Volta de Ulisses
— Corre, então, corre, antes que dê merda! — diz Ulisses para si mesmo.
Pessoas na rua se afastam conforme aquela pessoa suja de sangue na boca, com dente caído, feridas em vários lugares do corpo, roupa suja e rasgada, tremendo o corpo como se dançasse o copérnico (mas balançando as pernas e os braços também, ou seja, dançando errado), corre de forma estranha. De forma reta, de forma oblíqua, certa vez até cai de costas e tenta correr para o céu.
— Aah, mas eu vou pegar aquela vadia antes que esse SOL EXPLODA o mundo. Mas vou falar tudo que tenho pra falar. E depois ela vai entender, pedir desculpas, me abraçar e vamos morrer juntos quando o SOL CAIR NAS NOSSAS CABEÇAS.
A última parte, “sol cair nas nossas cabeças”, saiu bem audível. Crianças na pracinha se assustaram, mas depois riram e ficaram repetindo a frase. Isso chegou aos ouvidos de Ulisses, como a voz de passarinhos repetindo e repetindo a frase. Eles estão rindo, pois poderão voar para longe quando isso acontecer.
— Grrrr…. Aurh, arugg — cachorros nas casas, nas coleiras na rua, e também os guaipecas soltos, latiam e davam corridões em Ulisses. Um chegou a dar uma mordida na coxa do guri, que retribuiu com um chute na cabeça e depois correndo mais rápido que os cachorros, apesar da ferida latejando.
Os demônios enviados do Sol não iam interrompê-lo de fazer o que tinha que ser feito. Ele precisava avisar a todo mundo e ao seu amor que o mundo ia acabar e precisavam fazer alguma coisa sobre isso.
— VAI BOTAR UMA ROUPA, MENDIGO! — Seu Carlos gritou do bolicho para Ulisses, que estava com a roupa toda rasgada, sem bermuda mais e a cueca por um fio. Isso, o que o velho da puta não entende, é o que dá mais dinâmica para que corra e salte sobre o carro que quase o atropelou agora. Ele foi salvo pela sorte, deve ser a LUA abraçando ele. Ela sabe o que ele deve fazer: avisar seu grande amor, Bianca, de que o mundo está acabando e eles precisam estar juntos.
Ulisses estava errado, a Bianca não queria magoá-lo nem é uma vadia. É um amorzinho, seu grande amor. Só está preocupada e desconhece o que tá acontecendo. Deve estar naqueles dias e seus hormônios mexendo com sua cabeça. Era só ela tomar chá de orquídea com mel que melhorava, ele já tinha ensinado a receita, mas pode ter acabado. Só pode ser isso, OU ELA É MESMO UMA GRANDE FILHA DA PUTA QUE — POW, POW, POW — TRANCOU A PORTA DA RUA PARA ELE NÃOO ENTRAR MAIS.
Ulisses jogava seu corpo contra a porta tentando abri-la. A maçaneta já não deu, então teria que empurrar com todo o corpo. Uma batida, duas batidas, três batidas, até que a batida foi na cara dele mesmo quando Jairo Jorge abriu a porta em sua direção, para fora.
— Que merda é essa, Ulisses? Tu não tem chave? Por que tá tentando arrombar a porta, seu drogadito arrombado? Ela abre pra fora, esqueceu?
— Não tenho tempo pra ti, seu merda. — Diz Ulisses para Jairo Jorge, passando rápido por ele e tropeçando no degrau da escada.
Agora, pensando bem, esse velho filho da puta deve estar envolvido com tudo isso. Se ele quem estava na porta, ele quem trancou para impedir Ulisses de entrar e ver seu amor. Deve ser isso. Bianca não é uma vadia, Jairo Jorge que queria humilhá-lo por ser um seguidor do Sol Negro Explosivo.
Ulisses se levanta, mais quebrado do que já estava. Talvez Bianca saiba de tudo isso esteja dando para Jairo Jorge e está no comando por trás de tudo. Ou não, são duas hipóteses extremamente válidas que precisam ser avaliadas de forma racional antes de uma conclusão. Só que os gnomos devem ter jogado um feitiço nele, pois não consegue parar e pensar.
Ele precisa de uma ajuda, do seu grande amigo e irmão Tomás, que até deixou a porta aberta para que escondesse em seu quarto. Talvez seja um bunker, um portal secreto, ou Tomás saiu para resolver a Nuvem Roxa Caindo e já volta para conversar. Só que Ulisses precisa se acalmar enquanto isso e, veja, Tomás pensou até nisso. Essa seringa verde com plantinhas vivas que se mexem dentro. Devem ser a cura,, um calmante, ou então um ampliador de mentes e está ali só para ele. Ulisses pega a seringa, mira no braço e…
Pré Combate
— Aaaaaah, eu só precisava dessa mijada antes da luta. — Diz Tomás para si mesmo de dentro do banheiro improvisado perto das arquibancadas. Enquanto lava as mãos, escuta a banda lá fora testando o som.
O grupo musical é contratado dos anfitriões do evento, a Carpe&Die, que além de ser a responsável por organizar as lutas no 1º Território, que pertence a esse grupo e que abrange bairros como Cidade Baixa, Centro e Menino Deus, costuma ser até contratada pelos outros grupos para auxiliar nos seus torneios, devido à sua espertize com eventos e espetáculos como esse. De forma geral, são um grande cover de AC/DC, mas também tocam músicas próprias e de outros grupos. É o tipo de som que Tomás gosta.
