo o imaginário de Lovecraft e seguidores no mesmo universo ficcional. Nada que nos respondesse os anseios.
O que mais me chamou a atenção foi um glossário de Lovecraft. Criaturas, lugares, pessoas e conceitos. No entanto, nada parecia se conectar tão diretamente com o que estávamos buscando. Me sentia perdido e conectado ao mesmo tempo.
Aos poucos, me vi imerso novamente naquele líquido viscoso e, da superfície, vejo uma sombra se aproximando. Várias, na verdade. Filamentos pretos, hifas com aspecto sanguinoso, descendiam e começavam a me abraçar. Algumas delas se espalhavam e começavam a estrangular as mães d'água devagar, ao mesmo tempo que as hifas eram corroídas pelo ácido do qual esses animais eram feitos.
Anot.: Ver + perto.
Conforme eu me aproximava do sol da superfície, eu voltava aos meus sentidos e um insight ocorreu. Despertei, levantei e fui até as pessoas jogando RPG. Um deles me perguntou se eu tinha ido ali gritar e fazer barulho com eles, mas ignorei. Olhei para Madame Marie, título que Samanta usava para mestrar RPG, e perguntei o quanto ela conhecia aquele universo de Lovecraft.
Todos riram em tons diferentes e em deboche, com Madame Marie soltando um pequeno sorriso. Eu comecei a descrever os fenômenos que estavam ocorrendo comigo e com Bianca. Nas primeiras palavras, permaneceram as gargalhadas, mas nas seguintes, o clima começou a pesar.
Madame Marie disse que o que eu procurava não tinha ido para a ficção porque o Necronomicon era poderoso e vasto demais para uma pessoa cobrir em toda sua vida. Seu olhar era sério. Necronomicon não é um livro fictício? Ela, então, diz que suas representações sim, mas é um grimório legítimo.
Anot.: Invest. Mme. Marie/Samanta
Assustado, mas achando estranho, interrompi um riso pela metade quando vi que todos estavam sérios na mesa. Espanto, medo, olhares de reprovação e de curiosidade. É como se sugerissem que eu estava indo longe demais.
Madame Marie respondeu a questionamentos diretos de seus jogadores. Disse que era tarde demais e que já que estávamos tão envolvidos, que era melhor dar uma chance de saber o que estava ocorrendo. Me contou que o que eu descrevi soava com a criatura Kaustíōn, uma mãe d'água cujo corpo seria feito de ácido e que possuía uma mandíbula.
Ao absorver criaturas, Kaustíōn consegue obter memórias, informações, histórias e sentimentos experimentados por elas. Por ser uma mãe d'água, não é capaz de sentir ou pensar de forma complexa — por isso, sente fome e devora tudo o que permite compensar essas falhas. Opera atraindo mentes curiosas e ambiciosas, oferecendo conhecimento em troca de sacrifícios. Quanto mais inteligente ou traumatizada for uma criatura, mais apetitosa ela é para Kaustíōn.
Perguntei como ela sabia de tudo isso e como enfrentar a criatura. A resposta foi objetiva. Não sabe, provavelmente não tem como. Se tiver, a informação está no Necronomicon, que inclusive tem uma edição na mesma biblioteca, doação de Marie para o acervo especial.
Anot.: Informação oculta msm da minha rede.
Ouvi um resmungo vindo de trás. Era Verônica com olhar de raiva e preocupação ao mesmo tempo. Fitava Madame Marie, que parecia confusa sem saber de onde vinha essa raiva. Ao mesmo tempo, ela enviava mensagens pelo celular sem olhar para a tela.
Anot.: Por isso tanto erro de digitação…
Eu agradeci a Madame Marie e disse que ia falar com a bibliotecária, mas a mulher me parou. Avisou que eu deveria usar outro termo em vez de Necronomicon e me falou uma palavra difícil de pronunciar, quanto mais de escrever. Repeti umas três vezes e ainda não cheguei lá, mas ela disse ser suficiente.
Saí da sala do RPG após Verônica, que logo foi confrontada pela Bianca que pediu que ela não fizesse nada comigo sem avisar antes, porque é nosso combinado. Agradeço pela confiança e admiração de minha mulher de que sou atraente, mas Vê claramente não tem o mesmo bom gosto que ela. De qualquer forma, fomos até a bibliotecária Flávia, que tinha nos recebido, para quem citei o livro do qual eu estava atrás.
Os três seguimos enquanto ela descia as escadas para o andar debaixo, depois entramos na sala de secretaria e ela fechou a porta. Se dirigiu a uma estante de livros, depois se virou para nós e falou seriamente, com tom professoral, como se lidando com crianças “nem todos aqui são do Submundo e poucos do Submundo sabem sobre isso”. Submundo é gente do RPG? Em seguida, olhou especificamente para Verônica e disse “é melhor que se mantenha assim”.
