A falta de reconhecimento é uma das coisas mais frustrantes que existem. Eu passei as últimas noites arriscando minha vida lutando contra bandidos e tentando ajudar o máximo de pessoas possível, no entanto, todo o meu sacrifício estava sendo ignorado.
Suspirei de forma pesada enquanto assistia à televisão na sala do apartamento.
— Você tá bem? — Minha mãe perguntou, passando pelo corredor, segurando em suas mãos um prato cheio de biscoitos.
— Sim. — Respondi tendo quase esquecido que ela já tinha voltado da viagem de trabalho.
Na televisão estava passando o jornal. Minha mãe estava achando estranho que eu prestasse atenção em todas as notícias. Eu nunca fui do tipo de pessoa que se importava de ver o jornal, nem mesmo ela assistia às notícias. Se o mundo estivesse para acabar, nós seríamos os últimos a saber.
Meus olhos não saíam da tela da televisão. A cada nova notícia eu pensava "é agora que vão falar sobre mim", mas acabava sendo sobre outra coisa, sobre um assassinato que não foi resolvido, sobre a alta criminalidade, sobre as gangues da cidade, sobre corridas de ruas ilegais que estavam começando a acontecer.
Tudo menos sobre o vigilante que havia surgido na cidade.
Suspirei de novo; dessa vez, pareceu mais um grunido de dor, mas era apenas a mais pura frustração, pois quando finalmente apareceu uma notícia sobre mim agindo como um super-herói, durou apenas um minuto e a repórter parecia estar tentando segurar a risada.
Aquilo me irritou e minha mãe, percebendo isso, me ofereceu um dos biscoitos. Eu aceitei e, mesmo sendo um daqueles biscoitos que você compra no supermercado e não um feito com amor e carinho, o gosto do chocolate pareceu me acalmar.
— Delicioso! — Falei quase derretendo no sofá.
Ainda tinha um pouco de frustração na minha voz.
Minha mãe se sentou ao meu lado e então começou a comer os biscoitos junto de mim. Orion pulou entre a gente. Ela fez carinho nele. O gato primeiro tentou escapar da mão dela, mas, conforme ela começou a acariciar a cabeça dele, logo atrás de suas orelhas, ele começou a relaxar e até a ronronar como se fosse um gato doméstico qualquer.
Ela não questionou de onde o gato tinha surgido, e nem quem teria que cuidar dele. Ela apenas aceitou o fato de que ele estava morando lá também.
Nisso, eu e minha mãe éramos bastante parecidos. Nós dois apenas aceitávamos nossas situações e seguíamos em frente esperando sempre pelo melhor. Eu acho que nunca a vi se preocupar com nada nem quando as coisas ficavam apertadas com as contas e o aluguel.
Muitas vezes, a falta de preocupação dela era até esquisita, mas nunca a ponto de me fazer suspeitar da capacidade dela de prover as coisas para nós dois. Por conta disso, vivíamos tranquilamente. Ela também não era o tipo de mãe que ficava em cima de mim o tempo todo ou me obrigava a fazer as coisas.
Ela apenas mandava que eu estudasse e, de resto, eu podia fazer o que eu quisesse.
Às vezes eu sentia que ela era muito mais como uma irmã mais velha do que minha mãe.
Ela olhou para mim de canto, percebendo que eu estava emburrado ali no sofá. Eu acho que ela nunca tinha me visto daquela forma antes, porque nada tinha me incomodado daquela forma, e não era apenas porque meu ego estava ferido por minhas ações não serem reconhecidas. Era porque isso tornava mais difícil para o meu plano e o do Orion se tornarem possíveis.
— Tudo isso é por causa do tédio? Suas aulas voltam em duas semanas, não é mesmo?
Ela sabia a resposta e sabia que eu não estava incomodado por aquilo, porém, como ela não tinha como saber o verdadeiro motivo para meu incômodo, esse era o melhor chute que ela poderia fazer.
— Não… — respondi, ainda olhando para a TV.
Agora o jornal já tinha acabado e só estava passando propagandas de produtos aleatórios.
A noite na qual eu passei lutando contra criminosos e quase tive um tiro foi ignorada… Como se nunca tivesse acontecido. Mas tinha, definitivamente eu tinha salvado algumas pessoas e ouvi elas me agradecerem.
— Mãe... Você acreditaria se eu dissesse que eu tinha que ter aparecido na tv?
Orion voltou o olhar para mim quando eu disse isso e, em seguida, para minha mãe.
Ela deu uma risadinha.
— Claro, você é um garoto especial! — Ela disse com um dos biscoitos entre seus dentes.
Será que ela acreditaria se eu falasse que eu ganhei superpoderes? Ao me perguntar aquilo, eu percebi um outro problema: se eu falasse que eu saí durante as noites em que ela não estava em casa para lutar contra bandidos, ela provavelmente ficaria irritada comigo e me colocaria de castigo pela primeira vez na vida por eu ter colocado minha vida em perigo.
Isso, se ela acreditasse primeiro, é claro.
— Esse gato me mordeu e me deu superpoderes. — Falei de forma não muito confiante, tentando fazer parecer mais com uma piada do que eu falando sério.