Ao lavar as mãos e sair do banheiro, quase esbarra em uma mulher usando terno preto e óculos escuros. O visual estranho à noite disfarça bem seu rosto e a mistura no meio dos outros Homens de Preto, que já estão agindo aos poucos conduzindo transeuntes para outros caminho e tentando controlar exageros dos presentes. O Véu da Ignorância é muito eficaz ao esconder o Submundo perante pessoas que olhem diretamente para ele, mas se olharem demais… melhor os Homens de Preto estarem lá para não olharem demais.
— POW, POW, POW, MEU POW-VO! — uma figura extravagante no meio da arena grita no microfone enquanto joga milhos de pipoca que estouram no ar, como fogos de artifício. Bombcorn, o mestre de cerimônias — ESTÁ CHEGANDO O GRANDE MOMENTO DA NOITE… Uma luuuuta de doooois candidatos a entrarem no Circuito de Proto-Humanos… Ferroaaaada e… Tomás? Esse cara nem tem um nome legal ainda.
As pessoas ali presente se agitam, com Verônica e umas duas “pétalas” da Srta. Rosa pagas para estarem ali gritam o nome de Tomás da plateia. Alguns gritam Ferroada. No entanto, o que a maior parte grita é que quer ver o pau comer.
— Os dois estão passando pelo desafio de entrar no circuito, uma sequência de lutas em que, se vencerem três delas, estarão aptos a serem reconhecidos como Proto-Humanos e dignos de se candidatarem a serem reconhecidos como campeões. Mas se perderem três antes disso… só ano que vem. Isso é, se as derrotas não forem… totais! VOCÊS QUEREM VER TIRO, PORRADA, E BOMBA HOJE?
— SIIIIIIIIIIIIIIIM!
— Muito bem… Não esqueçam de quem são nossos patrocinadores hoje. Roseiral, o grupo da cortesãs de luxo representado neste combate por Tomás Vachet. Montino Facas, Espetos e Churrasco, seu melhor corte, que demonstrará isso hoje com Ferroada. GoWeb NewAge, que faz a transmissão por toda SubNet para nossos espectadores que assistem de casa. Por fim, Carpe&Die, a melhor anfitriã e rede de casas noturnas. Uma SALMA DE PALVAS — e joga milho que estoura e vira pipoca para a plateia, que levanta seus potes enquanto tenta bater palmas ao mesmo tempo, de forma atrapalhada.
— Hmm… hoje vai ter vazio, costela e picanha. — Um homem cheio de próteses metálicas pelo corpo se aproxima do Mestre de Cerimônias, pega o microfone e faz sua fala apontando um dedo para Tomás Vachet, que se dirige na mesma direção. Durante o apontamento, a lâmina se projeta por cima do braço de Ferroada.
— OOOOOOPaa, já começamos com as provocações. — Diz o mestre de cerimônias. — Vai responder alguma coisa, Tomás? — Bombcorn aponta o microfone para Tomás enquanto ele se aproxima.
Tomás, no entanto, empurra devagar o microfone contra Bombcorn, enquanto passa reto e chega cara a cara com Ferroada. Durante a caminhada, os dois se encaram furiosamente em uma tensão crescente. Com o rosto próximo, Tomás dá uma risada irônica e solta um arroto enorme que toda arena conseguiu ouvir, mesmo sem o microfone.
— A TENSÃO ESTÁ GRANDE MINHA GENTE, MAS A LUTA NÃO COMEÇA AQUI — Diz Bombcorn se intrometendo entre os dois. — Olha, a briga é lá dentro. Posicionem-se senhores, pois já vou dar o início ao conflito, esperem só para mais uns recadinhos.
Os dois dão as costas e entram na arena, cada um por uma porta, que logo é fechada e começa a soltar descargas de eletricidade vermelha. Cada um senta no chão em um canto e ficam se encarando.
— Essa é a quarta luta de Ferroada, que já conta com duas vitórias e uma derrota. Se vencer esta, o veremos novamente nos torneios de território, no torneio regional e outras competições. Como podem ver, é um homem com próteses e lâminas pelo corpo. Agora, Tomás, é sua estreia até na fase de pré-ingresso. Um campeão imbatível das lutas de pessoas, começa hoje sua jornada nesse mundo, após ter adquirido aprimoramento nas suas habilidades físicas através de… — a voz de Bombcorn baixa enquanto Angélica, uma das “pétalas” de Srta. Rosa cochicha em seu ouvido. — Gente, informações novas aqui. Parece que Tomás não tem habilidade ou qualquer característica Proto-Humana.
A plateia toda grita “ooooohhh” e todos olham para Tomás incrédulos com variadas expressões de surpresa. Entre as reações, está a de Ferroada, que franze sua testa e começa a bufar.
— Tá me tirando? Tu vem me enfrentar sem nada? Sem uma arma, sem um poderzinho tirado do cu? Tu sabe que eu te matar pode ser que nem conte ponto para mim, eu perca meu tempo, e ganhe menos? Tá me subestimando, rapaz?
— Eu não preciso de merda nenhuma pra encher tua cara de porrada, aberração.
Então, Ferroada se irrita e parte para cima de Tomás com suas lâminas, ativando memórias Tomás. Sabe, é que assistir a uma facada em segunda pessoa — ou seja, tu é o alvo — é traumatizante, mas essa experiência pode ser pior quando engatilha uma memória de outra facada, de uma vez que tu viu em terceira pessoa, sendo desferida em alguém que tu amas. Só quando é contigo, tu quem cai no chão sangrando no final, com pessoas gritando “usa essa merda” enquanto apontam para uma seringa com líquido verde.
O braço levanta e estica, a mão abre para pegar a seringa…