Esta última fala foi com voz cômica, mas ao mesmo tempo, parecia pesada por trás. Uma ameaça que nenhum de nós queria enfrentar. Decidi que respeitaria a opinião da mulher, como homem que sou.
Anot.: E deixou a informação em um papel jogado…
Flávia se virou para a estante novamente e puxou uma sequência de livros. As estantes se moveram como portas de correr. Uma câmara com poucas obras, mas aparentemente antigas, toda empoeirada e com cadeiras quebradas. Ela foi até a única parte limpa, um pequeno escritório, e abriu o livro de registros.
Um tapa acertou minha mão quando tentei puxar um livro da estante. Era Verônica que disse que era melhor não mexer com o que não conhecia. Achei ousado, até gostei, e talvez essa seja sua forma de cuidado feminino.
A tensão no ar começou. Desta vez, não era eu mergulhando no oceano gelatinoso — era o fluído invadindo a câmara em que estávamos, junto com mães d'água nadando por esse mar de ácido. As gurias se mostraram abismadas. Verônica reclamou de pequenos ferimentos de queimação, enquanto Bianca começava a berrar de dor e desespero. Parecia estar revivendo o trauma, mas precisava tanto? A única indiferente era Flávia, que resmungou algo do tipo “toda hora isso, saco”. No fim, fechou o livro e todos os elementos sobrenaturais sumiram.
Bianca estava no chão, encolhida, enquanto Verônica tentava acalmá-la e, sem seguida, foi surpreendida por ver que não tinha nenhum ferimento em sua pele. Flávia respirou fundo, levantou Bianca e deu um bombom para ela. Disse algo como “pronto, pronto”.
Em seguida, nos informou que o Necronomicon não estava lá e que alguém estava com atraso para devolver. O atrasadinho, como ela falou, era um tal de José Maria, um engenheiro metido que achava que ia tirar do livro a solução para suas invenções mirabolantes. Verônica disse que então era melhor ir embora e aguardar, mas Flávia disse que ia pessoalmente buscar e colocou a mão no cinto, onde um coldre antigo repousava. Eu realmente não sei de onde isso apareceu.
Apareceu outra bibliotecária na porta, uma tal de Renata, falando rápido e em tom de reprovação que não, que a Flávia não ia deixar ela sozinha justamente neste sábado. Discutiram algo sobre chamar profissionais de busca e apreensão. Polícia? Flávia foi até uma gaveta de arquivo na mesa limpa, pegou e abriu uma pasta e retirou uma foto. Mostrou para Vê. Verônica é policial?
Flávia disse que sabe quem ela é e disse que pagaria bem. De qualquer forma, por mais confuso que eu esteja, Verônica ainda é uma mulher e o caso envolve a mim e minha esposa. Preciso estar envolvido e deixei bem claro que seguiria Verônica nessa busca.
Bianca insistiu para ficarmos em casa e eu agradeci a preocupação comigo. Disse que se o trauma dela impedisse de avançar, era válido para não nos seguir, mas que era melhor enfrentar de frente. Bianca quem deveria nos acompanhar.
Renata falou que a busca deveria ser feita o quanto antes e com cobrança de multa pelo atraso da devolução. Já era noite, mas Renata disse que era o melhor horário para encontrar pessoas com livros obscuros e pegá-los de volta. Perguntei o endereço do tal José e recebi, mas Renata disse que sua casa não era o melhor lugar.
A bibliotecária de olhar maciço, que parecia bater com um martelo toda vez que te reprovava, entregou um panfleto. Tratava-se de um evento: uma Feira de Tecnologia e Inovação promovida pela empresa EPI-Mago, cujo CEO era justamente José Maria, que daria a palestra de encerramento do dia. A feira estava ocorrendo na Usina do Gasômetro — e Bianca tremeu só de ouvir — e era para lá que nós íamos.
VIII.
Anot.: Tom.
Eu estava disposto a sair correndo, mas a Srta. Rosa mandou um carro. Achou que, na minha raiva, eu poderia causar alguns acidentes. Meus poderes estão ressoando cada vez mais com os meus sentimentos, apesar de ainda não me obedecerem. Refletindo agora, é um saco que, em meus treinos, pareça que Verônica, Srta. Rosa e qualquer um saiba mais de mim do que eu mesmo.
Apesar da distração de agora, naquele momento eu estava com pensamento fixo. Raiva. Ódio. Espancar. Isso estava pessoal demais e eu ainda não entendia o motivo. Claro, tenho algum dever e simpatia pelas pessoas do Roseiral para além do trabalho — mas parecia que o ataque todo tivesse sido diretamente na minha alma.