Eu acho que eu tava tão desesperado por algum tipo de reconhecimento que eu tive que falar aquilo para alguém.
Os olhos da minha mãe e do Orion se arregalaram ao mesmo tempo como se eu tivesse falado algo terrível. No caso do Orion, eu entendi isso, pois minha mãe ficaria brava com ele por ele ter me mordido, afinal, na visão dela, mesmo ele sendo fofinho e tal, ele ainda era um gato-vira-lata que poderia estar cheio de doenças.
— E qual o seu superpoder? Ser fofo igual a esse gatinho? — Ela perguntou dando risadinhas e voltou a fazer carinho no Orion, fazendo com que ele relaxasse ao perceber que ela levou aquilo tudo como uma piada.
Meu coração ainda tava batendo forte após ter dito aquilo.
— Não, fofo, eu sempre fui! — Dei uma risadinha e levei minha mão até a cabeça, arrumando o cabelo e tentando parecer mais fofinho que o normal. — Mas eu também sou mais rápido e consigo pular entre os prédios e também sou mais forte agora.
Ela olhou para mim, me encarando por alguns segundos e então segurou meu braço, apertando-o em alguns pontos, como se estivesse analisando-os.
— Parece que você tem mais músculos do que eu pensava. Então você esteve treinando? — Ela falou com orgulho em sua voz.
Acenei com a cabeça.
Nem mesmo eu tinha percebido que meu corpo estava mais musculoso do que antes. Todos os meus sentidos estavam aprimorados, e nas últimas noites eu passei correndo e me exercitando enquanto lutava contra a criminalidade, então não era difícil de acreditar que agora meu corpo estava também se desenvolvendo mais rapidamente com músculos.
Orion pareceu ter lido meu pensamento e acenou de leve com a cabeça confirmando o que eu estava pensando.
— E você vai usar os seus superpoderes para o quê? — Ela perguntou, me entregando outro biscoito e mais três para ela.
— Para ajudar os outros. — Respondi.
Ela sorriu e os olhos dela brilharam tomados de orgulho pelo que eu estava dizendo.
— Esse é meu garoto! — Ela me abraçou e me entregou o prato que ainda tinha alguns biscoitos.
Ela bocejou e se levantou. Mesmo ela tendo recém-voltado da viagem de trabalho, ela teria que acordar cedo na manhã seguinte e então já ir trabalhar de novo.
— Boa noite, Lucas. — Ela falou caminhando pelo corredor.
— Boa noite. — Respondi olhando por cima do sofá e diminuí um pouco o som da tv para não atrapalhar o sono dela.
Esperei alguns minutos e, quando eu acreditei que ela estava dormindo e em um sono profundo, eu fui até o meu quarto e coloquei meu casaco preto, que agora havia se transformado em meu uniforme de super-herói. Orion me acompanhou até a sacada após eu me preparar, e da sacada demos um pulo até o topo do prédio escalando pela beirada.
De novo, o céu parecia ter sido tomado por enormes nuvens de chuva; o céu brilhava de tempos em tempos com os raios que partiam as nuvens. Provavelmente iria chover em breve. Dei um sorriso, mesmo que fosse me molhar; aquele tipo de clima era agradável para mim.
Eu amava o ventinho frio que passava pelo meu rosto. A sensação de que iria chover a qualquer momento me relaxava.
— Mesmo os humanos não tendo espalhado a notícia de que você está usando o seu poder para os proteger, eu acredito que a garota que me atacou pode ter descoberto sobre você. — O gato falou enquanto flutuava ao meu lado.
Nos movíamos rapidamente entre os telhados; em apenas alguns dias, aquilo já se tornou natural.
Era nossa rotina noturna.
— Como você sabe?
— Era uma noite como essa quando ela me atacou. — Ele respondeu.
É mesmo, eu lembro que na noite em que eu conheci ele eu ia assistir uns filmes porque eu queria aproveitar que tava no clima apropriado para ver uns filmes de terror. Parte de mim desejou voltar para o apartamento e assistir a um dos dvds que eu tinha.
Pensando nisso, o Orion provavelmente nunca tinha visto um filme, já que ele era um gato alien... Ele provavelmente gostaria.
Mas a outra parte de mim sabia que isso seria entediante agora, e eu queria encontrar a garota que o atacou. Um relâmpago clareou todo o céu que estava coberto de nuvens pretas. O raio que havia causado isso caiu logo ao meu lado, queimando parte do meu casaco e fazendo com que o chão se tornasse preto.
Eu caí para o lado e Orion foi para o outro lado. Nós deslizamos pelo chão liso do terraço e rapidamente eu me levantei, ficando apoiado em uma parede que dava para a entrada do interior daquele prédio. A alguns metros de distância de nós dois estava uma figura parada segurando um livro em uma de suas mãos. Os mantos brancos nos quais essa figura vestia se moviam conforme o vento assoprava.
Orion mostrou suas presas e garras afiadas.
Isso confirmou que o raio não era apenas uma coincidência, e sim um ataque.
E aquela pessoa com cabelos tão escuros quanto os meus só podia ser a garota que havia atacado ele.