Agora você entende por que eu chamei o Orion de maldito algumas vezes? Bem, é justamente por isso, pois ele basicamente me colocou nesta situação inteira e eu, como um idiota, acreditei que eu realmente era especial e que eu poderia fazer alguma coisa, mas a verdade é que ele apenas tinha cometido um erro ao me morder e me usou para tirar alguma vantagem.
Depois da situação estranha que tinha acontecido, eu voltei para o meu apartamento e entrei pela janela do meu quarto. Já era quase uma da manhã, e eu estava exausto mesmo tendo feito menos coisa do que nas outras noites.
A verdade é que eu só queria ignorar o que tinha acontecido e dormir.
Eu tinha sido idiota. Verdadeiramente idiota, e eu nem entendia totalmente as coisas, mas estava óbvio pela curta discussão que Orion e Liz tiveram: ele queria o livro dela por ter achado que era algo que ele já tinha visto no passado. Ele me usou, acreditando que eu poderia ter ajudado.
E eu acabei ajudando sem nem perceber, pois quando eu distraí a Liz ao reconhecê-la, ele teve a chance de roubar o livro dela.
Me deitei na cama depois de ter tirado meu casaco molhado e trocado o resto das minhas roupas que estavam encharcadas por roupas secas. A minha cama nunca foi tão macia quanto pareceu ser naquela noite.
Eu não tive sonho algum naquela noite, foi estranhamente vazio. E no outro dia eu acordei com o sol passando pela janela aberta. Eu tinha esquecido de fechá-la junto das cortinas, por conta disso, eu também acabei acordando mais cedo do que o normal. Nas férias eu dormia até o meio-dia, mas agora eram recém oito da manhã.
Caminhei pelo apartamento.
Minha mãe não estava em lugar nenhum de lá, já tendo saído para trabalhar algumas horas atrás. Isso era bom, pois eu poderia ficar o resto da manhã sem fazer nada e ela não acharia estranho que eu não estivesse animado.
Eu me joguei no sofá, e liguei a televisão. Estava passando a programação normal da manhã, que consistia em desenhos animados. Mesmo eu já sendo mais velho, era o suficiente para me distrair, e consegui me distrair por alguns minutos até que eu ouvi alguém bater na porta.
— Já vou! — Falei como se fosse a coisa mais normal do mundo e eu estivesse esperando visita.
Eu e minha mãe nunca recebíamos visitas e eu percebi essa contradição quando levantei do sofá. As únicas vezes que batiam na nossa porta eram quando pedíamos comida, mas ainda assim primeiro mandavam uma notificação no celular da minha mãe para avisar que a entrega estava pronta.
Então quem poderia ser?
Talvez eu devesse ignorar?
Mas eu já tinha anunciado que estava indo e a pessoa tinha ouvido que alguém estava no apartamento, mesmo que eu tivesse ficado quieto, provavelmente conseguiriam ouvir o som vindo da televisão.
Eu destranquei a porta e a abri.
Era Liz…
— Como…
— Não foi difícil. — Ela respondeu antes mesmo que eu pudesse perguntar como ela descobriu onde eu morava. — Posso entrar?
Olhei em volta no corredor; o cachorro grandão dela não estava por lá, e ela também não estava vestida com mantos brancos. Ela estava, na verdade, vestida de forma bem casual; era até estranho vê-la assim, pois eu sempre a via no uniforme da escola.
— Claro… — falei, dando um passo para trás, abrindo caminho para ela. — Mas por que você tá aqui?
Perguntar aquilo era só por educação, eu acho; era óbvio que ela queria falar sobre a noite passada, e também eu sabia que poderia ter mais sobre tudo isso.
Provavelmente, ela queria minha ajuda agora para encontrar o Orion.
— Eu só queria saber se você está bem. — Ela falou entrando no apartamento e eu fechei a porta
— Eu estou. — Respondi.
Ela levantou uma sombrancelha com a minha resposta.
— Sério?
Acenei com a cabeça, mesmo sabendo que isso não iria convencê-la.
— Pode falar a verdade, você deve estar super confuso e perdido sobre tudo...
— Na verdade, não. O Orion me deu umas explicações geral sobre as guerras espaciais, e que existem coisas sobrenaturais e outras coisas do tipo. — Respondi me jogando no sofá e movendo as mãos atrás da minha cabeça, ficando bem relaxado.
Ela se sentou de forma mais educada enquanto me encarava. Ela cruzou as pernas.