Conforme o pneu rodava e esquentava o asfalto, imagens rodavam na minha cabeça e esquentavam meus punhos. Precisei de muito esforço para que meus poderes não explodissem o veículo. Por sorte, o motorista era pessoal de Srta. Rosa.
Fiquei surpreso quando descobri que a proposta de combate estivesse vindo do outro lado. A Srta. Rosa falou sobre contas a acertar, acabar com os vestígios da tragédia e ser o ápice da história toda, e que eu era um filho da puta — palavras do tal José Maria. Eu também sentia isso em meu âmago.
A angústia parecia estar tomando forma. As fotos do tal ET de Passo fundo me deixavam ainda mais enfurecido. Um homem esquisito em uma roupa cinza colada com um revólver infantil cheio de ácido. Como aquele cara se tornou o proto-humano representante de um cultista paranormal e ousou me desafiar?
Me subestimarem dessa forma era uma segunda camada. Não bastasse o ódio que eu tinha de José Maria pelo que eu não sei, ele dobrou a aposta ao me confrontar com um infeliz esquizofrênico que acha que é um et. Um homenzinho esquisito que eu derrotaria sem qualquer habilidade extra.
O carro chegou ao destino: o estacionamento da Usina do Gasômetro. Eu abri a porta e comecei a me sentir ainda mais desconfortável e irritado. A agonia e a ira me faziam tremer e espumar, ao mesmo tempo que eu sentia vontade de rir. Um palhaço me esperava como testa de ferro de uma das pessoas que mais me despertaram ódio até hoje.
Estava tudo apagado e a porta da Usina do Gasômetro entreaberta. Caminhei, entrei e dei alguns passos. Vi algumas pequenas luzes vermelhas aqui e ali. Certo. Pessoal ou não, ainda é um combate de entretenimento para esses porcos covardes. Em algum lugar, tem uma banda tocando ao vivo e sendo transmitido ao mesmo tempo que este confronto.
Uma risada estridente e irritante ressoou. Olhei para a fonte: o mezanino do segundo andar. Alguns holofotes se acenderam e ele estava ali. Um pouco mais corpulento do que nas fotos. A roupa toda feita de borracha que cobria o corpo todo, exceto rosto, e uma antena saindo do centro da touca.
A risada a seguir foi minha. Ri com a risada mais grave que já tinha rido em minha vida. Aquele ser desprezível ousava me desafiar e José Maria se escondendo. “Tu é o caralho do ET de Passo Fundo? A coisa mais ridícula que já vi em minha vida”.
Olhei para uma câmera. Eu não sabia quem eram todos os que me assistiam, mas sabia de um deles. Eu senti toda a ira, apontei minha palma para o ET, acumulei todos meus sentimentos e consegui gerar uma imensa esfera de eletricidade vermelha — que disparei em um feixe sem tirar os olhos da câmera.
A estrutura toda à volta do feixe foi repelida e destruída. Se o dano colateral no que estava no caminho foi esse, imagine tu o efeito sobre meu alvo. Desapontado, odioso, me virei de costas em direção à porta. Acabou, não estava satisfeito, precisava do sangue de José Maria em minhas mãos. E foi aí que uma mão feminina me parou (eu não vi, apenas senti) por dois segundos e me virou a tempo de me defender.
Uma pisada de coturno com sola de espinhos de ferro voando em minha cara, que defendi com os braços cruzados, mas não sem ser jogado para trás. “Eu não sou o ET de Passo Fundo, já avisei meu sacerdote que sou o GRANDE AVATAR DO DEUS KAUSTÍŌN” gritou o louquinho enquanto me chutava. Só entendi o que aconteceu ali depois da luta, quando Verônica me mostrou parte da gravação. O ET ativou algum tipo de cinto que soltou uma garra, o prendeu no teto e o permitiu se balançar para cair em mim.
Aquele doido realmente queria me tirar do sério em vez de entender o lugar dele. Eu só não sabia como ele ainda estava quase intacto. Quase, pois o rosto estava com queimaduras e inchaço, mas o resto inteiro estava sem qualquer sinal de danos. Foi aí que ele riu dizendo que sua “pele de borracha” e uma camada “subcutânea” de “aço emborrachado” o protegiam de choques elétricos e impactos fortes.
Decidi verificar o quão resistente o cara era e corri em sua direção. Ele puxou dois revólveres de brinquedo do nada e começou a atirar ácido em mim. Eu sabia o que aquilo era capaz de fazer e primeiro tentei defletir com minha eletricidade. Muitos tiros meus falharam e outros usaram energia demais, fui acertado e recebi queimaduras, me forçando a correr em ziguezague para escapar dos tiros assim que me recuperei.
Quando estava próximo, tive que me arriscar. Rolei e saltei em sua direção. Minhas mãos extremamente fortes e poderosas bateram como facas de aço nos dedos do ET enquanto eu dei uma cabeçada em seu rosto. Ali não tinha camada subcutânea de qualquer merda que ele inventou da sua mente doentia.
Enquanto ele estava tonto, resolvi testar um combo que há um tempo estava bolando com ajuda de Verônica. Eu ginguei um pouco para pegar impulso e dei uma estrelinha para trás enquanto chutava o ET para cima, com um segundo chute logo em seguida, o arremessando para cima. Fiquei de pé rapidamente e dei três socos no ar. Infelizmente, apenas o terceiro funcionou — disparei uma bola de energia que acertou como uma extensão do soco — e ainda foi bem fraco.
Bom, quando ele cair no chão, acabou, né? Foi o que pensei. Ele se levantou rindo com sua voz estridente. Puxou correntes cobertas com ácido e começou a balançar no ar como tentáculos de uma mãe d’água sem qualquer graciosidade.
Doeu. Doeu cada correntada e suas gotas de ácido que conseguiam ultrapassar a roupa ou acertar meu rosto. Logo, viraram apenas correntes, pois todo o ácido tinha escorrido e consegui arrancar de suas mãos.
Quando vejo, o filho da puta estava segurando a respiração e soltando tudo em um grito que se transformou em um canhão de som. Fiquei em dúvida entre proteger a audição ou minha posição, acabei optando pelo segundo e, se não fosse pela regeneração do XPTO depois, eu estaria com perda auditiva até agora.
A seguir, nem percebi quando ele se jogou e me socou na boca, em seguida no estômago, com um chute no fim com seus coturnos e seus espinhos de metal. Logo, me agarrou e tentou me levantar, mas, aparentemente, seus equipamentos de EPI implantados não davam força aos músculos. Não conseguiu.
Eu o puxei pelos ombros enquanto levantava meu joelho para acertá-lo no peito e tentar quebrar suas costelas. No entanto, realmente tinha algo mais resistente ali e nada se fragmentou, apesar de que tenho certeza que ele sentiu dor. Não era para um filho da puta de merda desses me dar tanto trabalho. Teria que lutar a sério contra um palhaço e isso estava me deixando ainda mais puto. Dei mais três joelhadas e o arremessei para longe.
Enquanto ele se levantava, usei o tempo para pensar rápido e olhar o cenário ao meu redor. Eu não conseguia realmente impacta-lo ou eletrocutá-lo, mas um bosta desses tinha que ter fraquezas. Por um motivo muito estranho, lembrei de quando eu ainda era criança e meu pai foi arrumar algo na fiação de casa usando luvas de borracha, mas um curto rápido fez o material derreter e o ferir.
Notei uma estátua de madeira dos Lanceiros Negros logo ao lado do “ET de Varginha”, “de Vagina”, “Bilu”, qualquer merda assim. As lanças em si eram de ferro e tive uma ideia. Corri em disparada ignorando os xingamentos e bravatas em voz estridente do “metido a alienígena” e cheguei na parte da escultura onde um homem segurava sua lança com apenas uma mão.
A madeira era maciça e quebrei na altura do pulso. Ao mesmo tempo, o “Soda Cáusticon” tava puto e me chamando de arrogante. Eu? Eu só coloco meus adversários no lugar deles, abaixo de mim, e agora o estava levando a sério. O abobado deveria levar como um privilégio e se curvar.
Apesar de estar de costas, minha concentração era tão grande que conseguia sentir a minha volta com campo magnético. Essa sensação em si era fraca ainda e não sei se conseguirei de novo, mas o conselho da Verônica de respirar fundo e tentar manter a mente atenta deu certo na mistura de ira estabilizada em que eu estava. Funcionou para o que eu precisava.
Peguei o punho que carregava a lança e virei para o “ET Xilofone” lá. Era esse o nome do grande deus do caralho voador? Tanto faz. Corri e bati nele com a lança várias vezes, ouvindo o som de metal chocando com metal, mas ainda abafado por ser um… aço emborrachado? Sei lá o que é isso.
Notei algo que, na raiva, não tinha percebido até então. A cada golpe, ele sorria mais de prazer. Meus socos e pancadas o faziam ficar excitado. Era a inércia que o fazia ficar puto. De qualquer forma, ele começou a revidar.
Apertou o seu cinto que apareceu do nada e um gancho foi disparado, furando minha barriga pela lateral e, por sorte, sem pegar em nenhum órgão interno. Ele me puxou e tive que ceder para não ter um pedaço de carne arrancada. Antes de eu virar a lança para o et, ele mesmo agiu, disparando lâminas de corte que me feriram em várias partes enquanto eu tentava defleti-las. Eram realmente afiadas e senti até uma costela ser lascada.