Ela deu uma risadinha percebendo que eu parecia calmo mesmo sobre toda a situação.
— Eu acho que faz sentido um cara esquisito igual você achar tudo isso normal.
— Sim. — Dei umas risadinhas com ela, mesmo que aquilo que ela falou soasse como um insulto disfarçado.
Eu expliquei para ela o que aconteceu nos últimos dias e ela ouviu com atenção, talvez ela acreditasse que o que eu estava falando daria a ela alguma dica de onde o Orion poderia estar. Eu duvidava que pudesse ser possível. Ainda assim, eu falei detalhadamente de como tinha sido e como ele era.
Quando eu terminei de contar como eu tinha ganhado a capacidade de ver o que estava escondido para o resto das pessoas normais ela soltou um suspiro pesado.
— Então de certo modo foi minha culpa. — Ela falou. — Me desculpe por colocar você nessa bagunça.
— Na real eu deveria te agradecer, eu acho daora pra porra ter essas habilidades e saber a verdade sobre o universo! — Falei com um sorriso.
Ela tinha uma expressão no rosto que eu não conseguia descifrar.
Eu tinha falado algo de errado?
— Mas então você já sabia disso tudo desde sempre por causa da sua família?
— Mais ou menos. — Liz respondeu. — Faz apenas um ano desde que eu fiquei sabendo sobre a ultrarrealidade quando eu recebi o livro de feitiços de minha mãe e passei a ser treinada para ser uma bruxa e então ajudar a manter a ordem mágica no mundo.
Era impressionante, já que ela era a líder da minha turma, tinha notas altas em todas as aulas e ainda estava sendo treinada para ser uma bruxa.
— Ultrarrealidade? Ordem mágica?— Perguntei.
— Ultrarrealidade é tudo o que humanos normais não conseguem enxergar. É o mundo através do véu, e a mesma energia que permite que você veja através deste véu é um tipo de magia. O que me permite ver através do véu é quando eu estou com o meu livro. Quando eu estou sem ele, eu sou basicamente uma pessoa normal.
— No meu caso é diferente então? — Falei olhando para minha mão.
Eu podia sentir a energia em meu corpo, e quando eu me concentrava, eu podia fazer a energia se manifestar de forma física, criando um pouco de iluminação.
— Sim, o Orion despertou algo em você quando te mordeu… — Ela fez um biquinho, provavelmente, pois ela parou de se sentir especial.
Eu dei um sorriso meio envergonhado por ter ouvido de uma garota que eu era especial, mesmo que ela não tivesse falado diretamente.
— Talvez se nós encontrarmos ele, vamos conseguir descobrir mais sobre por que você é especial.
— Eu não tenho a menor ideia de onde ele pode estar. — Respondi.
— Eu também não, e eu não vou pedir para que você me ajude, mas eu preciso encontrá-lo, pois ele é um lorde do universo, e tem uma lenda que diz que, se os quatro lordes se encontrarem, a humanidade será perdida… — ela falou num tom melancólico, como se toda a responsabilidade estivesse caindo sobre ela.
O que parecia verdadeiramente injusto era que esse universo era tão grande assim e ainda dependia de uma única pessoa para resolver as coisas.
— Eu vou te ajudar! Se isso afeta a humanidade, eu preciso fazer algo para proteger minha mãe. — Falei tentando justificar que eu queria fazer algo não apenas pela minha vontade de ser um herói.
— E, na verdade, eu acho que a gente tem, sim, uma dica de como encontrar ele! — Falei percebendo algo sobre o que tinha acontecido na noite passada. — Ele queria o seu livro, pois acho que era um livro de magia especial, o que significa que tem outro parecido com o seu e ele vai estar procurando!
Liz abriu um sorriso.
— É um bom ponto de partida. Eu vou investigar e, se eu encontrar alguma coisa, eu te mando uma mensagem. — Ela falou, levantando-se.
— Claro. — Respondi, me levantando com ela, e a acompanhei até a saída.
— Ah! Eu sei que você esteve agindo como um vigilante durante as noites também. Eu não vou falar para você não fazer isso, mas tente não chamar atenção demais. Tem certas entidades do governo que podem tomar um certo interesse em você e isso sempre significa problemas.
— Eu sei, eu vou tomar cuidado. — Respondi já tendo visto diversos animes e filmes onde pessoas com poderes eram caçadas para serem estudadas por cientistas do governo. Eu realmente não queria aquilo acontecendo comigo, então eu ia tomar mais cuidado, sim.