Cobri um dedo de eletricidade e consegui captar um disco no ar pelo buraco, mas ele continuou girando com a energia que coloquei e puxei para cortar a corda que me puxava. Eu estava ferido, cansado e irritado. Peguei a lança pela mão de madeira e depositei toda energia que eu conseguia. Colocar eletricidade demais não era problema naquele momento, pelo contrário, e eu estava me exaurindo para além do que seria saudável, mas para finalizar o combate, fazia sentido.
A eletricidade vermelha aumentou o calor da lança de metal a ponto de começar a chamuscar a madeira maciça e eu comecei a golpear o ET. Dessa vez, consegui fazer cortes em sua roupa de borracha que derretia com temperatura tão alta. Os golpes estavam limpos e causando mais estrago do que eu previ. Finalizei arremessando a lança, que acertou seu peito bem no meio.
Foi nesse momento que caí de joelhos de tanto cansaço, mas a adrenalina e a raiva ainda não me permitiam sentir dor. Eu estava pronto para gritar um desafio diretamente a José Maria quando uma sensação horrível começou em minha mente. As janelas e portas de vidro estouraram enquanto um líquido viscoso verde começou a inundar o local.
De uma porta ao fundo, um ser usando uma túnica apareceu, recitando palavras estranhas que eu não entendia nada. Seu rosto demorou para ficar reconhecível para mim na explosão de sensações, mas eu entendi quem era: José Maria.
Aquele líquido começou a me agonizar cada vez mais. Me sentia me afogando em um mar de ácido que entrava por nariz e boca para me queimar por dentro. Não deveria ter som algum — debaixo do líquido e eu de ouvido estourado — mas as palavras continuavam a chegar em mim. O esquisito metido a et começou a rir e, mesmo quase inaudível, essa voz estridente e irritante conseguia me causar muito desconforto. Entre risadas, palavras arrogantes eram legíveis em seus lábios dizendo que me faria me curvar.
Mães d'água começaram a surgir enquanto o ET começava a flutuar no líquido. Sua pele e sua roupa também derretiam, mas ele não parecia se importar. Seu rosto começou a mudar, ficar gelatinoso, e seus membros verdes-translúcidos. A cabeça começava a inflar.
A sensação do ácido derretendo meu corpo cada vez mais só era suprimida pela sensação de agonia e ira no meu peito. Minha mente parecia explodir com palavras aparecendo em runas. Algumas eu entendia e outras não. Vislumbrei mares, criaturas, planetas. Estava me sentindo cada vez mais perturbado.
Sumiu.
Tudo. Toda a piração, do nada, sumiu. O líquido verde nunca esteve ali, as janelas estavam inteiras, meu corpo não tinha nenhum ferimento que teria surgido após meu golpe final. José Maria estava parado, pálido, de olhos esbugalhados. A única coisa que restava materialmente da experiência foi o Et de Passo Fundo estar com partes do corpo desfiguradas. O cara estava de joelhos, chorando em desespero, clamando pela volta de Quem o abandonou.
Eu não sei o que aconteceu. Aquele ácido que ele me jogou no início da batalha devia estar com toxinas. Talvez algum gás jogado no ar. De alguma forma, eles me provocaram uma alucinação muito grande. Enquanto eu relato esta cena, Verônica diz que tem coisas para me contar, mas não quer me ver pirar de vez nem atrapalhar meu relatório. Sei lá, mas sei que foi uma experiência muito doida.
Novamente, esse tipo de reflexão só estou fazendo agora. Na hora eu estava confuso, com raiva, com taquicardia, com sangue nos olhos, com fome, com adrenalina e a dor começava a aparecer para dobrar as outras sensações. Estava na hora de acabar com tudo.
Eu caminhei até o ET de Passo Fundo. Devagar, mas objetivo e firme. Ele não tinha como escapar dessa vez. Senti uma mão feminina leve tentando me parar com gentileza e firmeza, mas desculpa, não vai ser possível.
Cheguei perto, puxei a touca do homem para trás, coloquei a mão entre os seus cabelos, e segurei sua cabeça. O ergui o mais alto e distante possível e encarei seus olhos chorosos. Gritei com toda minha alma e realizei uma lobotomia com eletrochoque na intensidade proporcional à grandiosidade que ele achava ter.
Soltei no chão aquele pedaço de carvão queimado preso a um pescoço. Me virei para José Maria que ainda estava catatônico. Corri com todo resto de energia que eu tinha em sua direção, mas fui interceptado por uma mulher usando terno preto que me agarrou e me segurou no chão.
Eu estava sem forças e não conseguia me levantar. Sentia apenas raiva da interrupção. Apareceram alguns “homens de preto” que rodearam José Maria. Minha audição já estava voltando aos poucos e entendi algo sobre ele ter interferido demais na Superfície e desafiado o Véu da Ignorância.
Em seguida, um deles pegou uma pistola a laser e disparou na testa de José Maria, que caiu como papel quando um furo atravessou sua cabeça. Finalmente entendi por que eu o odiava tanto, mas nunca mais vou poder demonstrar. Derrota.
Logo em seguida apareceu Bombcorn do nada, atirando pipocas e acompanhado de umas pessoas com canhões de papel colorido, música e celebração da minha vitória em batalha. Esta parte só vi em vídeo. Filhos da puta.
IX.
Anot.: Ul.
Eu parei para pensar melhor e disse à Bianca que ela não deveria vir junto nessa busca. Nem a Verônica devia ir. As duas foram firmes sobre estarem presentes. Bianca, em especial, disse que jamais me deixaria sozinho e que queria usar sua ligação com a coisa para tentar obter pistas.
Saímos da biblioteca e Tomás estava parado na frente com o celular na mão. Parecia impaciente, talvez seu aplicativo estivesse demorando a chegar. Quando fui falar seu nome, ele saiu correndo para o carro que acabara de chegar. A reação foi tão rápida que algumas faíscas… vermelhas? …se formaram quando subitamente se mexeu.
Nosso carro apareceu uns três minutos depois. Eu estava bastante curioso com o que Tomás estava fazendo e onde a investigação dele ia parar. Realmente acho que deveríamos ser os dois, mas Verônica insistiu que ele era mais útil em outro lugar.
Durante o caminho, Bianca começou a gemer de dor. Havíamos trocado o curativo mais uma vez antes de sair da biblioteca, mas o medicamento não estava dando conta. A dor talvez não fosse em seu braço. Eu entendo, estava me sentindo bastante perturbado também. Verônica parecia irritada, nervosa e preocupada. No entanto, não parecia ser uma vítima direta.
Chegamos no estacionamento da Usina do Gasômetro e um carro estava manobrando para sair conforme entrávamos. Reconheci como o mesmo veículo em que Tomás tinha subido. Olhei para a porta da Usina, onde alguém estava passando. Então ele estava indo pela porta da frente? Deveríamos ir pela porta de trás?
Eu começava a sentir pequenas agonias na minha mente, como tentáculos que tentavam abraçar meu cérebro. No entanto, algo os fez recuar e eu não tinha certeza do quê. Descemos do carro.
Comecei a me perguntar: se eu fosse um cultista maluco com um grimório poderoso que acabou de dar uma palestra de tecnologia em uma estrutura grande e antiga, onde eu estaria agora? Talvez teria ido para casa. Não, a lógica sozinha não operava naquele dia. Estava claro que tinha algo escondido ali.
A chaminé da usina fica do lado de fora, não em cima do prédio, e vem desde o chão por motivos óbvios. Os gasodutos passam por baixo da terra até ali, onde as substâncias não utilizadas pela usina, quando era ativa, seriam desprezadas. Há alguns anos, tinha um café que usava aquele espaço.
Também tinham outras portas de entrada atrás e na lateral da Usina. Uma era a entrada para os armazéns, a outra para o que seria o escritório antigamente. A primeira opção pareceu mais certa entre essas duas.
Escutei um trovão e vi uma luz vermelha vindo de dentro da Usina. Eu quis ver o que era, mas Verônica me parou de novo. Ainda escreveu algo no celular enquanto falava “Trovão Vermelho… boa…”. Não entendi, mas compreendi que devia confiar em Tomás e cumprir a minha parte: interromper José Maria de continuar fazendo o que estivesse fazendo.
Verônica disse que não tínhamos mais tempo a perder e correu em direção à base da chaminé. Seguimos. Precisaríamos tentar algo. As portas, no entanto, estavam trancadas com um cadeado eletrônico. Peguei uma pedra para bater e, de novo, fui interrompido.
A ruiva confiantemente pegou um segundo celular na mochila, um grampo e um cartão de banco, mexeu no cadeado e destrancou. Jornalista o cacete. Tem algo de errado nessa mulher e só eu estou reparando. Bianca fica preocupada demais, tremendo e sentindo agonia.
A porta se abre, entramos, Verônica a fecha. As luzes se acendem e em vez de resquícios empoeirados da estrutura de um café, encontramos um alçapão aberto e uma escada de pedra descendente em caracol. Começamos degrau a degrau, comigo na frente, Bianca no meio e Verônica atrás.
As luzes vão se acendendo e isso me dá mais medo do que o escuro. Não devíamos estar ali e isso denunciaria a nossa presença. Após dois metros, chegamos a um espaço circular, mas em vez da continuação das paredes de ferro da chaminé, estávamos perante tijolos de pedra antigos de formas geométricas indescritíveis.
Em vez da luz amarela das lâmpadas, velas com chamas verdes iluminavam o lugar e, em nossa frente, um túnel de pedra. Tenho certeza de que isso não foi construído com a Usina, mas ao mesmo tempo, tudo parecia mais antigo do que a própria cidade… do que o próprio país…
Enquanto andávamos, vimos runas cravadas nas paredes úmidas, de língua que nenhum de nós soube identificar. Não era aramaico, grego, sumério… Mas, por ao menos três vezes, Bianca olhou para uma runa, sussurrou uma palavra cujo som não era identificável, e se esqueceu do que acabara de falar.
Chegamos em uma câmara onde havia várias estátuas de mães d’água e de pessoas em túnicas. Outros túneis partiam dali. Algumas mesas de escritório com computadores, apetrechos tecnológicos modernos, equipamentos de EPI. No centro, uma mesa de pedra com algemas nas quatro pontas e grandes manchas de sangue cobrindo o móvel.
Verônica pegou um papel e começou a ler. “Ecolocalizador para mineradores. Ainda não conseguimos regular a potência com precisão. Vamos substituir parte das cordas vocais do Avatar por este aparelho”. Outros papéis com escritos e desenhos orientavam cirurgias e implantes em um homem. “Eu queria ter a honra de ser o Avatar, mas depois do que fizemos aqui com o Escolhido, entendi que só Ele poderia passar por isso.” dizia um e-mail que ainda tentava ser enviado.
Foi aí que vi que os computadores estavam sem internet. Todos olhamos os celulares e eles estavam sem rede. O relógio também estava descompassado tanto entre si quanto em comparação aos relógios dos monitores. Por fim, notamos que os computadores não estavam ligados em nenhuma tomada.
Continuamos nossa caminhada pelo túnel maior e chegamos a outra câmara, agora retangular, e já não estávamos mais sozinhos. Quatro homens usando túnicas estavam ajoelhados rezando para quatro estátuas na parede. Cada imagem representava uma sequência de uma mãe d’água recebendo pessoas como oferendas, devorando, absorvendo suas mentes e devolvendo parte aos seus cultistas.
Suas rezas eram na língua que não entendíamos bulhufas. No final do corredor, havia duas estantes de livros e um púlpito. A nossa presença não parecia incomodar aqueles homens, pelo contrário. Rápidos olhares eram feitos em direção de Bianca, seguidos de risadas.
Bianca não estava mais afundada em um mar de ácido e agonia — pelo contrário, disse que se sentia abraçada por ele. Que o calor em sua pele agora a confortava e estava começando ter prazer de estar ali. Ok, deu. Ela tinha que ir embora. No entanto, ficou muito enfurecida quando eu sugeri essa possibilidade.
Fomos até os livros… Evangelho de São Cipriano, Arquitetura de Espaços Liminares (Backrooms), assim como outros livros e objetos que me causaram mais terror do que os museus do holocausto e do ocultismo nazista. As obras eram um desafio à humanidade desde sua composição física. As páginas dos diversos livros não estavam escritas apenas em papel ou materiais pouco convencionais, como algas, plástico e até metal, mas também peles de animais e humanos, assim como outros que não parecem de origem terrestre.
Identifiquei o Necronomicon e coloquei no púlpito. Estranhamente, a capa estava escrita com runas, mas eu consegui ler sem dificuldades. Verônica estava a dois metros de mim, disse que algo a incomodava só de estar perto do livro. Não senti nada, deve ser medo.
Ao abrir o livro, as pessoas encapuzadas riram e Verônica me pediu para fechar novamente e pensarmos antes de continuar. Bianca me olhava com pavor e excitação ao mesmo tempo, pedia que eu prosseguisse. Eu estava no automático, meu corpo se mexia sozinho e nas duas direções. As pernas me fincavam, as mãos folheavam e os olhos procuravam algo, mas o coração, o pulmão e a garganta queriam interromper imediatamente.
Cheguei na página cuja capa estava Kaustíōn ilustrada. Seu nome estava escrito nas runas indecifráveis, tal como o subtítulo que dizia “e todos vocês deveriam se curvar” e o texto do capítulo em seguida. Comecei a ler de forma clara e ágil, mas meu cérebro não processava o que estava escrito. A cada palavra, as pessoas na minha frente repetiam suas reações em looping.
Os encapuzados riam e rezavam, Verônica gritava desesperada e jogava objetos em mim, Bianca fazia os dois — ria e gritava em desespero — e meu interior se retorcia. O ar começou a ficar mais denso e as pequenas correntes de vento, esverdeadas.
Bianca começava a ficar cada vez mais histérica, gotículas verdes de ácido viscoso se formavam no ar e caíam sobre sua pele. A saliva daquela criatura estava escorrendo cada vez mais e em seguida já não eram mais gotas, mas fios inteiros despejados. Bianca gritava em confusão e dor, sua roupa e sua carne sendo corroídas e não mais apenas superficialmente. Eu não conseguia parar, mesmo que meu próprio corpo estivesse querendo me parar.
Verônica jogou objetos pesados e senti minha cabeça sofrendo batidas que deveriam ser capazes de me desmaiar. Eu não parava de ler, não tinha mais controle algum. Alguma coisa dentro de mim se mexia enfurecida e pareceu ganhar mais força. Senti minha garganta e cordas vocais sendo trancadas por dentro enquanto filamentos pretos saíam pela minha boca e seguravam minha língua e lábios.
A câmara começou a ser inundada com um líquido verde, como se o próprio Rio Guaíba estivesse transbordando e vazando água para aqueles túneis. Enquanto o líquido escorria, eu fiquei calado à força, Bianca se retorcia no chão, Verônica suspirava pela pausa e os homens em túnica se mostraram descontentes. Esporos.
Antes da água estranha subir o nível, aqueles fios que saíam de minha boca cobriram parte do meu rosto, geraram pequenos cogumelos vermelhos e soltaram esporos. Esses esporos deixaram todos sedados por alguns segundos antes de voltar às reações anteriores. Com exceção de mim, que tive uma ideia do que fazer.
Folheei rapidamente o capítulo de Kaustíōn até o final, virei o livro de cabeça para baixo e comecei a ler em voz alta — algo que aquele ser dentro de mim permitiu. Entendi que estava dando certo quando o ácido sobre Bianca acelerou, mas diminuiu o fluxo, como se correndo para terminar o trabalho. Ao mesmo tempo que a água começou a vir com mais força.
Os homens ficaram irritados e vieram em nossa direção segurando adagas e proferindo palavras estranhas. A câmara concluiu a inundação com aquele ácido viscoso que queimava nossas peles. Eu não podia parar a leitura, porque se Aquilo estava irritado, é porque eu estava na direção certa.
Verônica pegou um martelo em sua mochila e começou a trocar golpes com aqueles homens. Ela não parecia ser uma grande artista marcial, mas mesmo com aquele objeto pesado, tinha mais finesse do que aqueles homens. A ruiva tentava gritar algo para mim, mas estava difícil escutá-la.
Os inimigos presentes, no entanto, aumentaram de número. Mães d'água surgiram e atacavam a nós dois. Verônica estava já com dificuldades de lutar contra quatro humanos, as criaturas dificultavam mais. Da minha parte, aquele micélio começou a sair, timidamente, de outros poros, e atacar as mães d’água ao meu redor. Não eram ataques efetivos, visto que as hifas eram frágeis e a condição piorava com o ácido, mas conseguiram evitar que eu sofresse mais ferimentos do que estava sofrendo.
As queimaduras estavam doloridas, mas o alívio de saber que finalmente estava fazendo algo de bom pela mulher que amo e nunca mereceu ser o alvo do meu ressentimento me fazia continuar. Só eu poderia salvar Bianca de seu sofrimento perante esse ser. Eu queria fazer Kaustíōn e seus seguidores se curvar perante mim.
Só não conseguiria fazer isso ainda, pois à medida que lia, entendi que para Kaustíōn, não éramos mais do que uma pequena migalha tentando engasgá-lo em um banquete. A partir do momento que ela pigarreasse, já não existiríamos mais. Eu li, até o fim, e a raiva, o medo, o desespero, e as energias interdimensionais que nos permeavam pareceram acelerar o crescimento dessa coisa dentro de mim.
Quando finalmente li a última palavra, sumiu.
As mães d’água, o mar de ácido e a energia que mantinha aqueles homens em pé. Verônica caiu cansada, os quatro caíram mortos, Bianca já estava no chão, e eu não sabia o que tinha acontecido comigo e por que aquelas hifas e cogumelos ainda estavam sobre meu corpo, ainda que recuando aos poucos.
Fui embora.
Salvar a alma, a mente e o corpo de Bianca me custou a minha própria integridade física e mental. Os monstros externos dela só puderam ser combatidos porque aceitei meus monstros internos. Quando li aquele maldito livro e citei sua poesia abissal, as perturbações mudaram de vítima e algoz.
Neste momento, escrevo tudo isso diretamente da poltrona do lado de Bianca no hospital. Só consegui entrar aqui usando os “backrooms” que conheci do livro que peguei. Não podia deixar que ela visse o monstro que eu havia me tornado tentando protegê-la. Já não sei mais se sou um grande herói ou um grande vilão. Enfiem o teatro no cu.